Introdução
O presente trabalho é produto de estudos de pós-doutorado em educação, com foco nas conexões entre processos educativos, produtos audiovisuais e questões de gênero, sexualidade e direitos humanos. Parte significativa dessa empreitada acadêmica se debruça sobre os filmes de animação do projeto Brincar de fazer cinema com crianças, disponibilizados em seu canal do YouTube (@brincardefazercinema). O projeto busca produzir filmes de animação com crianças de escolas públicas, investindo na discussão de temas como gênero, direitos humanos, violências contra crianças, escola, entre outros.
Para este trabalho foi selecionado o filme de animação A Princesa Pantaneira. Lançado em 2012 e com duração de 9 minutos, o curta tem como protagonista uma princesa diferente daquela que colonizou o imaginário infantil nas últimas décadas. Sua imagem subverte aspectos estéticos (é uma menina não branca, que não usa vestido, não tem cabelos lisos/ondulados) e éticos (é uma princesa que não precisa ser salva por um príncipe, ao contrário, ela é a heroína). O objetivo do presente trabalho é discutir os possíveis (Paraíso, 2018) de um currículo cultural de filme de animação que investe na desnaturalização da imagem eurocêntrica da princesa.
Fundamentos Teóricos
Os estudos culturais em educação possibilitam a desterritorialização de conceitos do campo educacional e a análise de currículos culturais, ou seja, aqueles cujas operações pedagógicas são empreendidas a partir de artefatos culturais (filmes, músicas, propagandas, livros, etc.). Esses currículos atuam na constituição das formas como nos tornamos o que somos, como vivemos e explicamos o mundo. Tais análises intentam discutir “o caráter constitutivo, produtivo e regulador da cultura e de seus artefatos, especialmente os midiáticos” (Costa; Wortmann; Bonin, 2016, p. 521).
Entendendo que um currículo pode abrir-se a encontros que escapam a formas de regulação (Paraíso, 2018), o currículo cultural de filmes de animação pode criar formas outras de viver e perceber o mundo. Criar possíveis com esse currículo, desnaturalizando modelos instituídos, pode ser uma operação de resistência. Produzir e compartilhar um filme de animação como A Princesa Pantaneira é um modo de cavar possíveis e alargar os limites (Paraíso, 2018) de um currículo cultural mainstream, constituído, sobretudo, pelas produções audiovisuais de estúdios vinculados a conglomerados midiáticos, como Disney.
Para muitas pessoas, a palavra princesa remete a uma imagem específica: uma jovem de cabelos loiros, corpo esbelto, pele branca, trajando um longo vestido. Tal associação diz respeito a colonização do imaginário pelas narrativas dos estúdios Disney, cujas produções audiovisuais animadas se popularizaram nas últimas décadas. As imagens das princesas Disney entranharam-se na cultura popular por meio de diferentes produtos na forma de “imagens e textos que penetram em cada vez mais áreas da vida cotidiana” (Giroux, 2008, p. 136).
Essa imagem da princesa produz efeitos nas subjetividades infantis (Cechin, 2014; Xavier Filha, 2016) e carrega marcas eurocêntricas que se vinculam ao ideal de beleza e comportamento feminino cultivado pela colonização cultural europeia há séculos (Pereira, 2020; Carrera, 2021). Trata-se de uma pedagogia cultural de gênero que educa para subjetividades femininas dóceis, frágeis, emotivas, submissas. Essa pedagogia se vincula a uma ampla gama de “imagens eletronicamente produzidas, textos escritos, falas e ações – como textos públicos influentes que constroem significados e operam no contexto de uma diversidade de lutas sociais e modos de contestação” (Giroux, 2008, p. 133).
Metodologia
As análises conduzidas buscam problematizar as relações de saber-poder que organizam discursos de verdade e incidem sobre os sujeitos a fim de estabelecer formas de governo de si e dos outros. Como inspiração metodológica, busca-se apoio na etnografia de tela, em seus pressupostos de longa imersão nas telas e produção de registros sistemáticos, considerando diferentes aspectos da linguagem audiovisual, discursivos e não discursivos (Balestrin; Soares, 2012), que produzem encantamentos, capturam a atenção e interpelam as emoções, as ideias, os sentidos. O filme de animação aqui em foco foi assistindo repetidas vezes, sendo produzidos registros considerando os aspectos mencionados. Em seguida, os dados produzidos foram problematizados a partir do referencial teórico adotado.
