O PAPEL DA BRINCADEIRA NA INCLUSÃO DE CRIANÇAS AUTISTAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA DE PESQUISAS QUE UTILIZARAM A BRINCADEIRA COMO OBJETO EMPÍRICO
Introdução
A inclusão de crianças autistas na Educação Infantil tem ganhado destaque no cenário educacional brasileiro, especialmente diante do aumento expressivo de matrículas de crianças autistas em instituições de ensino. Em Palhoça, o número de crianças autistas matriculadas na Rede Municipal de Ensino (RME) cresceu significativamente, passando de 241 em 2023 para 399 em 2024, conforme aponta Porto Alegre (2025). Essa tendência evidencia a necessidade urgente de práticas pedagógicas inclusivas e adaptadas às necessidades específicas dessas crianças.
Nesse contexto, a brincadeira emerge como uma estratégia pedagógica fundamental. Além de ser um direito da infância, conforme destacado pelo Plano Nacional para a Primeira Infância (Brasil, 2020) e pelo Comitê dos Direitos da Criança (ONU, 2013), a brincadeira possui um potencial significativo em promover o desenvolvimento social, emocional e cognitivo de crianças autistas. Vygotsky (1979) e Rego (2001) defendem que, como atividade lúdica, a brincadeira permite à criança explorar emoções, construir relações sociais e desenvolver habilidades cognitivas.
No entanto, o modelo biomédico, que considera o autismo como um transtorno decorrente de disfunções neurológicas e genéticas (Donovan e Zucker, 2017), ainda influencia a atuação de muitos profissionais da educação. Essa perspectiva tende a limitar as práticas pedagógicas, reforçando uma abordagem centrada na deficiência e negligenciando o potencial das crianças autistas. Diante desse cenário, surge a seguinte questão: Como a brincadeira pode ser utilizada como estratégia pedagógica para promover a inclusão de crianças autistas na Educação Infantil?
Fundamentos Teóricos
A brincadeira, é compreendida segundo Vygotsky (1979) e Rego (2001), como uma atividade humana criadora que permite às crianças explorar e reorganizar emoções e conhecimentos. Silva e Silva (2019) defendem que a brincadeira favorece a internalização de funções sociais, padrões de comportamento, comunicação e a interação social.
A mediação pedagógica, compreendida como um processo de interação entre o adulto e a criança, desempenha um papel essencial no desenvolvimento infantil, especialmente na inclusão de crianças autistas. Vygotsky (1979, 1991) destaca o brincar como uma atividade humana criadora, permitindo à criança explorar emoções e construir conhecimentos. Silva e Silva (2019) acrescentam que o brincar facilita a comunicação e promove o desenvolvimento integral, sendo uma ferramenta fundamental para a inclusão de crianças autistas. Rego (2001) complementa que, por meio do brincar, as crianças experimentam papéis e transformam conceitos em conhecimentos aplicáveis, beneficiando seu desenvolvimento social e cognitivo. Além disso, Faria e Camargo (2018) ressaltam que o brincar é um direito da criança autista e uma estratégia pedagógica que favorece a interação social e o desenvolvimento cognitivo. Costa (2015) e Fiorini (2017) destacam que estratégias pedagógicas bem planejadas podem reduzir a imprevisibilidade e promover a participação ativa das crianças autistas. Assim, a mediação pedagógica, aliada ao brincar adaptado, constitui uma estratégia poderosa para promover interação social, criatividade e expressão, contribuindo para a construção de um ambiente inclusivo.
Metodologia
A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica, com o objetivo de investigar o papel da brincadeira como estratégia pedagógica para a inclusão de crianças autistas na Educação Infantil. A revisão bibliográfica foi realizada em bases acadêmicas como Periódicos da CAPES, Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, OasisBR e BDTD, utilizando os descritores "brincar" AND "autismo" OR "TEA" OR "Transtorno do Espectro Autista", com recorte temporal de 2015 a 2024. Foram selecionados quatro estudos relevantes, que utilizaram o brincar como objeto empírico.
Para a análise dos dados, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo de Bardin (2009), que permitiu identificar categorias temáticas como interação, criatividade, tomada de decisão e expressão. Essa abordagem permitiu uma compreensão aprofundada das práticas pedagógicas inclusivas e suas implicações no desenvolvimento infantil.
