Introdução
O colonialismo se manifestou de maneira mais violenta com a chegada dos europeus à América, evento político que só terminou aproximadamente no início do século XX. Para (Quijano, 2007) O colonialismo significa a chegada de um povo, com uma identidade X (os colonizadores/as), a um território de outro povo, com uma identidade Y (os/as colonizados/as) e, pela força política e/ou militar, subjuga essa população para garantir a exploração das riquezas e do trabalho da colônia em benefício dos colonizadores, ficando a soberania do povo colonizado sob os interesses do povo que coloniza. Ramón Grosfoguel, argumenta que, mesmo após essa independência, a colonialidade não foi totalmente erradicada, pois as relações coloniais continuam a ser reproduzidas até os dias de hoje, principalmente em suas três formas principais: a colonialidade do poder, do saber e do ser ( Anibál Quijano). Para Restrepo e Rojas (2012), ambos definem como um fenômeno histórico complexo que se estende para além do colonialismo, referindo-se a um padrão de relações de poder que opera pela naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais, de gênero e epistêmicas.
Fundamentos Teóricos
As narrativas colhidas na Comunidade do Bom Jesus vão além da palavra falada. Nelas, a oralitura se revela como um ato total, onde os gestos, as pausas e o silêncio são carregados de significados. Cada entrevista é uma performance onde o corpo inteiro se torna arquivo vivo de saberes que a escrita não consegue capturar. Com a imersão na comunidade e a participação das festas tradicionais, como, a Festa do Senhor Bom Jesus, que acontece todo ano nos dias 28 de julho a 6 de agosto, que se inicia com uma alvorada na madrugada do dia 28, caminhando pelas ruas da comunidade, com uma performance de avisar a população o início da festa tradicional, rompendo o silêncio matinal, com cantorias, foguetes, e finalizando com um café da manhã na praça. Essa tradição não é apenas uma comemoração, mas um veículo de transmissão de histórias e valores.
A festa popular é o grande e fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo, paramos no tempo. Mas sem o velho nos apresentamos ao presente e ao futuro de mãos vazias. (PESSOA, 2009, p. 44).
Leda Martins, enfatiza que a oralitura se estende no corpo e no movimento, para a autora a “performance indica a presença de um traço cultural estilístico, mnemônico, significante e constitutivo, inscrito na grafia do corpo em movimento e na velocidade (MARTINS, 2001, p. 84). Logo após a alvorada, inicia-se a novena, 9 dias antes do levantamento da bandeira, outra forma de ato político, simbólico e performático. As festas populares emergem como manifestações plenas de oralitura, onde a palavra, o corpo e a memória se entrelaçam em performances coletivas, sendo assim, um processo criativo que integra gestos, ritmos e espaços como formas de inscrição cultural.
O espaço da encruzilhada, ou como estamos denominando, o espaço da festa como o próprio corpo, poderá ser conceituado como “lugar radial de centramento e descentramento, intersecções e desvios, textos e tradução, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação. Martins (1997, p. 28)
Nas celebrações na festa do Senhor Bom Jesus, observa-se essa natureza paradoxal, onde gestos que centram a memória dando significado a cada geração. o corpo que é festa, festeja, traz memórias e tradições, e histórias.
A festa é formada por experiências históricas; é fruto das movimentações e interconexões dos corpos-culturais que constituem uma das formas mais reveladoras do modo de ser de um grupo, de uma cidade e de um país e nesse espaço ‘intervalar’, que ficam suspensas algumas normas sociais, e outas são invertidas. (CASTRO JÚNIOR, 2014, p. 26-27).
Para o acontecimento da festa da comunidade, os sujeitos se mobilizam como um corpo único com os mais velhos transmitindo os saberes do ritual, os jovens reinventando suas formas, e todos unidos no propósito de manter viva a tradição. Essa sinergia manifesta-se em escolhas, como a recusa a barraquinhas comerciais externas, na qual privilegia a culinária local e os saberes tradicionais em prol da tradição. O levantamento da bandeira, que é ato central da festa, converte-se em performance total da oralitura, onde todo ano, algum sujeito rouba a bandeira, de forma que ninguém descubra, sem dizer nada, mas deixando o silêncio e os gestos falarem, e a pessoa fica responsável de guardá-la, ornamentá-la e devolvê-la no ano seguinte, ajudando a comunidade a realizar novamente a tradição. quem rouba a bandeira, torna-se guardião temporário da memória daquele dia, assegurando que a comunidade se reúne no ano seguinte, para refazer o ciclo. E mesmo ninguém revelando a ação do roubo, todos sabem que ele acontece, e essa ação silenciosa e sem registro, fazem essas narrativas serem além de uma tradição oral.
Metodologia
A metodologia adotada para a realização dessa pesquisa foi a de natureza qualitativa, orientada pelo Feminismo Decolonial e baseada na etnografia para investigar os impactos do colonialismo nas mulheres da comunidade tradicional de Bom Jesus, Porteirinha/MG, com ênfase nas narrativas orais (oralitura) como forma de resistência. Para Minayo (1994), a pesquisa qualitativa investiga temas particulares no campo das ciências sociais, dedicando-se a dimensões da realidade que não podem ser expressas em números, e são voltados para o universo dos significados, intenções, perspectivas, dos comportamentos. Os procedimentos realizados para a coleta de dados foram: Revisão literária, Imersão na Comunidade, Observação, caderno de campo, e entrevistas e análise. O local explorado para as entrevistas foi a associação dos pequenos produtores rurais da comunidade.
Conclusões
Este trabalho traçou, através da oralitura das mulheres do Bom Jesus, um mapa performático onde memória, colonialidade e gênero se entrelaçam em performances cotidianas de resistência. Partindo do conceito de Leda Martins, sobre o corpo como arquivo vivo, demonstramos como, a festa do Senhor Bom Jesus é um palco de contradições decoloniais, e como mulheres como ressignificam espaços antes masculinos, e os jovens negociam a modernidade e a tradição. Outro ponto, foram os silêncios que revelaram mais que as palavras, as pausas no discurso mostraram que a emancipação feminina ainda segue sendo território de disputa. Por fim, A oralitura mostrou-se não apenas método de pesquisa, mas prática decolonial em dá voz através, das palavras, dos gestos e do corpo para essas narrativas.
Contudo, a seguinte pesquisa não estabelece juízos sobre o que é "certo" ou "errado “diante das narrativas das mulheres pesquisadas, mas trazer informações de como gênero e colonialidade se entrelaçam nos rituais de oralitura da comunidade.
Referências
A memória coletiva Maurice HALBWACHS A memória coletiva: Centauro, São Paulo, 2006.
BARBOSA, Jorge Luiz. Cultura e... território. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017.
BIROLI, Flávia. Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.
BUTLER, Judith. Atos performáticos e a formação dos gêneros: um ensaio sobre fenomenologia e teoria feminista. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque. (Org.). Pensamento feminista: Conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 213-230.
Fraser, N. (2001). Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça na era “pós-socialista”. In J. Souza.Democracia hoje: novos desafios para a teoria contemporânea democrática (pp. 245-282). Brasília: UNB
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