ALFABETIZAÇÃO MIDIÁTICA NO CAMPO: ACESSO ÀS INFORMAÇÕES LOCAIS, ESTADUAIS E NACIONAIS POR MORADORES DE JAÍBA-MG
Elliã Christine da Silva Miranda
Universidade Estadual de Montes Claros
Guélmer Júnior Almeida de Faria
Universidade Federal de Viçosa
Eixo: Educação do Campo, Indígena e Quilombola: saberes, territórios e direitos.
Resumo Expandido
O estudo tem como objetivo analisar a alfabetização midiática em comunidades rurais de Jaíba-MG. A metodologia utilizada é de natureza qualitativa, de caráter exploratório, mediante entrevistas com questões em aberto. As participantes são 28 mulheres residentes no meio rural de Jaíba-MG. A análise dos dados seguiu os procedimentos da Análise de Conteúdo. Os resultados apontaram que apesar do acesso universal à internet, seu uso concentra-se em entretenimento e comunicação instantânea, com dificuldades em identificar informações confiáveis. Esse cenário evidencia que a conectividade, isoladamente, não garante inclusão digital efetiva. A televisão e o WhatsApp destacaram-se como principais meios de informação. Conclui-se pela necessidade de políticas públicas e ações educativas voltadas ao letramento midiático, visando reduzir desigualdades e fortalecer a cidadania no campo.
Palavras-chave: Alfabetização Midiática; Informações; Campo.
Introdução
A sociedade contemporânea caracteriza-se pela presença constante das mídias e das tecnologias da informação e comunicação (TIC’s), que mediam o acesso ao conhecimento e influenciam a construção da cidadania. Nesse contexto, a alfabetização midiática, compreendida como a capacidade crítica de acessar, interpretar e produzir informações, tornou-se uma competência essencial para a participação ativa na vida social, cultural e política. Entretanto, quando se observa o espaço rural brasileiro, percebe-se a existência de profundas desigualdades que limitam o direito dos cidadãos do campo à informação. Em áreas rurais, esse processo adquire especificidades próprias, pois envolve não apenas o domínio técnico do uso das mídias, mas também a superação de barreiras estruturais relacionadas ao acesso à informação e à conectividade.
Fundamentos Teóricos
A alfabetização midiática tem sido discutida por diversos autores por ser um tema pertinente na contemporaneidade. “o avanço das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) tem produzido mudanças significativas na sociedade, afetando diretamente os modos de vida da população, inclusive daquelas que vivem em localidades rurais” (Fraga, 2018, p. 3). Percebe-se que, essas tecnologias não se limitam ao espaço urbano, mas também alcança as comunidades rurais, provocando transformações nos modos de viver, trabalhar, aprender e se relacionar. Mesmo em regiões tradicionalmente marcadas pela distância geográfica e pelo acesso restrito a recursos tecnológicos, as TIC’s têm possibilitado novas formas de inclusão social, acesso à informação e participação. Segundo Silverstone (2002 apud Fraga 2018, p. 8), “não podemos escapar da mídia, pois ela nos liga uns aos outros e está presente em todos os aspectos da nossa existência, nas nossas relações familiares e pessoais, em casa, no trabalho, ou em outros ambientes”. Contudo, no Brasil, comunidades do campo frequentemente enfrentam desafios como baixa cobertura de internet, limitação de equipamentos tecnológicos e oferta restrita de conteúdos contextualizados à realidade local. A globalização, ao impulsionar sociedades midiatizadas, não assegura automaticamente a redução das desigualdades no acesso à informação. Em espaços subdesenvolvidos, persistem fatores que mantêm barreiras comunicacionais, evidenciadas pelas dificuldades de implementação de políticas públicas de inclusão digital em territórios rurais, quilombolas, indígenas e periféricos (Callado, 2019). A conectividade precária, a dependência de meios tradicionais como o rádio, o custo elevado de pacotes de dados móveis e a ausência de políticas consistentes de inclusão digital são obstáculos que dificultam o acesso a informações locais, estaduais e nacionais.
Metodologia
A pesquisa adotou abordagem qualitativa, com caráter exploratório e descritivo. O estudo foi desenvolvido em comunidades rurais do município de Jaíba-MG. Os procedimentos metodológicos envolveram: levantamento bibliográfico sobre alfabetização midiática, inclusão digital e comunicação comunitária; entrevistas semiestruturadas com 28 mulheres de diferentes faixas etárias da zona rural, buscando identificar hábitos de consumo de informação, percepção sobre a qualidade das notícias e barreiras no acesso.
Análise de dados
Os resultados evidenciaram que, no campo, o/as moradore/as acessam informações locais, estaduais e nacionais principalmente pela televisão aberta e, mais recentemente, pelo WhatsApp, que se tornou a ferramenta de comunicação mais popular, embora sua utilização esteja fortemente voltada ao entretenimento e a mensagens informais. No que diz respeito à infraestrutura, todas as entrevistadas possuem acesso à internet em casa. Observou-se que a maioria utiliza a internet principalmente para lazer e comunicação instantânea, como redes sociais e serviços de mensagens, mas encontra dificuldades em diferenciar informações verdadeiras de notícias falsas ou informações enganosas. Nota-se que, mesmo com a conectividade existente, muitas residentes não conseguem reconhecer fontes confiáveis e acabam reproduzindo informações sem checar sua origem. Esse comportamento destaca a necessidade de iniciativas educacionais que incentivem o desenvolvimento de competências críticas para um uso consciente da mídia digital. Essa vulnerabilidade sugere que apenas ter acesso à tecnologia não assegura uma prática comunicativa de qualidade, evidenciando a falta de habilidades relacionadas à alfabetização midiática. Dessa forma, a pesquisa evidenciou que o acesso à internet, embora generalizado entre as participantes, não significa uma verdadeira inclusão digital, mas representa ainda um recurso pouco aproveitado no processo de formação cidadã e engajamento social.
Conclusões
O estudo permitiu concluir que a alfabetização midiática no campo é atravessada por desafios de ordem estrutural como infraestrutura precária e custos de acesso. Ademais, a pesquisa mostrou que a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação em áreas rurais não garante, por si só, uma verdadeira inclusão digital. Apesar de todas as participantes terem acesso à internet, verificou-se que seu uso é, na maior parte, direcionado ao entretenimento e à comunicação instantânea, evidenciando uma falta de desenvolvimento em habilidades críticas relacionadas à alfabetização midiática. Essa situação destaca que a conexão, isoladamente não garante um acesso de qualidade à informação, tampouco promove a cidadania afetiva. Além disso, identificou-se que a dificuldade em diferenciar informações verdadeiras de notícias falsas representa um desafio para o desenvolvimento de opiniões informadas e de uma participação social ativa. Desse modo, a pesquisa ressalta a necessidade de políticas públicas e iniciativas educacionais focadas em letramento midiático, a fim de capacitar a população rural a fazer uso das tecnologias digitais de maneira crítica, ética e responsável. Assim, a alfabetização midiática se torna crucial para diminuir desigualdades, melhorar o acesso qualificado à informação e fortalecer processos de inclusão social e cidadania nas áreas rurais.
Apoio técnico ou financeiro
À Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo financiamento do projeto RED-00155-21, ao qual se encontra vinculada esta pesquisa.
Referências
CALLADO, Alisson Gomes. Midiatizações em territórios rurais: convivência com o semiárido e exclusão infocomunicacional na Paraíba. 2019. 139 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Mídia) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2019.
FRAGA, Kátia de Lourdes. O rural em rede: rádio, midiatização e ruralidade no cotidiano da zona da mata mineira. 2018. 164 f. Tese (Doutorado em Extensão Rural) – Pós-Graduação em Extensão Rural, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2018.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica