Introdução: Nas múltiplas relações possíveis concebidas na e pela escola, conhecer o que esta instituição produz e como a faz é relevante para compreender de que forma opera e o modo como constrói as suas práticas (Azanha, 1990/1991). Nesse sentido, as práticas de ensino abrem o coração da “caixa-preta” da escola quando voltadas à compreensão do que ocorre no interior desse espaço particular, conforme sustenta Julia (2001). Partindo desses pressupostos, esta comunicação propõe-se a discutir as relações entre as Atividades Diferenciadas realizadas nos três primeiros anos do Ensino Fundamental I da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (EAFEUSP) e a cultura escolar da instituição, fundada em 1958 na cidade de São Paulo. Em consonância com o seu projeto político-pedagógico, presente desde 1996, que busca promover práticas pautadas na pluralidade e no respeito às diferenças, a EAFEUSP iniciou, no ano de 2011, a implementação de Atividades Diferenciadas no Ensino Fundamental I (EFI) a fim de assegurar a equidade e a inclusão (Vicentini; Silva; Gallego, 2023). Essas práticas são realizadas por meio de agrupamentos (G1, G2, G3 e G4) durante o turno escolar e em dias específicos, envolvendo o trabalho conjunto e articulado entre professoras, bolsistas e estagiários/as. Desde 2018, estas abrangem Alfabetização, Língua Portuguesa e Matemática. Tal projeto diferenciado considera os diferentes ritmos e as necessidades de aprendizagem, bem como da heterogeneidade discente – cujos perfis socioeconômicos e culturais são distintos –, uma vez que o ingresso ocorre por sorteio público de 60 vagas, distribuídas igualmente entre três categorias: FEUSP, USP em geral e comunidade externa. Ademais, este estudo pauta-se nas lacunas de um mapeamento de pesquisas, no período de 2000 a 2022, acerca da EAFEUSP e de outras Escolas de Aplicação no Brasil, destacando-se: 1) escassez de pesquisas sobre Atividades Diferenciadas nos Anos Iniciais da EAFEUSP; 2) maior atenção ao Ensino Médio nas pesquisas acerca dessas escolas; e 3) concentração de estudos em escolas públicas municipais e estaduais. Além disso, vincula-se ao Projeto Temático Saberes e práticas em fronteiras: por uma história transnacional da educação (1810-...), FAPESP 2018/26699-4. Fundamentos Teóricos: Esta pesquisa fundamenta-se na compreensão da escola como um espaço-tempo aberto a todas as pessoas, pautado pelo princípio do reconhecimento e acolhimento das diferenças e da diversidade (Meirieu, 2002, 2005). Alicerçado nisso, o autor defende que a diversidade em sala de aula exige reconhecer que os/as estudantes aprendem de diferentes maneiras – independentemente de suas condições intelectuais, psicológicas, físicas, sociais, culturais ou econômicas –, devendo, portanto, ter pleno acesso às oportunidades de aprendizagem e participação. Tal perspectiva demanda práticas capazes de superar a homogeneização e valorizar a singularidade dos percursos formativos. Dialoga-se, ainda, com a noção de saberes docentes proposta por Tardif (2000, 2014), compreendidos como conhecimentos plurais construídos ao longo da vida em distintos momentos, espaços e formas de socialização, os quais integram saberes da formação profissional, disciplinares, curriculares e experienciais, que se implicam na prática pedagógica e no cotidiano escolar. Por fim, consideram-se as perspectivas de cultura escolar elaboradas por Azanha (1990/1991) e Viñao Frago (2005), segundo as quais conhecer o que a escola produz e como a faz é essencial para compreender seus modos de funcionamento e a construção de suas práticas. Para Viñao Frago (2005), não existe uma única cultura escolar, mas culturas escolares, posto que tudo o que ocorre no interior da instituição configura práticas, valores e significados próprios. Nesse contexto, a organização dos tempos e espaços torna-se estruturante da cultura escolar e desempenha um papel formativo, pois o espaço escolar é construído socialmente e adquire sentido a partir dos usos e significados atribuídos pelos sujeitos (Viñao Frago; Escolano, 2001). Metodologia: Este estudo reuniu como fontes nucleares, seguindo as diretrizes éticas em pesquisa, conforme avaliado pela Comissão de Ética da FEUSP: entrevistas e conversas sistemáticas com uma das docentes que esteve à frente da criação desse projeto, professora Kamila, e a interação em sala de aula e no planejamento pedagógico com esta mesma professora e demais docentes dos Anos Iniciais, professoras Alessandra, Priscilla e Rosana; breve