Relato de experiência
Introdução
O presente relato resulta da visita ao Mercado e à Feira Municipal de Pirapora/MG, com o propósito de investigar o uso da Matemática nas práticas cotidianas dos feirantes locais. A atividade integra o projeto “A Matemática vai à feira”, cujo objetivo é aproximar os conteúdos escolares das práticas sociais, promovendo um ensino mais significativo e contextualizado. A observação direta das interações e procedimentos realizados pelos feirantes possibilitou reflexões sobre o currículo real da escola e o currículo oculto — conceito central de Tomaz Tadeu da Silva (1999) — que diz respeito aos aprendizados adquiridos nas relações sociais e culturais, ainda que não previstos nos planejamentos formais.
Fundamentos Teóricos
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com a aplicação de entrevistas semiestruturadas a três feirantes, além de observação participante e registro de dados em campo. Os relatos foram analisados à luz de autores como Ausubel (2003), Vygotsky (1998) e Tomaz Tadeu da Silva (1999), estabelecendo uma articulação entre teoria e prática pedagógica.
Segundo Ausubel (2003), a aprendizagem significativa ocorre quando novos conhecimentos se ancoram em saberes já existentes. O contato com situações reais facilita essa ancoragem e dá propósito à aprendizagem. Vygotsky (1998) destaca a importância da interação social e da mediação docente na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP).
Coll, Palacios & Marchesi (2002) reforçam o papel do professor como mediador do conhecimento coletivo. Johnson & Johnson (2009) enfatizam a interdependência positiva em atividades cooperativas. Freudenthal (1991) e Ponte (2007) defendem o ensino da Matemática como atividade humana significativa.
Apresentação da experiência
Este relato integra o projeto "A Matemática vai à Feira", que propõe uma abordagem prática e envolvente do ensino de Matemática, a partir de situações reais vivenciadas em feiras livres. Essa proposta permite integrar os conteúdos escolares ao contexto social e cultural dos feirantes entrevistados e, posteriormente, ao dos alunos, tornando o aprendizado mais significativo e contextualizado.
Frequentemente percebida como abstrata e distante da realidade, a Matemática pode se revelar um instrumento essencial de compreensão e interação com o mundo. Em Pirapora/MG, cidade marcada por intensa atividade comercial e cultural, o Mercado Municipal e a Feira de domingo destacam-se como espaços ideais para essa proposta. O projeto foi desenvolvido no âmbito da disciplina "Fundamentos e Metodologia da Matemática II", no curso de Pedagogia do Campus de Pirapora.
O mercado funciona de segunda a sexta-feira, com maior movimentação aos sábados pela manhã, enquanto a feira ocorre aos domingos em outro bairro, recebendo parte dos mesmos feirantes e outros novos. Esses ambientes vibrantes representam oportunidades de aprendizagem prática, onde operações matemáticas são naturalmente aplicadas:
· Operações Aritméticas: cálculo de troco, soma de produtos, aplicação de descontos.
· Geometria: formas de embalagens, organização de barracas e produtos.
· Sistemas de Medidas: uso de unidades de peso (kg, g), volume e medidas lineares.
Essas práticas promovem o desenvolvimento de habilidades como estimativas, proporção, resolução de problemas, planejamento financeiro e leitura de dados. Ao conectar teoria e cotidiano, a experiência favorece um aprendizado mais ativo e significativo.
Objetivo Geral:
Desenvolver habilidades matemáticas de forma prática e contextualizada, utilizando a feira como cenário pedagógico.
Objetivos Específicos:
· Estabelecer conexões entre a Matemática e a realidade cotidiana dos alunos.
· Explorar o conceito de números e operações básicas (adição, subtração, multiplicação, divisão).
· Trabalhar o sistema monetário: valores, trocos e orçamentos.
A proposta incluiu oficinas com estudantes de Pedagogia (5º período), orientadas pela professora Nathany Santos, envolvendo temas como operações matemáticas, geometria, e grandezas e medidas. Posteriormente, foi realizada visita ao Mercado Municipal com entrevistas a feirantes.
