RELATO DE EXPERIÊNCIA: O ESTÁGIO NA EJA - TERRITÓRIO DE RESISTÊNCIA E CONHECIMENTO

  • Autor
  • Daiane Nogueira da Silva
  • Co-autores
  • Dulce Pereira dos Santos
  • Resumo
  • Introdução

    O presente relato de experiência tem como objetivo compartilhar as aprendizagens construídas durante o Estágio Curricular Supervisionado (ECS) do Curso de Pedagogia, da Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes, realizado em uma escola do município de Januária (MG), que proporcionou uma vivência rica e transformadora no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Este espaço educativo revelou-se como um território de reconstrução de trajetórias, reafirmação de identidades e promoção da inclusão social por meio do acesso ao conhecimento. O estágio, como componente essencial da formação acadêmica no curso de Pedagogia, configura-se como um espaço privilegiado de articulação entre teoria e prática, permitindo ao futuro profissional vivenciar experiências concretas que refletem os desafios e as possibilidades do exercício docente. A experiência de estágio na EJA permitiu não apenas a observação das dinâmicas escolares, mas também a imersão em um universo onde a educação se configura como instrumento de transformação de vidas, seja individual ou coletiva. O contato com as histórias de vida dos educandos evidenciou a força da escola como espaço de acolhimento, pertencimento e ressignificação. A necessidade desse projeto de estágio justifica-se pela relevância de ampliar a formação do pedagogo para além dos limites da educação infantil e do ensino fundamental regular, considerando que a atuação na Educação de Jovens e Adultos (EJA) exige competências específicas de escuta sensível, mediação dialógica e valorização das trajetórias de vida dos educandos, promovendo práticas pedagógicas inclusivas e contextualizadas.

    Fundamentos teóricos

    A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui uma modalidade de ensino prevista na legislação educacional brasileira, voltada à garantia do direito à escolarização de sujeitos que não tiveram acesso ou continuidade nos estudos durante a idade considerada regular. Por isso, configura-se como campo educacional que necessita de abordagens pedagógicas específicas, pautadas na valorização das experiências de vida dos educandos, na promoção da inclusão social e na construção de práticas educativas significativas. A LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996), explicita que a EJA deve atender às necessidades dos cidadãos em diferentes fases da vida, respeitando suas trajetórias e vivências. Nesse sentido, a prática pedagógica na EJA exige do educador uma postura sensível e comprometida com a realidade sociocultural dos estudantes. Como destaca Arroyo (2006), os sujeitos da EJA carregam histórias marcadas por exclusões, mas também por resistências e saberes que precisam ser reconhecidos como parte do processo educativo. Dessa forma, é indispensável uma atuação docente com competências que vão além do domínio técnico-científico, mas que tenha habilidades de mediação, escuta e acolhimento, em um ambiente de aprendizagem que respeite os tempos, os ritmos e as singularidades dos educandos.

    Apresentação da experiência

    O estágio supervisionado na modalidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA) proporcionou uma experiência formativa significativa ao permitir o contato direto com educandos cujas trajetórias escolares foram marcadas por interrupções e vulnerabilidades sociais. A atuação pedagógica nesse contexto revelou a importância de práticas educativas pautadas na escuta sensível, na valorização dos saberes prévios e na construção de vínculos de confiança, tornando evidente que o papel do pedagogo na EJA vai além da mera transmissão de conhecimento, pois exige competências de mediação, acolhimento e compromisso com a inclusão. A vivência destacou o caráter interdisciplinar da prática docente e a necessidade de promover ambientes de aprendizagem que respeitem os tempos e ritmos próprios de cada sujeito, estimulando a autonomia e a reconstrução de projetos de vida, reafirmando a EJA como espaço legítimo de formação cidadã e transformação social.

    Resultados e análises

    A análise dos resultados obtidos ao longo do estágio supervisionado na Educação de Jovens e Adultos (EJA) evidencia transformações significativas no envolvimento dos educandos com o processo educativo. Inicialmente, observou-se certa resistência à comunicação e à participação nas atividades propostas, reflexo das trajetórias marcadas por exclusão social, baixa autoestima e experiências escolares interrompidas. No entanto, à medida que foram estabelecidos vínculos de confiança e respeito mútuo, os educandos passaram a se engajar de forma mais ativa nas práticas pedagógicas, nos projetos desenvolvidos e nas dinâmicas coletivas. Esse envolvimento favoreceu a expressão de suas histórias de vida, permitindo que compartilhassem os caminhos que os conduziram até aquele espaço educativo. O reconhecimento de suas vivências como saberes legítimos contribuiu para o fortalecimento da identidade e do protagonismo dos sujeitos, gerando momentos de acolhimento, escuta e até descontração, nos quais o riso e a leveza se fizeram presentes. Ao final do período de estágio, muitos educandos manifestaram gratidão pela presença dos estagiários e pelas atividades realizadas, destacando que, por meio delas, puderam por instantes esquecer os problemas cotidianos e sentir-se valorizados. Esses resultados reafirmam o potencial transformador da EJA e a importância da atuação pedagógica comprometida com a escuta, o cuidado e a construção de práticas educativas humanizadoras.

    Conclusões

     

    A realização do estágio supervisionado na Educação de Jovens e Adultos (EJA) revelou-se uma experiência profundamente significativa, tanto do ponto de vista acadêmico quanto humano. Ao vivenciar a prática pedagógica junto a sujeitos historicamente excluídos dos processos formais de escolarização, foi possível compreender, na prática, a complexidade e a potência dessa modalidade de ensino. A escuta sensível, o respeito às trajetórias de vida e a construção de vínculos de confiança mostraram-se elementos fundamentais para o desenvolvimento de práticas educativas inclusivas e transformadoras. A evolução dos educandos, que inicialmente se mostravam retraídos e pouco participativos, e que, ao longo do processo, passaram a se envolver nas atividades, compartilhar suas histórias e expressar gratidão pela presença dos estagiários, evidencia o impacto positivo da atuação pedagógica comprometida com a ética, a sensibilidade e o cuidado. Mais do que transmitir conteúdos, o estágio na EJA reafirmou o papel do pedagogo como mediador de saberes, facilitador de diálogos e agente de reconstrução de projetos de vida. Conclui-se, portanto, que a EJA é um espaço legítimo de formação cidadã, onde a educação se concretiza como prática de liberdade, acolhimento e transformação social.

  • Palavras-chave
  • Educação de Jovens e Adultos, Prática Pedagógica, Inclusão Educacional.
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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  • Eixo 2 – Educação e Justiça Social: Identidades, Gênero e Relações Étnico-Raciais
  • Eixo 3 – Políticas Públicas e Gestão Educacional na Perspectiva Inclusiva
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
  • Eixo 5 – Educação do Campo, Indígena e Quilombola: saberes, territórios e direitos

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