A violência contra a mulher constitui um fenômeno estrutural das sociedades capitalistas, atravessado por relações históricas de poder que organizam as desigualdades de gênero e impactam diretamente a formulação e a operacionalização das políticas públicas. No contexto brasileiro, a institucionalização dos Centros de Referência de Atendimento às Mulheres (CRAMs) representa um avanço no enfrentamento à violência doméstica, configurando espaços estratégicos de acolhimento, orientação e garantia de direitos. Contudo, tais instituições não operam de forma neutra: são atravessadas por construções simbólicas, normativas e políticas que estruturam as relações de gênero.Este trabalho parte da seguinte problemática: como o gênero, compreendido como categoria analítica segundo Joan Scott (1995), particularmente em sua dimensão institucional, articula-se às práticas de mediação da informação no Centro de Referência da Mulher Ednalva Bezerra (CRMEB)? O objetivo é analisar a mediação da informação no CRMEB a partir da dimensão institucional do gênero, compreendendo como as estruturas organizacionais, os fluxos informacionais e as práticas mediadoras materializam, tensionam ou ressignificam as relações de poder no enfrentamento à violência contra a mulher.O marco teórico fundamenta-se na concepção de gênero proposta por Scott (1995), que o define como elemento constitutivo das relações sociais e forma primária de significação das relações de poder. Destaca-se, entre as quatro dimensões apresentadas pela autora, a institucional, entendida como espaço de formalização de normas, discursos e práticas. No campo da Ciência da Informação (Araújo, 2013; 2016), dialoga-se com os estudos sobre mediação da informação a partir de Gomes (2014) e Cavalcante (2022), compreendendo-a como processo relacional, situado e político, que envolve interpretação, apropriação e produção de sentidos.Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza bibliográfica e analítica, realizada a partir de levantamento na Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI). Foram identificados sete artigos que abordam o CRMEB como objeto de estudo; seis compuseram o corpus analítico, tendo um sido excluído por indisponibilidade de acesso. A análise foi conduzida à luz da categoria institucional do gênero proposta por Scott.A discussão preliminar evidencia que o CRMEB opera como dispositivo institucional de mediação da informação, no qual se articulam protocolos, registros documentais, sistemas informacionais e práticas de escuta que produzem sentidos sobre a violência, a vulnerabilidade e a autonomia das mulheres. Observa-se que tais práticas podem tanto reproduzir enquadramentos normativos quanto favorecer processos de ressignificação e fortalecimento informacional. Como hipótese central, sustenta-se que a mediação da informação, quando analisada sob a dimensão institucional do gênero, revela-se um espaço de disputa simbólica e política, no qual se negociam reconhecimento, direitos e possibilidades de emancipação.Ao articular gênero, instituição e mediação informacional, o estudo contribui para o campo crítico da Economia Política da Comunicação ao evidenciar que as estruturas institucionais de enfrentamento à violência são também espaços de produção de sentidos e de reprodução ou tensionamento, das hierarquias de gênero.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)