Análise de dados
Camuela, a Princesa Pantaneira, é uma menina alegre e corajosa, que gosta de nadar, pescar e jogar futebol. Com os seus cabelos pretos, vestindo calça azul marinho, blusa alaranjada e botas, a princesa “[...] monta e doma cavalo bravo, salva o príncipe, é decidida, às vezes tem dúvidas, sente medo e pede colo, mas logo volta a sonhar, a imaginar e a viver muitas aventuras” (Xavier Filha, 2016, p. 32).
Como argumenta Bruna Pereira (2020), a estética é um dos modos de costurar a articulação entre gênero e raça. Nos processos de valorações estéticas da beleza feminina predomina o ideal de beleza branco. Considerando que esse sistema sociocultural de valoração influencia múltiplos aspectos das vidas de meninas e mulheres, faz-se importante investir na desconstrução de padrões de beleza que configuram as leituras sociais de gênero, raça e classe e as percepções de si de meninas e mulheres em sua dignidade pessoal e estética feminina.
Subverter a “marca da ‘branquidade’ da princesa e do ideal feminino” (Xavier Filha, 2016) é uma das possibilidades anunciadas pela Princesa Pantaneira. Situar a princesa no Pantanal sul-mato-grossense foi uma das estratégias utilizadas na produção do curta, tornando mais próxima das crianças essa imagem da princesa e, assim, podendo desconstruir a imagem mainstream idealizada e romântica que as subjetiva, de modo que elas pudessem ver em si mesmas “as belezas de tons da própria pele, outras tonalidades de cor e jeitos de cabelos, as muitas formas de nossos corpos” (Xavier Filha, 2016, p. 31).
Camuela nos possibilita problematizar a racionalidade colonizadora que informa a lógica hegemônica nas histórias clássicas. A invisibilização de corpos não brancos e fora dos ideais de feminilidade nessas histórias contribui para legitimar a imagem universalizada da princesa como branca, loira, magra, delicada, vulnerável. As mulheres negras, indígenas e de outras etnias ocupariam um lugar inimaginável (Cechin, 2014; Machida; Mendonça, 2020). Criar princesas não brancas, com características não europeias, contribui para quebrar, de certo modo, a continuidade do discurso colonial (Carrera, 2021).
Além das performances corporais, Camuela é diferente de outras princesas porque vivencia sua feminilidade de outros modos. É ela quem salva o príncipe, e nessa jornada, apesar de sentir medo, enfrenta todos os perigos com coragem. Camuela é questionadora e se permite repensar suas vivências, investindo em outras maneiras de ser menina. Após o salvamento do príncipe, o final da história não é o mesmo dos clássicos: não tem beijo e tampouco pedido de casamento. Subvertendo os ‘finais felizes’ dos contos de fadas, a Princesa Pantaneira rompe com as normatizações binárias de gênero que inspiraram as históricas clássicas. Há outras possibilidades de subjetivação em jogo: se a cultura é um campo disputado e negociado de processos de significação, Camuela pode ser um contraponto a modelos arraigados. O pressuposto heteronormativo de completude e felicidade no enlace matrimonial, associado ao amor romântico heterossexual, são colocados em suspensão.
Conclusões
Diante das pedagogias culturais que investem sistematicamente na reiteração de um modelo feminino de beleza e comportamento eurocêntricos, é preciso “ampliar os locais de contestação” (Giroux, 2008, p. 135). Com esse intuito, focalizou-se a Princesa Pantaneira, que apresenta uma estética que diverge do ideal eurocêntrico propagado pelas princesas Disney. Tomando essa produção audiovisual como foco de análise, ressaltam-se as possibilidades de subversão que se abrem na relação com outros modos de ser princesa.
A disponibilização no YouTube desse filme abre possibilidades de que os temas tratados possam sensibilizar outras crianças e adultos para além das pessoas vinculadas ao projeto, expandindo o processo de fazer pensar diferentemente a si e o mundo (Xavier Filha, 2016). Uma aposta na multiplicidade de corpos e existências a partir dos componentes lúdicos da imaginação e da fantasia que perpassam a linguagem audiovisual de animação, contribuindo para uma política cultural de produção de subjetividades menos assujeitadas pelo modelo feminino de beleza e comportamento eurocêntrico, que tem implicações diretas nas relações sociais e nas percepções subjetivas de si mesmas de meninas e mulheres não brancas.
Apoio técnico
O presente trabalho foi realizado com o apoio da Fundação Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – UFMS/MEC – Brasil, a partir de estágio de pós-doutorado.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica