UM FEITIÇO DO TEMPO NA TELEVISÃO E NO CAPITALISMO (DE PLATAFORMA): O REMAKE DO SONHO PELA TV 3.0

  • Autor
  • Janaine Aires
  • Co-autores
  • Diogo Camelo , Suzy dos Santos
  • Resumo
  • RESUMO 

     

    Mais uma Copa do Mundo se aproxima com novidades nas políticas de comunicação nacionais : a TV 3.0 (Brasil, 2025). Este modelo híbrido promete unir a televisão aberta à lógica das plataformas digitais e vem sendo celebrado como um pontapé para uma nova fase econômica da TV. Desde a redemocratização, as políticas de comunicação brasileiras seguem na contramão global (Santos, 2016). No entanto, o sonho da digitalização da TV, como nos lembra Patrícia Maurício (2022), era transformá-la em um instrumento de inclusão digital e de acesso a serviços públicos, aproveitando sua presença massiva nos lares brasileiros. 

    A TV a Cabo, a Internet comercial, a TV digital, entre tantas outras tecnologias resumidas em siglas de 3 a 5 letras, tais como UHF, MMDS, DTH, VOD, entre outras, foram promessas de ampliação da cidadania e da democratização das comunicações que ouvimos nas décadas passadas, mas os projetos logo sucumbiram aos interesses de mercado, reduzindo-se, na maioria dos casos,  à melhoria técnica das imagens e à possibilidade de multiprogramação, frequentemente subaproveitada. Na DTV+, como também é denominada, a interatividade retorna sob outra racionalidade: não para incluir, como no princípio, e sim para extrair dados e vender itens de consumo. Os canais se tornarão aplicativos e demandam sistemas operacionais e serviços de nuvem que podem favorecer os grandes conglomerados tecnológicos capazes de estruturar ecossistemas que viabilizem o volume do fluxo de dados e o prometido T-commerce. 

    Este artigo argumenta que a TV 3.0 representa uma reconfiguração estrutural da televisão brasileira sob a lógica concentradora do capitalismo de plataforma (Srnicek, 2017). As mutações infraestruturais levantam questões regulatórias centrais: quem controlará os dados gerados? Onde serão armazenados? Sob quais padrões tecnológicos e com que grau de autonomia nacional? Como as empresas de atuação local e regional se adequarão? 

    Sustentamos que, tal como vem sendo gestada, a TV 3.0 pode aprofundar a concentração da mídia no Brasil (Cabral, 2023) e reforçar assimetrias já existentes sob a lógica do “vencedor leva tudo” (Bastos, 2021), fortalecendo a principal empresa do setor, o que não deve ser confundido com soberania. Retomamos, nesse sentido, o diagnóstico de dependência formulado por Sérgio Capparelli (1982). Se antes a subordinação se expressava na importação de equipamentos, formatos e capital estrangeiro, hoje ela se desloca para a dependência de infraestruturas digitais controladas por corporações globais. A transformação da Globo em Mediatech ilustra esse movimento, apoiada em parcerias com Google, Accenture, Palantir e Salesforce (Silva, 2024), preservando o traço histórico de vinculação a soluções tecnológicas desenvolvidas por empresas estadunidenses.

     

    Por isso, o artigo analisa criticamente o ambiente competitivo que estas mudanças trarão para as empresas privadas de televisão brasileiras, mobilizando métodos dos estudos de futuro (Leite; Janick; Martins, 2021) para avaliar seus desdobramentos regulatórios, econômicos e concorrenciais. Bem como refletiremos sobre a proposta de criação da Plataforma Comum de Comunicação Pública e Governo Digital. Sustentamos que, sem participação social efetiva e uma política regulatória integrada capaz de enfrentar as assimetrias infraestruturais e políticas já existentes, tais inovações podem acentuar os desequilíbrios. 

     
  • Palavras-chave
  • TV 3.0, Capitalismo de plataforma, Regulação, Políticas de Comunicação, Economia Política da Comunicação
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 1 - Políticas de Comunicação
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