Em 1995 foram ao ar, pela primeira vez, a Rádio Cantareira (Figura 1) e a Rádio Urbanos (Figura 2), fruto da luta de moradores e movimentos sociais da Brasilândia e de Pirituba, em um contexto de agitação política e cultural na Zona Noroeste de São Paulo (SP). Este território que se originou a partir do desmembramento de antigas fazendas sempre foi um lugar de resistência, abrigando populações negras e indígenas escravizadas, além de parte das pessoas removidas do centro da cidade e migrantes vindos de outras regiões do país e do mundo (BISCHAIN, 2021).
Ocupando faixas de baixa potência (até 25 watts) e cobertura restrita (raio máximo de um quilômetro), operadas por associações sem fins lucrativos, essas rádios comunitárias cumprem, desde então, um papel fundamental na democratização da comunicação, abrindo espaço para as demandas dos lugares, especialmente aquelas marginalizadas pelos conglomerados de mídia (PERUZZO, 2004; QUINTINO, 2025). Após décadas de perseguição do Estado, se a internet proporcionou uma quebra na barreira geográfica, por outro lado, muitas rádios comunitárias seguem negligenciadas pela política pública.
Utilizando o método de amostragem não-probabilística conhecido como bola de neve (VINUTO, 2014), buscamos investigar e situar, por meio da bibliografia, do levantamento de dados e entrevistas, a comunicação ascendente (PASTI, 2021) e as densidades comunicacionais (SANTOS, 1996) nos distritos de Brasilândia e Pirituba, Zona Noroeste de São Paulo (SP).
No Brasil, assim como em diversos países da América Latina, impera uma histórica concentração midiática, qualificada em termos de localização geográfica, audiência, propriedade, transparência e interferências econômicas, políticas e religiosas (INTERVOZES, 2017). Enquanto os territórios da mídia seguem associados à formação de centralidades econômicas e demográficas, que se dispõem como nós na rede de produção e circulação de notícias (FERNANDES & PASTI, 2023), amplia-se o domínio da mídia global sobre os veículos nacionais, da mídia hegemônica sobre os jornais e rádios regionais-locais e da Região Concentrada (SANTOS & SILVEIRA, 2001) sobre o restante do país.
Na comunicação comunitária os lugares são articulados em suas relações solidárias e conflituosas, na perspectiva da ampliação dos direitos sociais e do repertório político dos sujeitos, bem como do fortalecimento da sua capacidade associativa e participação ativa no mundo. Para Martin-Barbero (1999, p. 78-79), “estes movimentos, pequenos, em sua maioria, inarticulados, à medida que se articulem [...] irão criando redes de formação de cidadãos que vão ser muito eficazes, para fazer com que essas vozes dispersas comecem a tomar corpo”. Isso perpassa diversas escalas, incluindo uma agenda Sul-Sul para promoção de vozes internacionais (AGUIAR, 2020). Como afirmam Arroyo e Pasti (2022, p. 747), com “heranças legadas no território usado, esse conjunto de lutas deixa transformações nas materialidades e no imaginário e permanece no repertório de ações para a construção de um outro futuro”. A ampliação do acesso às técnicas da informação poderiam levar a outros usos do território, ao aumento da diversidade e pluralidade e, assim, ao fortalecimento da democracia e da cidadania. A ausência desses processos tende a rebaixá-las.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)