PEDAGOGIA INSTITUCIONAL E A RESSIGNIFICAÇÃO DO PAPEL DOCENTE

  • Autor
  • Danilo Augusto Dias
  • Resumo
  • Introdução

    Nos últimos anos o campo educativo vem refletindo sobre o papel que o docente desempenha no processo de ensino e quais os seus impactos na aprendizagem dos estudantes. Desde meados do século XX o campo de estudos da educação compreendeu que a figura de um professor detentor do saber, inquestionável e absoluto na sua posição na rígida hierarquia escolar não é mais adequada para uma proposta educativa inclusiva e humanizadora. As reflexões de filósofos e educadores como, entre outros, Paulo Freire, apontam para uma relação próxima entre o professor-mestre e uma concepção de educação radicada na passividade, na memorização e na avaliação somativa. Contudo, compreendido o problema, resta-nos buscar modelos alternativos mais adequados a essa nova visão educativa.

    Nesse sentido, o presente trabalho busca se debruçar sobre a temática da Pedagogia Institucional (PI) como elemento condutor da reflexão sobre a ressignificação do papel docente. Essa pedagogia nasce na França, na segunda metade do século XX, a partir do movimento iniciado por Célestin Freinet, mas acaba adquirindo características próprias sobretudo pela inserção da psicanálise como fundamento para a sua prática.

    A PI nos apresenta uma nova forma de pensarmos a relação professor-aluno, partindo da premissa da colaboração e da cooperação, das relações sociais e democráticas dentro do ambiente da sala de aula. Ela propõe a institucionalização da sala de aula, isto é, a inserção de técnicas e procedimentos que reconhecem o aluno na sua integridade e oportunizam a relação deste com as suas próprias emoções e sentimentos, validam a sua expressão singular e permitem que a sala de aula e o processo educativo assumam, também, um papel terapêutico no processo de ensino e aprendizagem. O professor, dessa forma, não é figura totalitária singular, mas um membro da comunidade da sala de aula institucionalizada que, com os alunos, trilha o caminho do conhecimento.

    Depois dessa breve introdução, buscaremos apresentar os fundamentos teóricos da PI, seguido da metodologia empregada neste trabalho, finalizando com a discussão e as conclusões alcançadas.

    Fundamentos Teóricos

    A Pedagogia Institucional (PI) surge, de certa forma, como uma abordagem educativa que se posiciona de forma crítica em relação à instituição escolar tradicional, percebendo o ambiente pedagógico não apenas como um sistema de controle, mas como uma unidade viva e dinâmica, capaz de ser continuamente remodelada pelas práticas que ali se desenrolam (Hess; Schaepelynck, 2013). A grande ambição por trás de tudo isso, parece, é capacitar cada estudante para se tornar o verdadeiro artífice de seu próprio processo de aprendizagem, um protagonista ativo. Esse movimento, que ganhou força e se consolidou principalmente na França, tem suas raízes fincadas na pedagogia Freinet, desenvolvendo-se intensamente entre as décadas de 1950 e 1960. Pensadores como Fernand Oury e Aïda Vasquez foram figuras centrais, inspirando-se em correntes diversas, desde a educação ativa e as pesquisas sobre dinâmicas de grupo (como as de Lewin e Moreno) até as contribuições da psicologia não diretiva de Carl Rogers. Trata-se, então, de um compromisso político e ético com a formação integral dos jovens (Canat; Pain, 2007).

    No cerne da Pedagogia Institucional, há uma clara resistência em aceitar passivamente as diretrizes hierárquicas de um sistema de ensino, frequentemente criticadas por serem estéreis e ineficazes. Em vez de se submeter a planos pré-definidos, a PI argumenta que as ferramentas pedagógicas mais valiosas são aquelas que emergem da experiência real e da prática cotidiana na sala de aula, uma verdadeira práxis (Jeanne, 2008). Fernand Oury, por exemplo, costumava articular a PI sobre o que ele chamava de um “tripé essencial”: o materialismo, o grupo e o inconsciente (Oury; Vasquez, 1974). O materialismo, com sua ligação ao marxismo, valoriza o conhecimento construído ativamente a partir da interação com a realidade. O grupo é visto como o terreno fértil para a sociabilidade e o desabrochar da curiosidade intelectual, onde as normas e a organização são forjadas coletivamente. E, por fim, o inconsciente, mesmo que muitas vezes negligenciado, é reconhecido como uma força atuante na dinâmica da classe, cuja compreensão, mediada pela psicanálise, pode ser decisiva para a eficácia educativa e o bem-estar mental dos alunos e professores, embora sem a intenção de transformar o educador em analista (Jeanne, 2008; Robin, 2011).

