
EJA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: DESAFIOS, POTENCIALIDADES E REFLEXÕES PEDAGÓGICAS
Introdução
Este relato de experiência apresenta reflexões construídas a partir de estudos voltados à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Historicamente marcada por campanhas de alfabetização e por políticas de enfrentamento ao analfabetismo, a modalidade enfrenta desafios que extrapolam a alfabetização inicial: requer estratégias de permanência, continuidade dos estudos e formação de qualidade alinhada às condições de vida dos educandos.
Ao reconhecermos a EJA como direito e como espaço de transformação social, tomamos como referência a centralidade dos saberes prévios, das trajetórias interrompidas e das expectativas dos estudantes. Nessa perspectiva, inspirados em Paulo Freire (1987), alfabetizar e escolarizar significam promover a leitura crítica do mundo, fortalecendo a autonomia e a participação cidadã.
Fundamentos Teóricos
Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil resulta de um percurso histórico marcado por disputas e conquistas no campo do direito à educação. A Constituição Federal de 1988 reconhece, no art. 208, a educação básica obrigatória e gratuita também para quem não a concluiu em idade própria, conferindo novo estatuto à modalidade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9.394/1996 (Brasil, 1996), especialmente nos arts. 4º, 37 e 38, define a EJA como modalidade da educação básica e orienta sua organização em função das características dos sujeitos jovens e adultos.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a EJA - Parecer nº 11/2000 (Brasil, 2000) e as Diretrizes Operacionais para EJA - Parecer nº 6/2010 e Resolução nº 3/2010 (Brasil, 2010) reforçam princípios como flexibilidade curricular, valorização dos saberes prévios, temporalidades próprias e condições de acesso e permanência. O Plano Nacional de Educação – PNE (Lei nº 13.005/2014), na Meta 9, estabelece compromissos de elevação da taxa de alfabetização e ampliação da oferta, evidenciando que o desafio ultrapassa o ingresso e alcança a continuidade dos estudos com qualidade.
Do ponto de vista pedagógico, as contribuições de Paulo Freire são fundantes: alfabetizar e escolarizar significam promover a leitura crítica do mundo, articulando linguagem, trabalho, cultura e participação social. A aprendizagem não se reduz à decodificação; exige diálogo, reconhecimento das experiências de vida e construção de autonomia intelectual e política (Freire, 1987).
Nessa perspectiva, práticas pedagógicas significativas na EJA partem dos conhecimentos construídos no trabalho, na família e na comunidade, articulando-os a novos saberes escolares. Isso implica avaliação com função diagnóstica e formativa, organização flexível de tempos e espaços, e mediação docente comprometida com o acolhimento e a dignidade dos educandos.
Apresentação da Experiência
A experiência foi desenvolvida no âmbito da disciplina Educação de Jovens e Adultos (EJA), articulando leitura e análise de documentos normativos da modalidade (Constituiçao Federal /88, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Diretrizes Curriculares/Operacionais e PNE/Meta 9); estudo de referenciais teóricos, com ênfase em Paulo Freire (1987); complementada por registros reflexivos dos acadêmicos.
Esse percurso possibilitou caracterizar o perfil dos estudantes da EJA a partir de elementos recorrentes nos relatos: trajetórias escolares interrompidas, inserção precoce no trabalho, responsabilidades familiares, experiências de exclusão e baixa autoestima em relação à cultura escrita. Por outro lado, emergem potencialidades relevantes - saberes do trabalho e da vida comunitária, motivação para “retomar a escola”, desejo de conclusão da educação básica e de ampliação da participação social.
As atividades formativas privilegiaram dinâmicas dialógicas (rodas de conversa, estudos de textos e análise de situações-problema), nas quais os acadêmicos exercitaram a reflexão a partir dos textos estudados que trouxeram estratégias como: acolhimento, levantamento de saberes prévios, formulação de perguntas e adaptação de situações didáticas. Em cada estudo, os registros reflexivos foram consolidados em sínteses, destacando desafios pedagógicos e proposições de intervenção.
Como efeito formativo, os participantes ampliaram a compreensão da EJA como direito e prática social de transformação, reconhecendo a centralidade do professor-mediador e a necessidade de organizar tempos, espaços, conteúdos e avaliações em consonância com as temporalidades e necessidades dos sujeitos jovens e adultos.
Análise Parcial Dos Resultados
O estudo revelou que práticas pedagógicas pautadas na valorização dos saberes prévios e na promoção da autonomia dos estudantes têm potencial de transformar vidas e ressignificar a relação com a escola. Três achados se destacam:
1. Fortalecimento da autoestima e da identidade - O reconhecimento dos conhecimentos adquiridos no trabalho, na família e na comunidade contribui para que os educandos percebam a relevância de sua trajetória, resgatando a confiança em sua capacidade de aprender.
2. Consciência crítica e leitura do mundo - A aprendizagem significativa não se limita à aquisição da leitura e da escrita. As atividades que favorecem a interpretação da realidade e a reflexão crítica sobre o cotidiano ampliam as possibilidades de participação social e cidadã, em consonância com a perspectiva freiriana de que alfabetizar é também politizar.
3. Desafios persistentes – Permanência, continuidade e qualidade ainda constituem entraves para a efetivação da EJA. Muitos estudantes enfrentam dificuldades relacionadas ao tempo de estudo, ao acesso a materiais didáticos e ao cansaço após a jornada de trabalho, fatores que fragilizam o processo formativo.
Em síntese, os resultados parciais demonstram que a EJA, quando organizada de forma dialógica e inclusiva, pode se consolidar como espaço de emancipação, mas depende de condições institucionais (oferta adequada, formação docente, recursos pedagógicos) que garantam permanência e êxito.
Conclusões
A reflexão sobre a Educação de Jovens e Adultos (EJA) permitiu compreender que essa modalidade ultrapassa a dimensão do ensino de conteúdos. Mais do que alfabetizar ou oferecer certificação, a EJA se constitui em espaço de reconstrução da autoestima, fortalecimento da identidade e consolidação da cidadania.
O estudo evidenciou que práticas pedagógicas que valorizam os saberes prévios, promovem a autonomia e estimulam a consciência crítica favorecem a permanência dos estudantes e ampliam suas oportunidades de participação social. Tais práticas dialogam com o princípio freiriano da educação como ato político e libertador, capaz de formar sujeitos críticos e protagonistas de sua própria história.
Nesse sentido, reafirma-se que a EJA não pode ser compreendida como compensação de trajetórias escolares interrompidas, mas como instrumento de emancipação e de transformação social, exigindo políticas públicas consistentes, valorização docente e metodologias que respeitem as especificidades dos sujeitos jovens e adultos.
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 1996.
BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 jun. 2014.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 11/2000. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Brasília, DF, 2000.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer CNE/CEB nº 6/2010. Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Brasília, DF, 2010.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CNE/CEB nº 3/2010. Institui Diretrizes Operacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Brasília, DF, 2010.
FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
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