FORMAÇÃO DE ALUNOS SURDOS: DESAFIOS ENFRENTADOS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL NA REDE PÚBLICA DE ENSINO DO MUNICÍPIO DE JAÍBA-MG
Elliã Christine da Silva Miranda
Universidade Estadual de Montes Claros
Naura Sthocco Silva
Universidade Estadual de Montes Claros
Eixo 1: Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas.
Resumo
O estudo investigou os desafios enfrentados na formação de alunos surdos nos anos iniciais do ensino fundamental na rede pública de Jaíba-MG, com foco na importância da Libras no processo de ensino. Buscou-se compreender a formação docente, identificar práticas e metodologias utilizadas e discutir o uso da língua de sinais no ambiente escolar. A pesquisa, de abordagem qualitativa, contou com levantamento bibliográfico e entrevistas com professores regentes. Os referenciais teóricos incluíram Goldfeld (2002), Quadros (1997) e Pozzer (2015). A análise evidenciou carências na formação específica e dificuldades estruturais que comprometem a inclusão. O estudo se destaca por sua relevância científica, acadêmica e social, contribuindo para futuras pesquisas e o aprimoramento de práticas pedagógicas.
Palavras-chave: Alunos Surdos. Desafios. Formação Educacional.
Introdução
A formação educacional de alunos surdos no Brasil é resultado de um processo histórico marcado por lutas e conquistas, permeado por desafios que persistem no cenário contemporâneo. Durante séculos, pessoas surdas foram marginalizadas, privadas de acesso à educação e, consequentemente, excluídas socialmente. Essa realidade começou a ser modificada a partir da criação do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em 1857, e, mais recentemente, com marcos legais como a Lei nº 10.436/2002 e o Decreto nº 5.626/2005, que reconheceram a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio oficial de comunicação e instituíram diretrizes para a formação de profissionais. Este estudo investigou, no município de Jaíba-MG, os principais desafios para a formação de alunos surdos nos anos iniciais do ensino fundamental, considerando a formação docente, as metodologias utilizadas e o uso da Libras no ambiente escolar.
Fundamentos Teóricos
A discussão teórica baseou-se em autores como Goldfeld (2002), Quadros (1997) e Pozzer (2015), organizando-se em três eixos: (1) breve histórico da educação de surdos no Brasil, passando pelo oralismo, comunicação total e bilinguismo; (2) formação de professores para a educação bilíngue, com destaque para lacunas curriculares e ausência de formação continuada; e (3) desafios na formação de alunos surdos, envolvendo carência de materiais pedagógicos adaptados, recursos tecnológicos e participação familiar. Os referenciais evidenciam que a inclusão demanda mais do que acesso físico à escola, sendo indispensável a valorização da identidade surda e a garantia de interações significativas no processo educativo.
Metodologia
O estudo adotou uma abordagem qualitativa, em que, para Minayo, et.al, (2002, p. 43), a pesquisa qualitativa não se baseia no critério numérico para garantir sua representatividade”, sendo ela de caráter exploratório e descritivo. Os procedimentos envolveram pesquisa bibliográfica, observação sistemática e entrevistas estruturadas com três professores regentes que atuam com alunos surdos nos anos iniciais do ensino fundamental, em escolas da rede pública municipal de Jaíba-MG. A análise de dados seguiu a técnica de análise de conteúdo, possibilitando a categorização das respostas e a identificação de padrões nas práticas pedagógicas, nas dificuldades e nas estratégias de ensino empregadas.
Análise de dados
Os resultados do estudo indicaram a insuficiência na formação docente específica para o ensino de alunos surdos e baixo domínio da Libras, no qual nenhum dos professores dominava a Libras em nível avançado, limitando-se a sinais básicos. Essa limitação dificultava a comunicação efetiva com os alunos surdos, prejudicando a mediação pedagógica. Ademais, constatou-se a ausência de recursos pedagógicos, sendo que os professores dependiam de adaptações próprias, muitas vezes sem orientação metodológica adequada. Isso comprometeu a consistência das práticas pedagógicas e limitou a aprendizagem dos alunos surdos. Outrossim, a participação familiar reduzida, dificultando a continuidade da aprendizagem fora do ambiente escolar, em que a maioria das famílias não dominava Libras, dificultando a comunicação cotidiana com os filhos. Apesar dos entraves, observou-se também iniciativas criativas. Da Conceição Santos, Pereira, (2019, p.152), constata a necessidade de desenvolver práticas pedagógicas que promovam a atenção dos alunos, permitindo maior facilidade ao desenvolvimento do raciocínio lógico e cognitivo. Os professores relataram recorrer a recursos visuais, vídeos e trabalhos em grupo, buscando promover maior interação. Por se tratar da LIBRAS, acreditamos que as atividades deveriam contemplar as características inerentes à língua e que, para isso, recursos concretos e visuais deveriam ser usados em atividades e brincadeiras que estimulassem a comunicação. (Valadão, et al. 2016, p.133-134). Entretanto, tais práticas, embora positivas, mostraram-se isoladas e dependentes do esforço individual dos discentes.
Conclusões
O estudo conclui que, embora a legislação brasileira tenha avançado no reconhecimento dos direitos linguísticos e educacionais da comunidade surda, a prática escolar ainda apresenta limitações significativas. Em Jaíba-MG, os principais entraves concentram-se na formação insuficiente dos professores regentes em Libras e em educação bilíngue, o que compromete a mediação pedagógica desde os primeiros anos do ensino fundamental. Constatou-se também a ausência de materiais didáticos bilíngues, restringindo as possibilidades de aprendizado efetivo, bem como a carência de políticas públicas municipais voltadas à infraestrutura e ao suporte necessários. Somado a isso, observou-se a participação familiar limitada, já que muitos pais não dominam a Libras, dificultando a comunicação cotidiana e o acompanhamento escolar das crianças surdas. Diante desse quadro, o estudo aponta para a urgência de medidas como o fortalecimento da formação docente em educação bilíngue, a produção de materiais acessíveis e a oferta de cursos de Libras às famílias, de modo a ampliar a interação e favorecer a inclusão efetiva dos alunos surdos no ambiente escolar.
Referências
BRASIL. Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a lei de acessibilidade, n° 10.098/2000 e a lei de libras, n° 10.426. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília, 22 dez. 2005.
BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências.
DA CONCEIÇÃO SANTOS, Sidneide Maria; PEREIRA, Daniane. Libras e sua importância na formação de professores na educação de surdos. Revista Encantar, v. 1, n. 2, p. 139-158, 2019.
GOLDFELD, Marcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sociointeracionista / Marcia Goldfeld. - 7º ed. - São Paulo: Plexus Editora, 2002.
MINAYO, Cecília de Souza; DESLANDES, Suely Ferreira; NETO, Otávio Cruz; GOMES, Romeu. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
POZZER, Angélica. A inclusão de alunos surdos em escola regular e os desafios para a formação de professores. 2015. Tese de Doutorado. Tese de Mestrado.
QUADROS, Ronice Muller de. Educação de Surdos: aquisição da linguagem / Ronice Muller de Quadros. - Porto Alegre: Artmed, 1997.
VALADÃO, Michelle Nave et al. Os desafios do ensino e aprendizagem da Libras para crianças ouvintes e suas relações com a educação inclusiva de alunos surdos. Revista (Con) Textos Linguísticos, v. 10, n. 15, p. 125-147, 2016.
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