Introdução
O Atendimento Educacional Especializado (AEE), previsto constitucionalmente como ferramenta de inclusão no ensino regular, assume contornos ainda mais complexos quando se trata das escolas quilombolas e indígenas, territórios marcados por diversidade étnica, linguística e histórica. A educação nessas comunidades enfrenta obstáculos igualmente variados: preconceitos estruturais, carência de recursos pedagógicos culturalmente apropriados e falhas na formação docente.
Segundo dados recentes, no contexto indígena, apenas 46% das escolas utilizam materiais em línguas nativas, o que impede que estudantes com deficiência tenham acesso pleno à aprendizagem, resultando na negação tanto do sistema formal de ensino quanto de sua identidade cultural. Nas escolas quilombolas, políticas educacionais ainda não conseguem conciliar acessibilidade física e pedagógica com respeito e valorização da cultura local.Esse cenário reflete uma educação formal que muitas vezes reproduz a lógica colonial, impositiva e homogênea, distante da diversidade cultural e das necessidades específicas dessas populações.
A fundamentação teórica perpassa os paradigmas da educação inclusiva e intercultural aliada aos Direitos Humanos. A Constituição Federal de 1988 e a LDB asseguram o direito ao AEE, preferencialmente em ambiente escolar regular.A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu estatuto correlato, a Lei nº?13.146/2015, reforçam esse compromisso.No campo intercultural, o diálogo entre saberes indígenas e escolaridade formal é essencial. A educação bilíngue e intercultural valoriza a língua materna, saberes tradicionais e cosmovisões locais. Candau afirma que o currículo deve ser “intercultural e dialógico”, construído em parceria com as comunidades.Além disso, estudos na área (por exemplo, João Henrique da Silva e Marilda Moraes Garcia Bruno) indicam a necessidade de formação docente que supere as práticas hegemônicas e incorpore olhares interculturais, linguísticos e comunitários.A superação das tensões entre educação especial e escolaridade indígena, por meio de uma (re)significação do AEE, é crucia.
Metodologia
A pesquisa se baseia em uma revisão bibliográfica sistemática, utilizando banco de dados acadêmico, legislações, documentos governamentais e estudos de caso. Seguiu-se a estratégia proposta pela metodologia de revisão sistemática: definição de critérios de inclusão/exclusão, levantamento das fontes relevantes (artigos acadêmicos, relatórios oficiais, legislação) e análise crítica dos conteúdos. Foram incluídos também documentos institucionais relativos ao AEE em contextos indígenas e quilombolas, como relatórios do MEC que revelam aporte de R$?10,6 milhões entre 2023 e 2024 para salas de recursos multifuncionais nessas escolas, além de normas que garantem acessibilidade física e formação continuada em escolas quilombolas e indígenas.O universo pesquisado incluiu trabalhos empíricos, como os desenvolvidos em Dourados?MS com quatro professores do AEE em contexto indígena, os de Amambai?MS (Guarani/Kaiowá) sobre AEE e educação inclusiva indígena, além de textos reflexivos sobre políticas educacionais e desafios no norte e Amazônia.
A análise revelou barreiras linguísticas e culturais profundas. A ausência de materiais na língua materna implica uma dupla exclusão — os estudantes se distanciam tanto do sistema formal de ensino quanto da própria identidade. Em contrapartida, a educação intercultural bilíngue, que valoriza a língua e tradição local, demanda uma formação docente sensível e intercultural, essencial para romper esse ciclo de exclusão.
Outro bloco problemático é a formação docente. A maioria dos professores do AEE carece de preparação específica para atuar em contextos quilombolas e indígenas. Essa lacuna formativa resulta em desafios expressivos na avaliação e na intervenção pedagógica adequadas às realidades dessas comunidades, comprometendo a efetividade do atendimento educacional.
Paralelamente, a precariedade material e estrutural agrava o quadro: os espaços físicos são inadequados, faltam materiais pedagógicos em línguas indígenas (como o guarani) e até a ausência de sistemas de comunicação em língua de sinais indígena evidencia fragilidades estruturais. Soma-se a isso a escassez de especialistas em educação especial em regiões remotas, como a Amazônia — onde há apenas 0,7 professor de educação especial por 100 mil habitantes, contra uma média nacional de 2,1 por 100 mil. No entanto, políticas públicas como o PDDE SRM têm gerado avanços significativos: entre 2023 e 2024, mais de 500 escolas indígenas foram contempladas com recursos para criação de espaços de inclusão, reforçando o compromisso com acessibilidade plena e formação continuada. Além disso, práticas colaborativas fortalecem a superação dessas barreiras — a Escola Pamáali, por exemplo, exemplifica uma abordagem pedagógica que integra o conhecimento tradicional, pesquisa comunitária e interculturalidade, fomentando transformação e protagonismo local
O Atendimento Educacional Especializado (AEE) nas escolas quilombolas e indígenas enfrenta obstáculos profundos — de natureza linguística, pedagógica, estrutural e formativa — muitos deles enraizados em tradições coloniais homogeneizadoras que vulnerabilizam e negligenciam as identidades culturais desses povos. No entanto, podem-se identificar avanços relevantes impulsionados por políticas públicas específicas que alocam recursos para adaptar salas de recursos e garantir o acesso à aprendizagem; por práticas de formação docente crítica e intercultural, capazes de transcender as hegemonias pedagógicas e valorizar saberes locais; por métodos colaborativos e comunitários que coproduzem conhecimento em diálogo com a comunidade; além de modelos escolares culturalmente inspirados, como a Escola Pamáali, que acreditam na educação como potência para fortalecimento cultural e autoestima dos sujeitos.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 1988.
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Lei n. 9.394. 1996.
SILVA, João Henrique da; BRUNO, Marilda Moraes Garcia. Formação de professores para o atendimento educacional especializado em contexto indígena. 2021
MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2021
GOVERNO FEDERAL. Ministério da Educação. MEC debate atendimento especializado para escolas indígenas. 2025. . Acesso em: 25 jul. 2025.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
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Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
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