Introdução
Este trabalho é fruto de uma pesquisa realizada no âmbito da Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES, cujo propósito foi compreender, por meio da escuta e da reconstrução das trajetórias de vida, as experiências de professoras universitárias negras, inseridas em diferentes áreas do conhecimento. A partir do olhar interseccional que reconhece a sobreposição de desigualdades raciais, de gênero e de classe, buscamos lançar luz sobre os desafios vividos por essas mulheres no ambiente acadêmico, os caminhos que as levaram até a docência e as formas de resistência que constroem cotidianamente para permanecerem onde historicamente não se previa que estivessem.
Embora seja apresentada como espaço de conhecimento e emancipação, a universidade ainda guarda marcas de um passado elitista, racista e patriarcal. Nesse cenário, a presença da mulher negra vai além do exercício acadêmico: torna-se também um ato de resistência. Com base em um compromisso ético e político, este estudo evidencia como essas docentes confrontam estruturas excludentes e afirma que sua permanência no ensino superior é, por si só, uma ação política que amplia inclusão e representatividade.
Fundamentos Teóricos
A chamada questão social acompanha o conjunto das dimensões históricas, econômicas e sociais da formação brasileira em suas circunstâncias próprias. No entanto, como destaca Ianni (2004), é indispensável olhar com atenção para a questão racial — sobretudo a condição da população negra no país —, marcada pela exploração e pela discriminação. Para o autor, a questão racial constitui “um dilema fundamental da formação, conformação e transformação da sociedade brasileira” (Ianni, 2004, p.143), já que atravessa e influencia toda a nossa história.
O negro não está“ausente” apenas dos meios de comunicação em geral, o mesmo acontece nas novelas, nos filmes e nos comerciais de TV onde a sua presença não se da de forma equitativa e na dimensão correta. Quando pensamos no universo acadêmico, quantas mulheres professoras negras você já teve? E no âmbito jurídico, quantas advogadas e magistradas negras conhece? Refletir criticamente essa “ausência” faz-se necessário.
Percebe-se que o recorte racial relacionado à população negra no Brasil é constantemente silenciado. Pouco se fala sobre ele, e muitas vezes há até a tentativa de apagá-lo, como se simplesmente não existisse. Santos (2001) chama atenção para esse fenômeno ao afirmar que “a história narrada nas escolas é branca, a inteligência e a beleza mostradas pela mídia também o são. Os fatos são apresentados por todos na sociedade como se houvesse uma preponderância absoluta, uma supremacia definitiva dos brancos sobre os negros” (Santos, 2001, p.82).
Santos (2001), ao discutir a invisibilidade do negro na sociedade brasileira, utiliza a expressão “meia cidadania” para descrever a forma como estrangeiros enxergavam a condição dos negros no país. Essa noção de cidadania incompleta decorre da exclusão e da discriminação estrutural que marcam a realidade brasileira. A pertinência do conceito pode ser observada no depoimento de uma das entrevistadas.
Metodologia
A pesquisa seguiu uma abordagem qualitativa, tomando a história oral como caminho para reconstruir trajetórias de vida. Partiu-se da ideia de que ser mulher, negra e professora universitária é uma experiência que não cabe em números ou estatísticas, mas precisa ser narrada por quem a vive. Foram entrevistadas cinco docentes negras da UNIMONTES, de diferentes áreas do conhecimento, com base em um roteiro semiestruturado que abriu espaço para lembranças e reflexões sobre infância, família, formação acadêmica, carreira e os desafios da docência. Das falas, vieram à tona memórias de silenciamentos e preconceitos, mas também estratégias criadas para resistir e permanecer. Cada relato mostrou a força e a coragem dessas mulheres ao ocupar um espaço que, por muito tempo, tentou excluí-las.
Análise de dados
Ao ser questionada sobre os direitos da população negra no Brasil — tanto no acesso à cidadania quanto no respeito devido a sua condição —, a Professora Z relatou:
Certa vez, numa reunião de colegiado, eu estava ao lado de uma professora branca, muito respeitada, a professora, no passado já havia segurado meu punho na parte externa da Universidade, levantou, apontou para a professora branca e disse que a respeitava. Ela disse claramente que não me respeitava que respeitava somente a professora branca. Isso foi muito marcante! A relação com os brancos, é muito difícil, às vezes é como se eu estive acendendo uma vela a Deus outra ao diabo! Tudo tem de ser muito bem pensando, antes de falarmos, não podemos errar,temos de ser perfeitas, ao menor descuido, o erro é apontado publicamente, é como se só tivéssemos erros! (PROFESSORA Z).
O episódio de discriminação relatado pela professora evidencia a postura de muitos educadores universitários, que, apesar de ocuparem a função de formar futuros profissionais, reproduzem atitudes racistas dentro da instituição. Além de violar garantias constitucionais, a conduta da docente em questão revela ainda outro risco: o de influenciar seus alunos, perpetuando preconceitos e práticas excludentes no espaço acadêmico.
É importante frisar que o profissional não tem a obrigação de concordar ou aceitar todas as pessoas, nem todas as diferenças. O que se espera, no entanto, é o respeito — ao outro, às diversidades e à pluralidade existente na sociedade. Sobre esse ponto, vale destacar o seguinte relato da mesma entrevistada:
Sou Paulista e teve uma vez que colori os cabelos, como toda mulher faz....fiz umas luzes. A mesma professora racista, mesmo sabendo que eu era paulista me apelidou pejorativamente de: “SOFIA LOREN DO NORDESTE”, ela sabia que eu não era nordestina.Então onde quer que ela me via, particularmente ou publicamente, ela fazia questão de dizer “olha a SOFIA LOREN DO NORDESTE”. Ela manifestava além do preconceito racial o preconceito cultural. O corpo é meu, o cabelo é meu,pinto meu cabelo de azul, amarelo, cor de rosa, roxo, da cor que eu quiser! O tempo da escravidão acabou! Eu mando no meu corpo! Acho que ela tinha inveja de mim, porque tempos depois, ela também colou luzes no cabelo dela(Professora Z).
Os relatos evidenciam que o preconceito ainda está presente na sociedade atual. Como observa Ianni (2004), compreender a formação social brasileira exige reconhecer que a história não é linear nem estática. No caso da população negra e de sua luta por afirmação, nota-se que esse processo está em constante transformação, moldado por influências tanto internas quanto externas. São essas forças que sustentam e ampliam as formas de dominação social, aspecto central da questão sociorracial discutida neste estudo.
Para Ianni, a questão social acompanha a própria formação da sociedade brasileira, sendo resultado direto das desigualdades econômicas, políticas e culturais. Nesse cenário, os pontos centrais do debate são a questão de classe, as disparidades sociais e a dimensão racial. Como afirma o autor, “a questão social é de todos os lugares e de todos os tempos” (Ianni, 2004).
Conclusões
A pesquisa mostrou que muitas professoras negras não se reconhecem como revolucionárias, mas, na prática, suas ações mudam a realidade em que, por tanto tempo, foram silenciadas. A produção intelectual que constroem se torna um trampolim na busca pela igualdade racial. Ainda assim, o preconceito segue sendo interpretado pelo senso comum, o que dificulta identificar o racismo. Esse olhar limitado, às vezes, aparece até entre as próprias docentes, o que acaba contribuindo para a repetição de práticas discriminatórias.
Na sala de aula, essas mulheres carregam o peso da dupla discriminação: por serem mulheres e negras, são obrigadas a provar, o tempo todo, que têm competência para ocupar o espaço que conquistaram. Os relatos trazem exemplos de agressões tanto sutis quanto explícitas, quase sempre voltadas a questionar sua capacidade intelectual. Apesar das barreiras, houve conquistas importantes, como a Lei 10.639/03, que abriu caminho para o reconhecimento da cultura afro-brasileira no ensino. Em diálogo com Hooks (2005), fica evidente que a presença de professoras negras no ensino superior é, em si, um ato de resistência. Ao ocupar esse lugar, elas desafiam a lógica da dominação e ajudam a reconstruir valores, reafirmando a urgência de seguir lutando contra o mito da democracia racial.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
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