A pesquisa compara os marcadores do etarismo entre os acadêmicos da Universidade Federal do Pampa (Quintana, 2023) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Araujo; Melo Júnior, 2024), analisando como os estudantes percebem esse tema diante do crescente ingresso de idosos na universidade.
Para Loth e Silveira (2014, p.66), “o envelhecimento é um processo que varia de indivíduo para indivíduo”. Devido a estigmas “a velhice é vista de forma homogênea, estereotipada e a idade é assumida como o principal fator associado ao envelhecimento”. De acordo com Mendonça (2020), ao olhar para 50 anos de edições da Veja em reportagens sobre a velhice, 73,45% das matérias diziam sobre comportamentos que precisariam ser tomados para o não envelhecimento, a velhice nesse sentido é vista como condição a ser evitada para manutenção da juventude, e 26,55% das reportagens entendia a velhice como problema público.
Nessa vertente, a Sociedade Americana de Gerontologia denominou o idadismo ou etarismo como o preconceito cometido contra o idoso baseado na faixa etária, que repercute diretamente nas suas necessidades sociais, sobretudo, em saúde, no direito de envelhecer com dignidade e qualidade de vida. Nesse contexto, o preconceito de idade nasce ao se categorizar e segregar pessoas de diferentes grupos etários. (FHON JRS, 2024, 2 p).
Segundo Bell Hooks (2021, p.118) “Quando a educação como prática da liberdade é afirmada em escolas e faculdades, podemos nos mover para além da humilhação, na direção de um lugar de reconhecimento que humaniza”. A autora vê a sala de aula como ambiente de quebra dos estereótipos e discriminações “ao colocar em ação políticas de afirmação, em que a diferença é respeitada e todas as vozes são consideradas dignas”. Na mesma ceara, Cury (2002, p.266) afirma que “a educação como direito e sua efetivação em práticas sociais se convertem em instrumento de redução das desigualdades e das discriminações”.
Para além da potência da educação no enfrentamento às discriminações, o ingresso de pessoas idosas na universidade revela também a continuidade de sua participação ativa na sociedade. Muitas vezes, esse acesso ao ensino superior representa a realização de sonhos adiados ao longo da vida, permitindo-lhes ressignificar trajetórias pessoais e profissionais. Ao abrir espaço para a presença de estudantes mais velhos, a universidade não apenas promove diversidade etária, mas também contribui de forma significativa para a melhoria da qualidade de vida, ampliando redes de sociabilidade, estímulos cognitivos e o sentimento de pertencimento. Baseados em Tavares (2008, p.87) entendemos que:
A entrada na universidade pode contribuir para o acesso às escolhas mais significativas, aos meios de comunicação, a metodologias integradas e complexas, com o indivíduo passando a reconstruir o processo pelo qual modifica a sua representação da realidade social. Sente-se mais gente. O mundo moderno pode oferecer oportunidades para o exercício da cidadania na velhice, desenvolvendo a autoestima, a autoconfiança, resgatando a dignidade aos seus participantes ativos.
A declaração Mundial do Ensino Superior de (1998) assegura que o ensino superior deve ser acessível a todos independente de quando o cidadão queira ingressar, é um direito humano. (SANTOS, 2015). Ela pode expandir os horizontes, fortalecer a cidadania e romper com as desigualdades sociais. É fundamental que o Estado com suas políticas públicas possa alcançar e motivar a entrada e a permanência de pessoas idosas no contexto universitário.
A pesquisa partiu da abordagem qualitativa, de acordo com (MINAYO, 1994), “é essencialmente qualitativo já que a realidade social é mais rica do que as teorizações e os estudos empreendidos sobre ela, porém isso não exclui o uso de dados quantitativos”. Baseados nessa abordagem, foi realizado um estudo comparativo de duas pesquisas sobre marcadores do etarismo em dois contextos universitários sendo elas: Universidade Federal Rural da Amazônia, Campus Capanema: desafios para inclusão no ensino superior (Araújo; Melo Junior, 2024) e Trabalho de conclusão de Curso de Ciências da Natureza, Etarismo nos Cursos de Ciências da Natureza da UNIPAMPA (Quintana, 2023), comparando os dados dos questionários aplicados sobre o etarismo com 24 acadêmicos da UNIPAMPA e 38 acadêmicos da UFRA, exploramos os impactos do Etarismo no ambiente acadêmico e como a inserção de pessoas idosas é percebido no contexto universitário.
Os estudos comparados aqui abordam tanto o nível de conhecimento dos acadêmicos sobre o tema quanto suas experiências pessoais, como se viu o preconceito. Notamos que o grau do conhecimento sobre o tema etarismo entre a UNIPAMPA (37,4% sim e 37,5% não, 16,7 talvez e 4,2% não sei) e UFRA (50% sim e 50% não) correspondem a mesma proporção entre os entrevistados nas pesquisas das duas instituições, tanto para os que responderam conhecer o assunto como os que não. Na UFRA, 92,1% dos entrevistados relataram a existência de preconceito relacionado à idade. Já na UNIPAMPA, esse índice é de 87,5%. Esses dados indicam a consciência que o preconceito etário está presente na sociedade.
Na UFRA 86,8% dos participantes afirmaram que não há uma idade ideal para a vida acadêmica. Da mesma forma, na UNIPAMPA 79,2% também disseram que não existe idade certa. Na comparação da UFRA 34,2% com a UNIPAMPA 45,8%, os acadêmicos já presenciaram preconceito contra o idoso.
Ao comparar a porcentagem sobre a existência do preconceito e o contato com preconceito, percebe-se que poucos alunos conseguem identificar em sua rotina o Etarismo. Paralelamente, a pesquisa de Ehmke (2020) sobre as práticas do etarismo, indica como a discriminação pode ocorrer de forma sutil, sendo nem sempre identificada por terceiros.
Podemos perceber que nossa hipótese foi corroborada, que há sim o preconceito contra os idosos na universidade, mesmo que este se apresente, na maioria das vezes, de forma sutil e silenciosa, perceptível apenas em olhares maldosos ou piadas sem graça direcionadas ao público mais velho. (EHMKE, 2020, p. 80).
Ao analisar os dados percentuais tanto da UFRA 91,7% quanto na UNIPAMPA 95,8%, evidencia-se a importância da implementação de políticas inclusivas, como a promoção de debates e programas educacionais que abordem e conscientizem os alunos sobre o tema e incentivem o respeito à diversidade.
Os dados da pesquisa indicam que menos da metade dos participantes conhecem o conceito do etarismo, embora cerca de 90% acredite na existência do preconceito. Concomitantemente menos de 45% dos alunos reconhecem formas de preconceito etarista em sua rotina. Isso demonstra como o tema ainda é pouco nomeado e de difícil percepção, sobretudo porque costuma aparecer em microagressões no cotidiano. O consenso sobre a importância de políticas inclusivas e debates indica que a universidade está aberta a enfrentar o problema. Nesse sentido, é essencial ampliar ações de conscientização e inserir a luta contra o etarismo nas pautas acadêmicas e em políticas públicas.
A Universidade é um agente de mudança social que contribui para o desenvolvimento da sociedade, é importante que ela tenha espaços debates, palestras e campanhas educativas que abordem o tema, momentos de escuta, fortalecendo vínculos e proporcionando um ambiente acolhedor.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica