O fim da parceira Globo x Gazeta e a entrada do grupo Asa Branca coloca, mais uma vez, na perspectiva da Economia Política da Comunicação, elementos fundamentais para a compreensão das dinâmicas oligárquicas em Alagoas. Trata-se da mudança mais relevante do setor, desde a falência do grupo O Jornal.
A opção da Rede Globo por uma empresa de fora de Alagoas e com quem já mantinha uma relação comercial coloca uma questão fundamental, inédita em Alagoas e rara no setor de televisão brasileiro. É a primeira vez que um grupo de mídia não controlado pelas oligarquias locais se torna o gestor direto de uma afiliada de rede de televisão, em especial da maior e mais poderosa do país.
O desfecho é o resultado de uma longa disputa judicial, que analisamos no presente trabalho. A família Collor, proprietária da TV Gazeta de Alagoas, parte do grupo de mídia da Organização Arnon de Mello e representada por seu agora ex-presidente, Fernando Collor de Mello, havia conseguido, durante 3 anos, obrigar a Rede Globo, da família Marinho, a manter o contrato de afiliação celebrado entre os dois grupos no ano de 1975.
A disputa tem início em 2023, com a condenação do senador a 8 anos e 10 meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, tendo sido apontado pelo Ministério Público Federal a utilização da empresa de comunicação para as operações ilícitas. A Rede Globo comunicou o encerramento da parceria, mas foi surpreendida com uma decisão judicial dos tribunais alagoanos, onde tramita um processo de recuperação judicial das empresas de Collor.
A justiça de Alagoas entendeu e acolheu (em primeira e segunda instância) o pedido da defesa da TV Gazeta de manutenção compulsória da parceria, já que o fim dos repasses decorrentes da afiliação com a Globo levariam a empresa à falência e à impossibilidade de honrar compromissos com os credores, entre eles dezenas de trabalhadores demitidos nos últimos anos (Azevedo e Barbosa, 2022). O fim da parceria só viria em 26 de setembro de 2025, véspera do aniversário de 50 anos da TV Gazeta (e da parceria com a Globo), por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luís Roberto Barroso.
Os movimentos do mercado de televisão em Alagoas decorrentes dessa disputa são observados à luz da EPC, em particular a partir dos postulados na obra Mercado Brasileiro de Televisão (Bolaño, 2004) e demais pesquisas relacionadas (Brittos, 2001), bem como se relaciona com pesquisas anteriores já voltadas para o contexto alagoano (Santos e Azevedo, 2016; Santos et. all, 2008).
Observamos, a partir da análise, que os próximos anos serão importantes para o rearranjo das forças políticas no Estado. A tendência é pela busca de uma relativa estabilidade no setor de televisão, ainda que alguns atores que ascenderam fortemente nos últimos anos, ainda estejam se movimentando (especialmente os clãs Calheiros, Lira e Caldas, cujas principais figuras estão em franca movimentação durante este ano em que se realizam eleições gerais, em que buscam afirmar sua hegemonia no estado).
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)