Desde 2016, a TV Globo tem desenvolvido uma campanha institucional, editorial e publicitária voltada ao agronegócio que, ao longo do tempo, passou por reformulações discursivas significativas. Essas mudanças revelam deslocamentos simbólicos na forma como o “agro” é apresentado ao público. Mais do que informar, tais narrativas passam a atuar como dispositivos de identificação e legitimação social, inserindo-se em um projeto comunicacional contínuo da emissora junto ao setor do agronegócio, articulado às transformações do capitalismo contemporâneo e às disputas por hegemonia.
O presente estudo tem como objetivo identificar o que chamamos de diferentes fases discursivas da campanha institucional do agronegócio na TV Globo ao longo destes 10 anos, evidenciando o percurso que vai de um discurso inicialmente informativo-pedagógico à atual estratégia de identificação social. Essas transformações integram um processo mais amplo de busca por produção de consenso social em torno do agronegócio, no qual a comunicação atua como instância mediadora entre interesses econômicos, culturais e sociais, contribuindo para a naturalização simbólica do setor na sociedade.
A pesquisa fundamenta-se teoricamente na Economia Política da Comunicação, com César Bolaño (2000, 2003 e 2006) e Jacqueline Dourado (2012 e 2013). A partir de Bolaño, compreende-se a comunicação como mediação estrutural do capitalismo e a indústria cultural a partir de suas funções ideológicas, publicitárias e programáticas na produção de conteúdo, discutindo também o conceito de merchandising social. Já Dourado contribui para a compreensão da pedagogia midiática e das estratégias de legitimação simbólica operadas pelas campanhas institucionais, especialmente no tensionamento entre informação, publicidade e interesse público.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada em revisão bibliográfica e análise de conteúdo. O corpus é composto por três vídeos da campanha institucional da TV Globo, selecionados por representarem momentos de virada na trajetória discursiva, assim identificadas neste estudo: Agro: a indústria-riqueza do Brasil (2016), Agro é gente (2021) e Agro: de gente pra gente (2023–atual).
A análise desses materiais, considerando elementos verbais, visuais e simbólicos, permite observar continuidades e reordenamento narrativo da campanha ao longo dos anos. Os resultados apontam para três fases discursivas principais. A primeira caracteriza-se por um discurso informativo-pedagógico, voltado à explicação do agronegócio e à sua inserção no cotidiano da população, reforçando sua centralidade econômica e social por meio de uma linguagem didática e simplificadora. A segunda fase desloca o foco para a humanização do agronegócio, enfatizando sujeitos, trajetórias individuais e o trabalho humano como estratégia de redução de distâncias simbólicas e de suavização de tensões associadas ao setor. A terceira fase, mais recente, aprofunda essa lógica ao investir na identificação social e afetiva, apresentando o agronegócio como uma relação próxima, promovendo vínculos de pertencimento e reconhecimento na vida cotidiana.
Conclui-se que a campanha institucional da TV Globo opera como um dispositivo comunicacional voltado à busca por produção de consenso, no qual a passagem do discurso pedagógico à identificação social contribui para a legitimação simbólica do agronegócio. Esse processo atua na naturalização do setor no imaginário midiático e social, por meio de estratégias discursivas de identificação, proximidade e pertencimento.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)