FUNDAMENTOS NEUROPSICOLÓGICOS E PRÁTICAS DE INCLUSÃO NO ENSINO FUNDAMENTAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA

  • Autor
  • CELIANE DO LAGO NOVAES
  • Co-autores
  • Ana Maria Braga Rocha
  • Resumo
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    Resumo – A inclusão escolar de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) representa um dos maiores desafios da escola contemporânea. As políticas públicas brasileiras, em consonância com a legislação educacional, asseguram o direito desses estudantes à educação regular. Contudo, a efetividade da inclusão depende da articulação entre teoria e prática, da mediação docente e do uso de estratégias pedagógicas adequadas. Este relato de experiência tem por objetivo descrever práticas de observação e intervenção realizadas em uma turma do Ensino Fundamental II, destacando como fundamentos da neuropsicologia, a partir das obras de Alexander Luria, auxiliaram na compreensão dos processos cognitivos, atencionais e comportamentais dos educandos.

    Introdução

    O debate sobre inclusão escolar tem se intensificado nas últimas décadas, sobretudo diante da ampliação das políticas públicas voltadas ao acesso e à permanência de alunos com necessidades educacionais específicas no ensino regular. Nesse contexto, esses estudantes ocupam lugar de destaque, uma vez que apresentam desafios que demandam atenção individualizada e práticas pedagógicas diferenciadas.

    Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de o professor compreender as bases cognitivas e neuropsicológicas que sustentam os processos de aprendizagem e Luria, ao desenvolver sua teoria das três unidades funcionais do cérebro, evidenciou que funções como atenção, memória e linguagem são construídas em sistemas interdependentes, o que amplia a compreensão de como dificuldades podem ser superadas a partir de intervenções adequadas (LURIA, 1981; 1992).

    No espaço escolar, tais princípios ganham relevância prática, pois as turmas são heterogêneas e as demandas de inclusão exigem tanto estratégias pedagógicas quanto reflexões sobre o papel social da escola. Nesse cenário, destaca-se ainda o papel do monitor pedagógico como elemento de apoio fundamental no processo inclusivo. Atuando em parceria com o professor regente, esse profissional contribui para a mediação das atividades, a adaptação de conteúdos e o acompanhamento individualizado.

    Este trabalho busca, portanto, socializar uma experiência docente de observação e intervenção no Ensino Fundamental, em uma escola urbana, destacando os desafios e as possibilidades de práticas inclusivas voltadas para alunos com TEA e TDAH. A observação sistemática e o relato de experiência, nesse sentido, constituem ferramentas metodológicas valiosas, permitindo ao professor observar, registrar e analisar o processo de ensino-aprendizagem, identificando avanços, dificuldades e possibilidades de intervenção

    Fundamentos Teóricos

    Segundo Luria (1992), a mente humana constitui-se em sistemas funcionais complexos, envolvendo três unidades cerebrais principais: a regulação do tônus e da vigília, a recepção e processamento da informação e a programação e verificação da atividade. Essa perspectiva permite compreender que dificuldades de atenção, memória e autorregulação não decorrem apenas de déficits isolados, mas de desequilíbrios na interação dessas unidades, assim como o fato de que os distúrbios em funções executivas, linguagem e percepção influenciam o processo de aprendizagem.

    Conforme Paula, Silva e Andrade (2023), de modo geral, observa-se que os professores apresentam apenas um conhecimento básico acerca dos transtornos, o que limita a adoção de práticas mais eficazes no cotidiano escolar, somam-se ainda os desafios relacionados à diversidade de estilos de aprendizagem presentes em sala de aula, o que muitas vezes dificulta o estabelecimento de vínculos afetivos mais sólidos com cada estudante.

    Nota-se que, esse vínculo poderia favorecer significativamente o processo de aprendizagem, uma vez que a relação de confiança entre aluno e professor constitui elemento essencial para a mediação pedagógica. Assim, para estudantes com TEA e TDAH, torna-se fundamental a construção de práticas pedagógicas que considerem tanto o funcionamento cerebral quanto a mediação social.

    Dessa forma, ao compreender que a mente funciona como um sistema dinâmico, no qual funções cognitivas superiores podem ser estimuladas e reorganizadas, evidencia-se a importância de práticas pedagógicas que dialoguem com a singularidade de cada aluno e,  nesse sentido, a inclusão de estudantes com TEA e TDAH não deve ser reduzida a adaptações superficiais, mas entendida como um processo contínuo de mediação que envolve linguagem, interação social e estímulos adequados.

    Entre os recursos pedagógicos que se destacam estão o aproveitamento do hiperfoco, direcionando os interesses específicos do aluno como via de engajamento para outras áreas do conhecimento, e a adaptação de avaliações, que considera diferentes tempos de resposta, formatos diversificados de apresentação e a valorização do processo, e não apenas do resultado final.

    Nesse sentido, Nogueira et. Al. (2022) argumentam que uma das ações prioritárias para o fortalecimento da inclusão consiste no investimento contínuo na formação e capacitação dos mediadores. Como o próprio termo indica, o mediador atua como ponte entre professor e aluno, entre pares e, sobretudo, entre o estudante com TEA e o conhecimento. Reconhecer a relevância desse profissional é condição indispensável para o avanço em direção a uma educação efetivamente inclusiva.

    Apresentação da Experiência

    A experiência foi realizada em uma escola pública urbana, com duas turmas do 6º ano do Ensino Fundamental II, composta por 24 e 27 alunos, dos quais em uma turma, uma apresenta diagnóstico de TEA e TDAH e na outra turma um aluno apresenta diagnóstico de TEA apenas. A observação inicial revelou dificuldades relacionadas à atenção sustentada, impulsividade, organização espacial e interação social.

    A intervenção docente estruturou-se em três eixos principais. O primeiro foi a organização da rotina, com o uso de quadros visuais que apresentavam a sequência das atividades, favorecendo a previsibilidade e a segurança dos alunos. O segundo envolveu estratégias atencionais, como a segmentação das tarefas em etapas menores, a alternância entre atividades escritas, lúdicas e motoras, além da realização de pausas planejadas para manter o engajamento.

    Por fim, destacou-se a mediação social, por meio do incentivo ao trabalho em pares e em pequenos grupos, estimulando o desenvolvimento de habilidades socioemocionais através de jogos cooperativos e rodas de conversa. O relato de observação foi registrado semanalmente, contemplando comportamentos, respostas às intervenções e percepções sobre o engajamento dos estudantes.

    Análise parcial dos resultados

    Os registros demonstraram que a utilização de recursos visuais e a clareza nas instruções contribuíram para a organização das atividades, especialmente no caso dos alunos com TEA. A segmentação das tarefas e a possibilidade de pausas favoreceram o engajamento do aluno com TDAH, reduzindo episódios de dispersão. Além disso, o trabalho em pares promoveu maior interação entre os alunos, fortalecendo vínculos sociais e desenvolvendo a empatia da turma como um todo.

    Observou-se que a construção de vínculos e o acompanhamento individualizado foram essenciais para reduzir barreiras de aprendizagem. A análise confirma as contribuições de Luria ao destacar que funções psicológicas superiores, como atenção e autorregulação, não são estáticas, mas podem ser reorganizadas por meio de estratégias adequadas e mediação pedagógica.

    Conclusões

    A experiência evidenciou que práticas pedagógicas fundamentadas na neuropsicologia e sustentadas pelo relato reflexivo permitem ao professor atuar de forma mais consciente e efetiva diante dos desafios da inclusão. A articulação entre teoria e prática mostrou que estratégias simples, como rotinas visuais, segmentação das tarefas e jogos cooperativos, são capazes de potencializar a aprendizagem e a participação de alunos com TEA e TDAH no Ensino Fundamental.

    Destaca-se ainda a relevância de explorar o hiperfoco como recurso pedagógico, transformando interesses restritos em pontos de partida para a construção de novos conhecimentos. Da mesma forma, a adaptação das avaliações mostrou-se indispensável, ao considerar ritmos, formatos e modos diferenciados de expressão do aprendizado, valorizando o percurso do estudante e não apenas o produto final.

    Ademais, a presença do monitor pedagógico mostra-se decisiva para consolidar práticas inclusivas nas escolas. Mais do que auxiliar nas tarefas cotidianas, ele representa um elo entre o planejamento docente e as necessidades específicas dos alunos, garantindo que adaptações sejam implementadas de modo contínuo e efetivo. Ao reconhecer sua importância e investir em sua formação, a escola fortalece o compromisso com a educação inclusiva, assegurando que todos os estudantes tenham condições de desenvolver suas potencialidades e participar de forma ativa no processo educativo.

     

  • Palavras-chave
  • Aprendizagem, Neuropsicologia, Inclusão Escolar, TEA, TDAH.
  • Área Temática
  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
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  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
  • Eixo 2 – Educação e Justiça Social: Identidades, Gênero e Relações Étnico-Raciais
  • Eixo 3 – Políticas Públicas e Gestão Educacional na Perspectiva Inclusiva
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
  • Eixo 5 – Educação do Campo, Indígena e Quilombola: saberes, territórios e direitos

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