Introdução
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui-se como espaço de ressignificação da escolarização para aqueles que, por diferentes razões, não tiveram acesso à escola na infância ou precisaram interromper seus estudos. Como destaca Freire (1996), a educação de jovens e adultos deve partir da leitura do mundo antes da leitura da palavra, reconhecendo os saberes prévios e as experiências concretas desses sujeitos. O texto “Os alunos e as alunas da EJA” apresenta histórias de sujeitos como Josué e Esmeralda, que, em diferentes contextos, enfrentaram barreiras sociais, culturais e econômicas, mas decidiram retomar aos estudos. Essas narrativas revelam não apenas trajetórias individuais, mas também um retrato coletivo da diversidade, das motivações e dos desafios enfrentados por educandos e educandas da EJA. Este estudo, de natureza bibliográfica, busca refletir sobre os fundamentos teóricos que embasam essa modalidade de ensino, analisar a identidade dos estudantes e discutir os desafios que envolvem a permanência e êxito na escola.
Ingressar na escola depois de alguns anos é um grande desafio. A percepção de vida de uma pessoa adulta ao retomar os estudos é bastante singular, pois traz em suas histórias experiências vividas. São indivíduos constituídos de crenças e valores. Em uma turma de jovens e adultos encontra-se uma diversidade cultural e social: indivíduos que trazem um contexto de vida formado, desde a estrutura profissional, a bagagem escolar, o modo de pensar e de conviver em sociedade, com seus valores éticos e morais já constituídos.
A visão de mundo dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) se distingue pela trajetória de vida que trazem consigo. Muitos retornam à escola após um período de afastamento ou iniciam sua escolarização já na fase adulta. Nesse processo, carregam histórias marcadas por experiências pessoais e sociais que moldaram suas percepções, crenças e valores. Assim, cada aluno e aluna se apresenta como sujeito singular, trazendo diversidade e riqueza cultural para o ambiente escolar.
Os alunos da EJA chegam à escola com um conjunto vasto de conhecimentos construídos ao longo de sua trajetória de vida. Entre eles, destacam-se o saber sensível e o saber cotidiano, ambos derivados das experiências pessoais. O saber sensível refere-se ao conhecimento adquirido por meio dos cinco sentidos e das percepções imediatas, caracterizando-se como pré-reflexivo e essencial, comum a todos os seres humanos. Embora muitas vezes pouco valorizado no ambiente escolar, esse tipo de saber constitui a base para a construção de aprendizagens mais complexas e reflexivas. Assim, reconhecer e estimular o saber sensível no processo educativo é fundamental para potencializar o desenvolvimento dos estudantes jovens e adultos.
Fundamentos Teóricos
Por muito tempo, os estudos sobre aprendizagem estiveram voltados apenas para crianças e adolescentes, partindo da ideia de que, ao ingressar na vida adulta, a aprendizagem se encerraria. Entretanto, pesquisas recentes demonstram que o desenvolvimento humano é continuo e a idade adulta é marcada por intensas transformações (Brasil, 2006).
Nesse sentido, os alunos e alunas de EJA trazem consigo saberes construídos em sua trajetória social, cultural, familiar e profissional. São sujeitos que veem e interpretam o mundo a partir de experiencias concreta, o que lhe confere um olhar sensível, curioso e investigativo. Para que a aprendizagem escolar seja significativa, é fundamental valorizar esses conhecimentos prévios, relacionando-os à construção de novos saberes e à inserção no mundo letrado. Nessa direção, Freire (1987) ressalta que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos, compreendendo-os como ponto de partida para a construção de novos conhecimentos.
De acordo com o MEC (Brasil, 2006), esses estudantes possuem uma visão de mundo mais ligada ao ver e ao fazer, marcada pela espontaneidade e pela imediaticidade. Ao optarem pela escola, esse olhar passa a ser acompanhado por questionamentos, o que os torna mais abertos à aprendizagem. Assim, chegam à sala de aula com uma postura ao mesmo tempo receptiva e ativa caracterizada pela curiosidade, pela exploração e pela investigação.
Ainda segundo o MEC (Brasil, 2006), a aprendizagem escolar só se torna significativa quando valoriza os saberes anteriores dos estudantes, possibilitando a produção de novos conhecimentos que façam sentido em sua vida cotidiana e favoreçam sua inserção no mundo letrado.
Nesse contexto, o adulto apresenta mais experiência de vida, capacidade de análise mais desenvolvida e grande interesse em integrar novos conhecimentos ao seu projeto pessoal. Ao escolher o caminho da escola, busca uma formação que dê continuidade a esse projeto, e a instituição assume o papel de potencializar sua visão de mundo por meio de práticas pedagógicas pautadas na reciprocidade, na sensibilidade e na valorização da ação cotidiana.
Metodologia
O estudo utiliza o método da pesquisa bibliográfica, tendo como principal referência o texto “Os alunos e as alunas da EJA” (BRASIL, 2006), trabalhado na disciplina Educação de Jovens e Adultos, no Curso de Pedagogia/Unimontes. O material articula narrativas de vida, análises pedagógicas e reflexões sobre a prática educativa, permitindo identificar e sistematizar quatro eixos principais:
1. identidade dos sujeitos da EJA;
2. saberes que trazem consigo;
3. expectativas em relação à escola;
4. desafios enfrentados no processo de escolarização.
Análise de dados
As histórias de Josué e Esmeralda evidenciam a diversidade de trajetórias dos estudantes da EJA: alguns buscam melhores condições de trabalho e cidadania, enquanto outros almejam a realização de sonhos pessoais adiados. Esse movimento mostra que o ingresso na EJA vai além do simples acesso à leitura e à escrita, constituindo-se como parte de um projeto de vida marcado por expectativas de ascensão social, autonomia e inclusão cultural.
Entretanto, observa-se um descompasso entre as expectativas dos alunos e a realidade escolar. Muitos ainda esperam encontrar uma escola tradicional, baseada na transmissão de conteúdos, enquanto a proposta pedagógica contemporânea busca valorizar práticas participativas e reflexivas. Essa diferença pode gerar resistência ou até mesmo abandono. Por outro lado, a receptividade, o encantamento com o conhecimento e a disposição para aprender revelam potencialidades que fortalecem a prática pedagógica e contribuem para a construção de aprendizagens mais significativas.
Conclusões
A pesquisa bibliográfica evidencia que os sujeitos da EJA são heterogêneos e trazem consigo saberes, histórias e valores que precisam ser reconhecidos e valorizados pela escola. A permanência e o êxito desses estudantes dependem da capacidade das instituições e dos professores em desenvolver práticas de acolhimento, metodologias inclusivas e oportunidades de aprendizagem que dialoguem com suas experiências de vida.
Reduzir a distância entre as expectativas dos alunos e as propostas oferecidas pela escola constitui uma tarefa essencial para assegurar uma educação transformadora. Nesse sentido, a EJA se afirma não apenas como uma política de inclusão escolar, mas também como um espaço de construção de cidadania, emancipação e dignidade para milhões de jovens e adultos brasileiros. Nessa perspectiva, a EJA reafirma o princípio freiriano de que a educação é prática de liberdade, voltada à emancipação e à construção de sujeitos críticos e participativos.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica