UX DESIGN COMO TECNOLOGIA DE CAPTURA: ANÁLISE CRÍTICA DAS PLATAFORMAS DE APOSTAS ESPORTIVAS NO BRASIL

  • Autor
  • Esther de Carvalho Tavares MOREL
  • Resumo
  • Este trabalho apresenta um recorte analítico derivado de pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano, que investigou criticamente o papel do UX Design nas plataformas de apostas esportivas no Brasil, compreendendo a forma com que a experiência do usuário é estruturada como dispositivo de mercantilização do lazer e de transferência de renda da classe trabalhadora para capitais privados majoritariamente estrangeiros.

    O objeto empírico compreende os aplicativos móveis de Android das plataformas bet365, Betano, Betnacional e Esportes da Sorte, analisados no segundo semestre de 2025. A metodologia articula observação sistemática das interfaces com análise crítica dos elementos de design presentes nos fluxos de cadastro, depósito, aposta e saque, identificando padrões que indicam uma racionalidade produtiva no setor, articulada ao financiamento publicitário e à centralidade do futebol midiatizado. A arquitetura das interfaces revela-se orientada à indução contínua à ação e à aceleração do compromisso financeiro do usuário, integrando experiência, monetização e retenção em um mesmo circuito.

    São três os eixos teóricos mobilizados: (1) a crítica ao UX Design (Norman, 2003; 2006; Fogg, 2009; Brignull, 2023) evidencia como princípios associados à usabilidade foram subordinados aos imperativos de acumulação do capitalismo de plataforma (Srnicek, 2016), convertendo experiência em vetor estratégico de retenção e extração de valor; (2) a Economia Política da Comunicação (Bolaño, 2000; Figueiredo; Bolaño, 2017; Marx, 2017) permite compreender as plataformas de apostas esportivas como agentes das indústrias midiáticas contemporâneas, nas quais propaganda, publicidade, programa e interatividade operam de forma articulada para expandir mercado e legitimar a aposta como extensão da cultura futebolística; (3) os conceitos de colonização do lazer (Lefebvre, 2024), pseudoconcreticidade (Kosík, 2002) e capitalismo 24/7 (Crary, 2016) situam a captura do tempo livre como dimensão estrutural desse modelo industrial.

    A análise confirma a hipótese central: o UX Design atua como tecnologia de captura integrada ao modelo de negócios em contexto de plataformização (Poell; Nieborg; van Dijck, 2020), reforçando crenças midiatizadas associadas à ascensão econômica rápida e à meritocracia. Três achados estruturam a investigação: a ausência de tutoriais sobre o funcionamento das plataformas desloca a aprendizagem para a experimentação marcada por tentativa e erro, dinâmica fundamental à retenção; os fluxos de cadastro e depósito reduzem fricção cognitiva e aceleram o compromisso monetário; as odds dinâmicas, as apostas pré-prontas e os elementos do design persuasivo produzem a aparência de objetividade técnica que encobre a lógica algorítmica orientada à maximização do lucro.

    O UX Design revela-se, sob análise crítica, como tecnologia de captura de atenção, colonização do tempo e transferência direta de renda da classe trabalhadora para os proprietários das plataformas. O design, assim, não atua apenas na interface, mas na própria mediação entre capital e usuário. Longe de ser recurso técnico neutro, integra o aparato produtivo das indústrias midiáticas plataformizadas e reorganiza a vida cotidiana ao naturalizar a aposta como prática permanentemente disponível e financeirizada, incorporada ao ato de torcer.

  • Palavras-chave
  • apostas esportivas; UX Design; economia política da comunicação; cotidiano midiatizado; plataformização
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 3 - Indústrias Midiáticas
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