biografia das professoras; observações das práticas no 1º ano do EFI, composto por três turmas com 20 crianças cada – totalizando 60; e documentos da escola produzidos desde 2011. A partir dos dados tratados, sistematizados e categorizados, este trabalho mobilizou para a análise as concepções de diversidade em sala de aula, de Meirieu (2002, 2005); as noções de cultura escolar, de Antonio Viñao Frago (2005), Viñao Frago e Escolano (2001) e José Mário P. Azanha (1990/1991); e as perspectivas de saberes docentes, de Tardif (2000, 2014). Conclusões: As Atividades Diferenciadas, desenvolvidas no âmbito do projeto de pesquisa “O desafio do ensino de leitura e escrita no ensino fundamental de nove anos”, coordenado por Claudemir Belintane, docente da FEUSP, contaram com a participação de pesquisadores/as de pós-graduação e graduação da USP. O estudo, realizado de 2011 a 2014, buscou criar um programa de ensino adequado à realidade brasileira e promover a formação docente voltada para a inclusão da criança no mundo letrado (Belintane, 2016). Um dos resultados, apresentado por Natália Bortolaci, então professora no EFI da EAFEUSP, destacou a necessidade de manejo da heterogeneidade e da adoção de um olhar singularizado para as crianças (Bortolaci, 2015). Logo, mesmo após a conclusão da pesquisa, as Atividades Diferenciadas foram mantidas e aprimoradas ao longo dos anos a fim de assegurar a equidade e inclusão na aprendizagem de todos/as. Atualmente, como dito, estas abrangem Alfabetização, Língua Portuguesa e Matemática e são planejadas e realizadas por professoras, bolsistas e estagiários/as, que organizam – no turno regular de aulas, durante uma hora – os/as estudantes em quatro grupos (G1, G2, G3 e G4), definidos por necessidades específicas de aprendizagem. Essa organização rompe com a forma escolar, fundamentada na homogeneização dos tempos, espaços e sujeitos, reconfigurando as relações pedagógicas e o uso dos tempos e espaços escolares (Viñao Frago; Escolano, 2001; Correia; Gallego, 2004). Tal proposta sustenta uma cultura própria da EAFEUSP ao articular princípios, teorias, ideias, hábitos e práticas que reconhecem e valorizam a diversidade (Azanha, 1990/1991; Viñao Frago, 2005). Segundo Meirieu (2002), garantir a todos/as os/as estudantes a oportunidade de progredir em suas aprendizagens implica elaborar itinerários didáticos particulares, comprometidos com a democratização do acesso ao conhecimento, sem reduzir o currículo nem “diferenciar para excluir”. Nesse contexto, as crianças podem vivenciar nas Atividades Diferenciadas múltiplas intervenções pedagógicas e interagir com professoras, bolsistas, estagiários/as e colegas de outras turmas, favorecendo trocas e aprendizagens coletivas (Bortolaci, 2015). Essa dinâmica é possível porque os objetivos de aprendizagem para cada grupo partem de um currículo comum, enquanto os níveis de desafio e as estratégias de intervenção variam segundo as necessidades coletivas e individuais. Os agrupamentos são flexíveis e dinâmicos, reorganizados conforme a avaliação contínua da aprendizagem. Já a atuação de bolsistas e estagiários/as potencializa a integração entre diferentes etapas de formação e enriquece a troca de saberes docentes, assegurando a continuidade da proposta. Como mencionado, essas práticas também se apoiam no trabalho colaborativo entre docentes e demais atuantes, que planejam, desenvolvem materiais e compartilham recursos tecnológicos. Desse modo, ao mobilizarem saberes disciplinares, curriculares, da formação profissional e experienciais (Tardif, 2000, 2014), entrelaçam conhecimentos acadêmicos, profissionais e de vida, ajustando-os às situações concretas da sala de aula e à cultura escolar da EAFEUSP. As Atividades Diferenciadas articulam, portanto, diversas estratégias pedagógicas em busca de itinerários que assegurem a todos/as o direito à aprendizagem (Meirieu, 2005). Constatou-se, assim, que as Atividades Diferenciadas oportunizam o acolhimento das diversidades em igualdade de condições e oportunidades de aprendizagem. Isso se deve ao rompimento com a perspectiva de homogeneização da forma escolar, a partir da recriação dos espaços-temporais da instituição, por meio do protagonismo das professoras nessa reconfiguração. Ao mobilizarem saberes diversos, elas propiciam a produção e a incorporação de um saber-fazer docente próprio, em prol dos princípios formativos da EAFEUSP – voltados à diversidade, à equidade e à inclusão.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica