Este trabalho busca defender a importância da cibernética em sua ligação com a Ciência da Informação. Tal articulação é tecida sob duas vertentes: (1) o contexto político e científico que marca o nascimento do movimento cibernético, rememorando seu desenvolvimento durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, a despeito do caráter costumeiramente descrito como neutro e apolítico; (2) as bases epistemológicas e filosóficas que caracterizam a cibernética de primeira ordem, argumentando-se que nesta repousam preceitos identificáveis na sociedade em rede das atuais tecnologias de informação e comunicação (TIC).
Torna-se incontornável, para que os objetivos aqui sejam atingidos, uma breve análise de obras de Norbert Wiener (1950, 2019), William Ross Ashby (1961), Warren McCulloch e Walter Pitts (1990), além de Shannon e Weaver (1964). A partir dos quatro primeiros, é possível apresentar e desenvolver alguns dos principais conceitos cibernéticos, tais como o feedback e a homeostase, incontornáveis quando o assunto absorve a “comunicação e controle entre máquinas e seres humanos”, além da base teórica que incentivou o desenvolvimento das redes neurais no âmbito da inteligência artificial, através do modelo teórico pioneiro de McCulloch e Pitts.
A relevância da teoria da informação de Shannon e Weaver no campo da Ciência da Informação é indiscutível; no entanto, a proximidade de Claude Shannon com a cibernética de primeira ordem é raramente destacada. Os aportes de Steve Joshua Heims (1991) são ricos para explorar esses detalhes, enquanto as análises de Álvaro Vieira Pinto (2008) situam a cibernética em um plano crítico dialético-materialista aprofundado, ao associá-la à conjuntura política e econômica que era negligenciada no cerne de seu discurso.
Metodologicamente, adota-se uma abordagem teórica, qualitativa e exploratória, inspirada no paradigma indiciário de Carlo Ginzburg: coletam-se e articulam-se indícios teóricos e conceituais (textos clássicos da cibernética, críticas filosóficas e aportes da ciência da informação) para construir uma leitura crítica e sintética, de integração e imanência do passado cibernético com o presente das TIC contemporâneas e da inteligência artificial generativa. Para tal, será interessante visitar alguns preceitos do positivismo lógico como estruturantes da filosofia basilar da cibernética de primeira ordem, o que será feito através da inserção da filosofia do primeiro Wittgenstein, em seu Tractatus Logico-Philosophicus (2022 [1921]), analisado sob o escrutínio da cibernética de segunda ordem, sendo Gregory Bateson (2025) e Heinz von Foerster (1984), autores que privilegiam a inclusão do observador na análise dos sistemas cibernéticos, bem como seus potenciais de auto-organização.
Em suma, pretende-se demonstrar como modelos teóricos e dispositivos técnicos (feedback, homeostase, modelagem lógico-formal) influenciaram a transformação dos fenômenos informacionais, alterando práticas sociais, subjetividades e relações de poder. Exemplos recentes de falhas sistêmicas e da centralidade das infraestruturas digitais ilustram o alcance sociopolítico dessas configurações e reforçam a pertinência do tema: admite-se que a cibernética constitui um marco epistemológico incontornável para a formalização da informação enquanto objeto científico.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)