Dois roteiros de entrevista foram elaborados: um com perguntas gerais (estoque, perdas, sazonalidade, valores ao longo do dia), e outro específico (conceitos matemáticos usados, nível de escolaridade, dificuldade com cálculos). As perguntas eram adaptáveis conforme a receptividade dos três entrevistados.
Análise parcial dos resultados
Os três entrevistados (S1, W2, Z3) demonstraram vivências matemáticas autênticas:
- S1: Trabalha com caldo de cana; utiliza soma, porcentagem, cálculo mental, avalia sazonalidade e evita perdas. Mesmo sem escolarização completa, apresenta competências relevantes.
- W2: Vende temperos e farinha; aplica operações aritméticas e sistemas de medidas. Prefere padrões visuais (copos) às colheres por falta de uniformidade.
- Z3: Trabalha com temperos e doces; tem dificuldades com divisão e precificação proporcional, apesar de ter ensino médio completo.
Uma situação adicional mostrou um senhor solicitando ajuda para interpretar um comprovante de PIX. A discussão envolveu datas, horários, valores, códigos e conferência de extratos bancários, demonstrando competências matemáticas aplicadas a tecnologias contemporâneas.
Os feirantes entrevistados demonstraram domínio de diversas competências matemáticas, como operações aritméticas, uso de sistemas de medidas e noções espaciais, muitas vezes sem a consciência formal desses saberes. Um dos entrevistados mencionou dificuldades em cálculos proporcionais, revelando lacunas em sua formação escolar. Ainda assim, suas práticas evidenciam habilidades matemáticas construídas no cotidiano e, em geral, desconsideradas pela escola. O uso do PIX, por exemplo, gerou reflexões sobre segurança, controle financeiro e interpretação de dados, envolvendo leitura de extratos e noções temporais. Tais saberes, adquiridos fora do ambiente escolar, configuram um currículo oculto que ensina valores, normas e habilidades essenciais à vida em sociedade, mas que não estão explicitamente presentes nos conteúdos escolares.
Conclusões
O projeto promoveu integração entre escola e comunidade, fortalecendo a compreensão da Matemática como instrumento de participação social. Ao aproximar a teoria da prática, despertou nos alunos um olhar crítico e investigativo, alinhando-se ao eixo temático desse congresso.
A experiência revelou a feira como espaço de aprendizagem rica e concreta. Para os futuros pedagogos, o projeto significou um novo olhar sobre a Matemática: como ciência viva, inserida nas relações humanas e essencial para a compreensão da realidade. Ao contextualizar o ensino, promovemos uma educação mais significativa, inclusiva e humanizadora.
Além disso, a vivência evidenciou como o currículo oculto se manifesta nas práticas sociais cotidianas. Mesmo sem seguir um currículo formal, os feirantes constroem e aplicam saberes matemáticos relevantes, revelando que o aprendizado ocorre em múltiplos contextos e formas. Reconhecer esses saberes é essencial para uma pedagogia mais crítica, que valorize a diversidade dos conhecimentos presentes na vida cotidiana. Formar professores atentos a esse currículo implícito é também formar educadores mais sensíveis às realidades dos alunos, comprometidos com uma educação que respeite e acolha a diversidade dos saberes presentes na vida cotidiana.
Referências
AUSUBEL, David P. Aprendizagem significativa: teoria e aplicações. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2003.
COLL, César; PALACIOS, Jesús; MARCHESI, Álvaro. Desenvolvimento psicológico e educação. v. I. Porto Alegre: Artmed, 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREUDENTHAL, Hans. Matemática: ser e fazer. Petrópolis: Vozes, 1991.
JOHNSON, David W.; JOHNSON, Roger T. Cooperação e competição: teoria e pesquisa. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.
PONTE, José Pedro da. Ensinar e aprender matemática: perspectivas para uma sociedade crítica. Lisboa: EDUCS, 2007.
SILVA, Tomaz Tadeu Da. Que esconde o currículo oculto? In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
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Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica