Introdução
As representações eurocêntricas e coloniais, desde o século XVI, consolidaram a perspectiva branca em detrimento da negritude e de outras ordens de diversidade. Esse processo configura o que Camilo (2021) denomina como necromemória, uma política de apagamento e silenciamento da cultura e da força dos povos colonizados.
No Brasil, a literatura nacional reflete esse fenômeno, ao incluir personagens negros de forma esvaziada de subjetividade, reforçando, por sua vez, estereótipos racistas. Mesmo após a promulgação da Lei 10.639/2003, a ausência de vozes negras como enunciadoras de suas próprias histórias no currículo ainda é marcante. Deste modo, este relato apresenta uma intervenção pedagógica realizada em 2023, em uma turma de 3º ano do ensino médio em Rondonópolis-MT, no âmbito do Programa Residência Pedagógica e vinculada à disciplina de Gênero, Diversidade, Relações Étnico-Raciais e Direitos Humanos no curso de Letras - Língua Portuguesa da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). O objetivo foi o de promover reflexões críticas sobre a representatividade negra no material fornecido pelo Estado e valorizar a obra de Carolina Maria de Jesus, uma das principais vozes de denúncia ao racismo estrutural no país.
Fundamentos Teóricos
Apesar da abolição da escravidão, o racismo segue como marca estrutural da sociedade brasileira, sustentado por hierarquias coloniais de raça e gênero (Oliveira, 2022). Para Bento (2022, p. 37), “a omissão da resistência negra e indígena na historiografia oficial nos mostra que precisamos entender sobre memória coletiva, mas também sobre amnésia coletiva”, ocultando o protagonismo desses povos e reforçando o mito da democracia racial.
O apagamento ou silenciamento das lutas e feitos históricos desses povos referem-se ao que podemos chamar de “Necromemória”, sendo definida por Camilo (2021, p.3) como: “remetem ora a um apagamento, ora a uma fetichização de sujeitos negros exclusivamente como escravizados, objetificados e sexualizados no contexto nacional brasileiro, de modo que essa imagem é a que passa a ser objeto inserido na preservação do imaginário social.”
Desse modo, é evidente afirmar que a escolha em estabelecer determinado grupo étnico como padrão de referência e representação, expropriando a identidade de grupos minoritários, segue sendo a lógica colonialista e racista que sustenta a natureza desigual do nosso país. Contudo, como bem ressalta o estudo de Breunig (2021), se a ficção produzida pelo colonialismo fundamenta o necropoder, demasiado real para o outro, e o sujeito do humanismo e do universalismo colonial, ela também tem uma função decisiva diante das novas relações entre os fatos e as ficções da nossa civilização da imagem.
A decolonialidade, ideia que Walsh (2009) aborda, propõe romper com saberes eurocêntricos e valorizar as diferenças. A literatura afro-brasileira, como a de Carolina Maria de Jesus, é um exemplo disso, ao dar voz a experiências silenciadas e transformar vivências em resistência, como propõe o conceito de escrevivência de Conceição Evaristo.
Nesse sentido, a Lei 10.639/2003, que alterou a LDB ao tornar obrigatório o ensino das histórias e culturas africanas e afro-brasileiras nos currículos da educação básica, incluindo a Literatura, deve contemplar sistematicamente essas diretrizes. Contudo, a realidade observada, principalmente no eixo de Literatura, é bem diferente:
É visto que a representação social do povo brasileiro através dos textos literários é tradicionalmente construída sob a via da colonialidade/modernidade, a figura do homem negro e da mulher negra nestes textos são estereotipados pela sexualização e/ou animalização, como valores inexoráveis ao pensamento colonial. (Fernandez, 2022, p. 329)
Por isso, é extremamente importante que autores negros sejam cada vez mais incluídos no currículo escolar. Nomes como o de Carolina Maria de Jesus, uma das maiores representantes da literatura afro-brasileira e autora que fundamenta o presente relato, precisam ser levados e reconhecidos nas escolas, pois rompem com o discurso dominante que sempre impediu que a mulher negra falasse e promovem um contra discurso de resistência e emancipação do imaginário social.
Apresentação da experiência
A intervenção foi realizada em uma turma de 3º ano da Escola Estadual Major Otávio Pitaluga, em duas aulas geminadas. O objetivo foi discutir a ausência de autores negros nos materiais didáticos e elaborar coletivamente um manual digital sobre Carolina Maria de Jesus.
Na primeira etapa, analisamos a apostila oficial, na seção de produção contemporânea, constatando ausência de escritores negros e baixa presença de mulheres (menos de 25%). Até na seção “Literatura de Moçambique”, o autor selecionado foi Mia Couto, escritor branco. A partir dessa análise, discutimos os conceitos de necromemória e representatividade, bem como os impactos sociais envolvidos na exclusão de vozes negras dos espaços de enunciação.
Em sequência, lemos trechos de Quarto de despejo (1960), célebre obra de Carolina, refletindo sobre temas como a fome, racismo e desigualdade social, ainda atuais. Por fim, os estudantes se organizaram em grupos para pesquisar sobre a autora e produzir, no Canva, um manual didático reunindo sua biografia, obras e relevância para a literatura brasileira.
Análise parcial dos resultados
A experiência evidenciou a invisibilidade de autores negros nos materiais didáticos e no imaginário dos estudantes. Questionados sobre escritores negros brasileiros, poucos souberam citar nomes; alguns mencionaram Nelson Mandela, figura importante, mas não literária. Esse desconhecimento contrasta com a relevância de autores como Maria Firmina dos Reis, Luís Gama, Cruz e Sousa, Machado de Assis (representado como branco) e Conceição Evaristo.
Os estudantes demonstraram interesse pelos excertos da obra, identificando a atualidade das questões sociais apresentadas por Carolina Maria de Jesus. O engajamento na produção do manual mostrou criatividade e autonomia, permitindo-lhes protagonizar o processo de aprendizagem. A discussão também possibilitou ampliar a reflexão para outras ausências, como a de literatura indígena, de produções de artistas surdos e de materiais adaptados a estudantes com deficiência.
Conclusões
Considerando a importância da Literatura como instrumento de representação social, ela se apresenta como aliada fundamental no combate ao racismo e ao apagamento da cultura afro-brasileira. Autoras como Carolina Maria de Jesus constroem identidades e rompem papéis excludentes atribuídos historicamente à população negra, revelando a potência de uma educação que valoriza vozes silenciadas.
Os referenciais teóricos e a prática desenvolvida confirmam a urgência de incluir autores negros no currículo e de adotar uma leitura decolonial dos clássicos, que não precisam ser excluídos, mas ensinados de forma contextualizada. Trata-se não apenas de preencher lacunas, mas de reconhecer e legitimar trajetórias apagadas, construindo caminhos para uma educação efetivamente antirracista e comprometida com a diversidade.
Referências
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. 1a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
BREUNIG, Tiago Hermano. A literatura e o necropoder: planos de fuga. Revista Linguagem & Ensino, v. 24, n. 1, p. 29-41, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/index.php/rle/article/view/20395. Acesso em: 28 jul. 2025.
CAMILO, Vandelir. Necromemória: Reflexões sobre um conceito. Periódicos - UFAM, v.13, n.1 p. 1-28, 2021. Disponível em: periodicos.ufam.edu.br . Acesso em: 28 jul. 2025.
FERNANDEZ, Raffaella; DA SILVA FRONZA, Cristiane Viana. Carolina Maria de Jesus rompendo o silenciamento das vozes negras-breve leitura interseccional. Lutas Sociais, v. 26, n. 49, p. 310-325, 2022. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/ls/article/view/62471 . Acesso em: 29 jul. 2025.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 jan. 2003.
OLIVEIRA, Evelyn Talisa Abreu; PEIXOTO, Rodrigo Corrêa Diniz. Racismo por omissão e luta antirracista: da colonialidade à resistência em Benevides/PA. Em Tese, v. 19, n. 1, p. 108-128, 2022. Disponível em: 28 jul. 2025.
WALSH, Catherine. Interculturalidade, descolonização do Estado e do conhecimento. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. 2. ed. Buenos Aires: CLACSO, 2009. p. 27-44.
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