    Metodologia

    O presente trabalho é um excerto inicial das pesquisas conduzidas para a elaboração da dissertação de mestrado do autor e tem uma abordagem qualitativa. De acordo com Severino (2021), é mais adequado falarmos em “abordagem” e não em “metodologia” qualitativa porque ela parte de uma epistemologia e não se restringe apenas a características de metodologia. Também se caracteriza como uma revisão bibliográfica, sendo dessa forma mais fluída e assistemática (Mattar & Ramos, 2021). Optou-se pela revisão bibliográfica como forma de condensar a produção acadêmica sobre a temática, analisando-a criticamente de forma a subsidiar a reflexão.

    Análise de dados

    O papel do professor no contexto da PI parece ser algo bem distinto da figura tradicional do “mestre” ou do mero “transmissor de conhecimento” que se vê na educação mais formal. Longe de ser apenas um executor de diretrizes curriculares, o educador da PI é, na verdade, um artesão e co-criador do ambiente de aprendizagem (Jeanne, 2008). A Pedagogia Institucional, de certa forma, instiga o professor a ir além de sua função de instrução direta, incentivando-o a atuar como um facilitador ativo, alguém que provoca e estimula a auto-organização dos alunos, permitindo que eles se tornem os verdadeiros protagonistas do seu próprio percurso educacional. Como destacado por Lobrot (1966), em vez de simplesmente “abrir a torneira” do saber, como se a aprendizagem fosse um ato passivo de recepção, o professor na PI se dedica a implementar e a desenvolver técnicas, muitas vezes inspiradas em Freinet, como o “texto livre” ou o “desenho livre”, que convidam à expressão genuína e à autogestão da atividade, promovendo uma dinâmica de não-diretividade que, de certo modo, erode as estruturas burocráticas.

    Mais do que um mero facilitador, o professor na PI assume uma função que se aproxima, em certos aspectos, à de um analista e guardião da “Lei” no ambiente da sala de aula. Ele precisa estar atento ao inconsciente na classe, utilizando conceitos da psicanálise — não para se transformar em terapeuta, o que não seria adequado, mas para melhor compreender as dinâmicas e as expressões dos alunos, tanto para a eficácia educativa quanto para a saúde mental de todos.

    Conclusões

    A Pedagogia Institucional prevê, em seu arcabouço, um papel ressignificado para o docente. Ao revisarmos a literatura, foi possível compreender que essa forma pedagógica se encontra perfeitamente alinhada aos desafios daquela educação que, como apontado na introdução, não é mecânica, mas humana. Compreendemos que, para a formação docente, o estudo dos elementos fundamentais da PI pode enriquecer a sua prática pedagógica e levar os alunos a serem protagonistas e não agentes passivos na dinâmica escolar. Portanto, entendemos ser oportuna a difusão dessa pedagogia no Brasil, ampliando o instrumental ofertado aos docentes para que desenvolvam um trabalho alinhado com aquilo que é demandado de uma educação do século XXI.

    Apoio técnico ou financeiro (se houver)

    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior-Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001

    Referências

    CANAT, S.; PAIN, J. Vers une pédagogie institutionnelle adaptée: les besoins particuliers des élèves en situation de handicap scolaire. Nimes: Champ social éd, 2007(Recherches).

    HESS, C.; SCHAEPELYNCK, V. Institution, expérimentation, émancipation?: autour de la pédagogie institutionnelle. Tracés, [s. l.], n. 25, p. 125–146, 18 nov. 2013. https://doi.org/10.4000/traces.5832.

    JEANNE, Y. Fernand Oury et la pédagogie institutionnelle: Reliance, [s. l.], v. n° 28, n. 2, p. 113–117, 29 set. 2008. https://doi.org/10.3917/reli.028.0113.

    LOBROT, M. La pedagogie institutionnelle: l’Ecole vers l’autogestion. Paris: GAUTHIER-VILLARS, 1966(HOMMES ET ORGANISATIONS).

    MATTAR, J.; RAMOS, D. K. Metodologia de Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas, Quantitativas e Mistas. São Paulo, SP: Edições 70, 2021.

    OURY, F.; VASQUEZ, A. Vers une pédagogie institutionnelle. [S. l.]: FRANÇOIS MASPERO, 1974.

    ROBIN, I. La pédagogie institutionnelle à l’école maternelle. Paris: Matrice Editions, 2011.

    SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. [S. l.]: Cortez Editora, 2021.


     

  • Palavras-chave
  • docência; Freinet; Práxis
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
  • Eixo 2 – Educação e Justiça Social: Identidades, Gênero e Relações Étnico-Raciais
  • Eixo 3 – Políticas Públicas e Gestão Educacional na Perspectiva Inclusiva
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
  • Eixo 5 – Educação do Campo, Indígena e Quilombola: saberes, territórios e direitos

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