EMPREENDEDORISMO E EDUCAÇÃO NO NORTE DE MINAS: TRAJETÓRIAS DE ESCOLARIZAÇÃO (1962–2012)

  • Autor
  • Denice do Socorro Lopes Brito
  • Co-autores
  • José Normando Gonçalves Meira
  • Resumo
  • Introdução

     

    A história da educação brasileira, em especial quando analisada em suas expressões regionais, revela desigualdades sociais, culturais e estruturais que interferiram de modo decisivo nas condições de acesso e permanência escolar. No Norte de Minas Gerais, historicamente à margem dos grandes projetos de desenvolvimento nacional, essas dificuldades se tornaram ainda mais acentuadas, afetando a atuação docente e os currículos escolares. Nesse cenário, emergem práticas pedagógicas e experiências formativas que podem ser compreendidas como expressões de empreendedorismo educacional, ressignificado aqui como atitude de resistência, criatividade e mobilização social no campo da educação.

    A presente pesquisa investiga as trajetórias de escolarização no período de 1962 a 2012, coincidente com o cinquentenário da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), destacando o papel da instituição como espaço formador de professores e como promotora da democratização do ensino superior. Articula-se, assim, o debate entre currículo, formação docente e empreendedorismo, evidenciando como práticas pedagógicas inovadoras e a qualificação docente contribuíram para superar limites históricos e ampliar as possibilidades de inclusão social e emancipação humana.

     

    Fundamentos Teóricos

     

    O estudo ancora-se nos referenciais da História da Educação, especialmente a partir da perspectiva da “história dos de baixo” (BURKE, 1992), que valoriza as experiências de sujeitos invisibilizados pelas narrativas oficiais. O empreendedorismo é compreendido como atitude pedagógica e existencial (DOLABELLA, 2003; FONSECA; FARIA; MARIA, 2017), aplicável aos processos formativos e às práticas docentes.

    A formação docente é analisada como dimensão central na consolidação de um currículo que responda aos desafios contemporâneos da diversidade e da inclusão. Nesse sentido, o estudo dialoga com o conceito de Educação Emancipatória (THOMPSON, 2002), entendendo que as práticas pedagógicas inovadoras e o fortalecimento de saberes profissionais contribuem para a construção de uma docência comprometida com os princípios de equidade e justiça social.

     

    Metodologia

     

    A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma abordagem qualitativa, de caráter historiográfico, inspirada nos referenciais da história oral, entendida como metodologia que valoriza a memória social e as experiências de sujeitos historicamente invisibilizados.

    A primeira etapa consistiu na revisão bibliográfica sobre escolarização, empreendedorismo educacional e história da educação, contemplando também contribuições teóricas sobre práticas pedagógicas e educação emancipatória. Em seguida, realizou-se a coleta de dados empíricos por meio de entrevistas semiestruturadas com indivíduos que vivenciaram percursos escolares singulares, especialmente aqueles que ingressaram no ensino superior em contextos de adversidade, respeitando os protocolos éticos aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa e com a utilização do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

    Na sequência, foram reunidas e analisadas fontes documentais, tais como registros escolares, arquivos pessoais e documentos institucionais, complementando as narrativas orais. As entrevistas foram transcritas, organizadas em categorias temáticas e interpretadas à luz do referencial teórico adotado, o que possibilitou compreender o empreendedorismo educacional como atitude pedagógica e social. Essa metodologia, aplicada ao recorte temporal de 1962 a 2012, permitiu analisar de modo crítico e interpretativo as trajetórias de escolarização no Norte de Minas Gerais, evidenciando as estratégias de superação diante das desigualdades históricas e sociais que marcam a região.

     

    Análise de dados

     

    Os dados revelam que as trajetórias escolares bem-sucedidas foram atravessadas pela presença de professores que, com práticas pedagógicas inovadoras, desempenharam papel de mediadores entre os sujeitos e o conhecimento. O currículo, frequentemente fragmentado e distante da realidade dos estudantes, foi ressignificado por meio de abordagens contextualizadas, marcadas pela criatividade docente e pela capacidade de adaptar conteúdos às realidades locais. Essa ressignificação, muitas vezes realizada de forma intuitiva pelos professores, possibilitou o fortalecimento da autoestima dos estudantes e a construção de vínculos mais sólidos entre escola e comunidade.

    A formação de professores, tanto inicial quanto continuada, aparece como elemento decisivo para consolidar práticas pedagógicas inclusivas e estratégias de mobilização social. As narrativas analisadas demonstram que a docência, quando aliada a princípios de autonomia intelectual, visão crítica e compromisso ético, potencializa processos de escolarização em contextos de exclusão. Em vários relatos, a presença de docentes engajados se destacou como fator determinante para que os estudantes persistissem diante das dificuldades, encontrando no espaço escolar não apenas transmissão de conteúdos, mas apoio emocional e incentivo à continuidade dos estudos.

    Verificou-se ainda que o empreendedorismo educacional se manifesta não apenas nos estudantes que superaram obstáculos, mas também na prática docente, configurando-se como um modo de agir curricular que articula saberes profissionais, desenho universal da aprendizagem (DUA) e diversidade sociocultural. Esse empreendedorismo pedagógico foi evidenciado na capacidade dos professores de reinventar práticas, utilizar recursos limitados de forma criativa e estabelecer redes de apoio entre colegas, famílias e instituições. Dessa forma, os dados analisados permitem compreender que a superação de barreiras educacionais não se deve apenas ao esforço individual, mas resulta da interação entre sujeitos, práticas inovadoras e políticas que, mesmo incipientes, abriram caminhos para trajetórias de escolarização emancipatórias.

     

    Conclusões

     

    A análise das trajetórias escolares investigadas evidencia que a educação, mesmo em contextos de precariedade, representa uma possibilidade concreta de transformação social. Os resultados apontam que o acesso e a permanência escolar foram viabilizados por uma combinação de fatores: o engajamento pessoal dos sujeitos, o apoio de redes familiares e comunitárias, a existência de políticas públicas, ainda que incipientes, e, sobretudo, a atuação de professores comprometidos com a democratização do ensino. Esses elementos se entrelaçam e revelam que a escolarização não pode ser compreendida apenas como conquista individual, mas como patrimônio coletivo que precisa ser reconhecido e valorizado.

    A pesquisa também confirma que o empreendedorismo educacional, entendido como atitude ativa e criativa diante das adversidades, manifestou-se tanto nos estudantes que superaram obstáculos quanto nas práticas pedagógicas de docentes que buscaram alternativas para tornar o ensino significativo e acessível. Nesse sentido, destaca-se a relevância da Unimontes como instituição formadora e como agente de transformação regional, ampliando as oportunidades de escolarização e contribuindo para a interiorização do ensino superior.

    Por fim, conclui-se que a valorização das histórias de vida, quando incorporada às práticas educativas e aos currículos, fortalece processos de pertencimento, identidade e esperança, oferecendo às novas gerações exemplos de resistência e superação. Assim, reafirma-se que a educação, ao articular conhecimento acadêmico, engajamento social e práticas inovadoras, é capaz de transformar trajetórias individuais e coletivas, configurando-se como espaço estratégico para a construção de uma sociedade mais justa, plural e inclusiva.

     

    Referências

     

    BURKE, Peter (Org.). A Escrita da História: novas perspectivas. 2. ed. São Paulo: UESC, 1992.

     

    DOLABELLA, Fernando. Pedagogia Empreendedora. São Paulo: Cultura, 2003.

     

    FONSECA, Josélia; FARIA, Sandra Dias; MARIA, Tiago. Empreendedorismo, educação e cidadania: um estudo de caso nos Açores. CEE’2017: Atas da Conferência Educação para o Empreendedorismo, 2017. Disponível em: https://proa.ua.pt/index.php/cee/article/view/2260/1780

    . Acesso em: 15 mai. 2025.

     

    LOPES, Rose Mary. Educação Empreendedora: Conceitos, modelos e práticas. Rio de Janeiro: Elsevier; São Paulo: SEBRAE, 2010.

     

    MARCOVICH, Jacques. Pioneiros e Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2010.

     

    THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

     

  • Palavras-chave
  • Currículo, Empreendedorismo Educacional, Formação Docente, Práticas pedagógicas, Políticas Públicas.
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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