Análise de dados
Os estudos analisados indicam que o brincar é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo de crianças autistas. As categorias de análise revelaram as seguintes dimensões:
1. Interação: Crianças autistas enfrentam desafios nas interações sociais, mas o brincar mediado amplia suas possibilidades de participação. A mediação docente e a interação com pares neurotípicos são estratégias eficazes para promover a socialização. Costa (2015) e Fiorini (2017), apontam que brincadeiras estruturadas, com regras claras, podem reduzir a ansiedade e facilitar o envolvimento das crianças autistas.
2. Criatividade: A criatividade pode se manifestar de formas não convencionais, como o hiperfoco em temas ou a exploração sensorial intensiva. Silva (2021) e Mattos e Lione (2023), apontam que a flexibilidade nas brincadeiras é essencial para permitir que as crianças autistas explorem materiais e contextos de forma significativa.
3. Tomada de Decisão: Crianças autistas podem apresentar dificuldades em realizar escolhas espontâneas diante do brincar, necessitando de estruturas pré-definidas para se sentirem seguras. A autonomia deve ser incentivada progressivamente, garantindo equilíbrio entre previsibilidade e flexibilidade(Silva, 2021; Mattos e Lione, 2023).
4. Expressão: A expressão emocional e comunicativa no brincar é favorecida pelo uso de materiais diversos e estímulos táteis que promovem a construção de significados individuais no brincar (Mattos e Lione, 2023).
O Quadro 1, apresenta as categorias com os autores citados e sintetiza as brincadeiras utilizadas no estudo empírico desta pesquisa, selecionadas a partir dos estudos analisados.
Quadro 1: Brincadeiras Utilizadas como Objeto de Pesquisa Empírica
Categoria de Análise
Autores Citados
Brincadeiras Utilizadas como Objeto de Pesquisa
Interação
Fiorini (2017), Silva (2021), Mattos e Lione (2023)
Brincadeiras de imitação (gestos, teatro de fantoches, jogos de imitação), movimento e coordenação motora (correr, pular, jogar bolas).
Criatividade
Costa (2015), Fiorini (2017), Silva (2021), Mattos e Lione (2023)
Brincadeiras de faz-de-conta (bonecas, brincar de cozinha), modelagem (areia, massinha), brincadeiras simbólicas, esconder e aparecer
Tomada de Decisão
Costa (2015), Silva (2021), Mattos e Lione (2023)
Jogos estruturados com escolhas (apontamentos, jogos de encaixe), Teia da aranha, brincadeiras de construção (blocos, peças de encaixe).
Expressão
Costa (2015), Fiorini (2017), Silva (2021), Mattos e Lione (2023)
Brincadeiras com instrumentos musicais, cantigas com gestos, brincadeiras sensoriais (texturas, água, areia), jogos com bolas.
Fonte: Porto Alegre, 2025
As categorias de análise (Interação, Criatividade, Tomada de Decisão e Expressão) foram identificadas a partir das contribuições de autores como Costa (2015), Fiorini (2017), Silva (2021) e Mattos e Lione (2023), que exploraram diferentes tipos de brincadeiras adaptadas às necessidades específicas das crianças autistas. O Quadro 1 detalha as brincadeiras utilizadas em cada categoria, destacando estratégias como brincadeiras de imitação, atividades sensoriais, jogos de encaixe e brincadeiras musicais, entre outras. Essa organização permite uma visão das práticas pedagógicas inclusivas que utilizam o brincar como ferramenta para promover o desenvolvimento integral de crianças autistas.
Conclusões
As pesquisas sobre o brincar como estratégia pedagógica para a inclusão de crianças autistas na Educação Infantil destacam seu papel fundamental no desenvolvimento integral dessas crianças. O brincar, quando mediado e adaptado às necessidades específicas da criança autista, promove sua participação ativa no ambiente escolar, favorecendo aspectos emocionais, sociais e cognitivos.
No entanto, a literatura sobre o tema ainda apresenta limitações, com poucos estudos abordando o brincar de forma sistemática, o que evidencia uma lacuna importante na produção acadêmica. Isso reforça a necessidade de ampliar as pesquisas em diferentes contextos educacionais.
As implicações práticas apontam para a necessidade de formação continuada dos educadores e adaptação de ambientes educacionais, permitindo que crianças autistas explorem e expressem suas potencialidades. A combinação entre mediação pedagógica e formação docente é fundamental para garantir que o brincar seja uma experiência inclusiva e enriquecedora.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica