Este texto tem o objetivo de apresentar um debate ainda introdutório sobre a atualidade da obra inaugural de Cicilia Krohling Peruzzo, Relações Públicas no modo de produção capitalista, resultado de sua dissertação de mestrado, defendida pela ECA-USP em 1981 e publicada como livro em 1986. As discussões aqui apresentadas são inquietações que surgiram durante a oferta da disciplina de Relações Públicas Comunitárias para estudantes do terceiro ano de Relações Públicas da Universidade Estadual de Londrina e das reflexões desenvolvidas no grupo de pesquisa CUBO – Economia Política da Comunicação e Crise do Capitalismo.
Apesar de quarenta anos passados, a obra de Peruzzo (1986) continua válida para as discussões sobre a natureza das Relações Públicas, sendo difundida como leitura fundamental para um entendimento crítico e dialético da profissão. Seu caráter atemporal reside menos nas formas históricas específicas analisadas e mais na permanência das determinações estruturais que articulam comunicação, ideologia e reprodução do capital. Ainda que o capitalismo tenha passado por profundas transformações, a função da comunicação na construção do consenso e na gestão da reprodução do capital permanece, em muitos aspectos, intensificada.
Em texto recente, Peruzzo (2011) analisa as Relações Públicas no contexto do chamado capitalismo cognitivo, ressaltando a centralidade da informação, das tecnologias digitais e da gestão da subjetividade na dinâmica contemporânea do capital. Essa atualização dialoga com debates desenvolvidos no interior da Economia Política da Comunicação, especialmente quanto à centralidade da comunicação na organização social do capitalismo. Nessa direção, Bastos e Bolaño (2020) indicam que a comunicação deve ser compreendida a partir de um pensamento materialista, atenta às determinações históricas e às mediações estruturais que articulam cultura, ideologia e acumulação. Embora haja divergências no campo quanto às ênfases interpretativas, é possível reconhecer aproximações entre a leitura de Peruzzo e as formulações da EPC, sobretudo na compreensão da comunicação como dimensão constitutiva da reprodução social.
No capítulo final de Relações Públicas no modo de produção capitalista, Peruzzo (1986) explicita os limites estruturais das Relações Públicas articuladas à lógica empresarial e aponta a necessidade de considerar práticas comunicacionais orientadas pelos interesses das classes subalternas, abrindo espaço para a reflexão sobre as Relações Públicas comunitárias e a Comunicação Popular e Comunitária. Trata-se de uma forma social da comunicação oriunda de práticas vinculadas às lutas de classes no interior do modo de produção capitalista. A atualização desse debate exige considerar as transformações no mundo do trabalho, marcadas pela precarização, fragmentação e reconfiguração das experiências coletivas. Tais mudanças também reconfiguram a Comunicação Popular e Comunitária, que passa a atuar em ambientes plataformizados, dependentes de infraestruturas privadas e atravessados por disputas simbólicas mais difusas. Nesse cenário, intensificam-se os desafios relativos à visibilidade, à organização da classe trabalhadora e à mediação política, impondo novas condições de atuação às experiências comunicacionais vinculadas aos movimentos populares e às suas formas organizativas tradicionais.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)