O arquivo pessoal de Lygia Clark, sob custódia da Associação Cultural Lygia Clark, reúne documentos que acompanham deslocamentos decisivos de sua trajetória, sobretudo o período entre 1976 e 1988, quando retorna ao Brasil e passa a se dedicar a experiências terapêuticas derivadas de suas proposições sensoriais. Esses registros, organizados na coleção denominada Casos Clínicos, foram produzidos em diferentes versões, com reescritas e procedimentos de anonimização que indicam um processo contínuo de elaboração.
Os Casos Clínicos não podem ser compreendidos apenas como documentação de atendimentos, nem como simples prolongamento de sua produção artística anterior. Ao integrarem o arquivo e passarem a ser geridos por uma instituição responsável por seu legado, esses documentos assumem outro estatuto. Tornam-se parte de um patrimônio artístico cuja organização, preservação e circulação envolvem escolhas, critérios e disputas relacionadas ao próprio funcionamento do campo cultural.
A pesquisa parte da hipótese de que o arquivo não atua somente como guardião da memória, mas como instância ativa na produção de valor simbólico e na consolidação de narrativas sobre a artista. Examinar os Casos Clínicos implica considerar as condições institucionais que favoreceram sua visibilidade, as formas de gestão que os enquadram e os regimes de acesso que delimitam sua consulta. Interessa compreender como determinadas práticas passam a ser reconhecidas como parte da obra e como esse reconhecimento se relaciona a processos de legitimação, patrimonialização e circulação no circuito artístico.
O estudo dialoga com a Economia Política da Cultura ao situar o arquivo no interior das relações entre Estado, associações culturais e mercado. A constituição de um legado artístico envolve não apenas preservação, mas administração de direitos, organização de acervos, definição de políticas de acesso e construção de autoridade sobre a memória. Arquivos pessoais de artistas tornam-se, nesse contexto, ativos estratégicos mobilizados na produção de reputação, na valorização de obras e na inserção internacional.
Ao analisar a formação e a custódia do arquivo de Lygia Clark, buscamos evidenciar como essas dinâmicas incidem sobre a leitura de sua fase terapêutica, frequentemente marginalizada nas narrativas consagradas. O caso permite refletir sobre o lugar do trabalho artístico e intelectual nas formas contemporâneas de organização do campo cultural, bem como sobre os limites éticos implicados na preservação e divulgação de informações sensíveis.
Em diálogo entre História e Ciência da Informação, a pesquisa sustenta que arquivos pessoais são espaços de produção de sentido e de exercício de poder. A análise dos Casos Clínicos, integrada ao conjunto documental da artista, contribui para compreender como memória, institucionalização e economia simbólica se articulam na configuração do campo cultural brasileiro
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)