O presente artigo busca analisar criticamente a violência e o extermínio de adolescentes e jovens no Brasil, evidenciando como o racismo estrutural e as discriminações de gênero produzem e reproduzem um padrão de morte seletiva que tem a juventude negra, periférica e dissidente de normas de gênero e sexualidade como principal alvo. A partir de uma perspectiva teórica crítica e interseccional, discute-se o entrelaçamento entre capitalismo dependente, necropolítica e desigualdades estruturais que marcam a realidade brasileira. Por fim, defende-se a centralidade da luta antirracista, feminista e anticapitalista na construção de alternativas emancipatórias. Elegeu-se a pesquisa documental e bibliográfica para subsidiar as análises que as subscrevem, cujo método de análise, privilegia e é subsidiada pelas categorias do materialismo histórico-dialético.
Por início cabe-nos afirmar que a violência letal contra adolescentes e jovens no Brasil revela um padrão histórico e estrutural de desigualdades que transforma determinadas vidas em descartáveis. Longe de ser mero resultado de falhas na segurança pública, trata-se de uma engrenagem forjada pelo racismo estrutural, pelo patriarcado e pela lógica capitalista dependente que rege a sociabilidade brasileira. O país figura entre os que mais matam jovens no mundo, com um recorte racial, de classe e de gênero que explicita a seletividade da morte. De acordo com o Atlas da Violência (IPEA, 2023), em 2021 a taxa de homicídios entre jovens negros foi quase três vezes superior à dos jovens brancos, reafirmando que a cor da pele e a condição social continuam a definir a probabilidade de viver ou morrer.
Esse fenômeno não pode ser reduzido a estatísticas. Ele expressa um projeto social que organiza as formas de vida e de morte de acordo com hierarquias de raça, classe e gênero. Mbembe (2018) conceitua essa lógica como necropolítica, apontando que o poder soberano decide quem pode viver e quem deve morrer, criando zonas de extermínio em que a juventude negra e periférica é colocada sob a condição de “matável”:
A política da morte é, ao mesmo tempo, a gestão da vida dos outros. Trata-se de um poder que, longe de simplesmente decidir sobre a morte, organiza a vida em torno da exposição permanente à violência e ao risco de eliminação (MBEMBE, 2018, p. 23).
Na realidade brasileira, a necropolítica se atualiza em chacinas policiais, na naturalização do encarceramento em massa e na criminalização da juventude pobre, especialmente quando negra. Como destaca Moura (1994), a abolição da escravidão não significou a inserção plena da população negra na sociedade, mas a reconfiguração das formas de dominação:
O fim da escravidão formal não significou a inclusão social do negro. Pelo contrário, inaugurou-se uma nova etapa da marginalização e da exclusão, que se perpetua sob diversas formas de violência estrutural” (MOURA, 1994, p. 57).
É nesse contexto que as discriminações de gênero e sexualidade se entrelaçam às determinações raciais e de classe, agravando as condições de vulnerabilidade. Meninas negras estão entre as principais vítimas de exploração sexual e violência doméstica; jovens gays, lésbicas, bissexuais e, sobretudo, pessoas trans e travestis enfrentam um cenário de marginalização extrema, em que a expectativa de vida pode ser inferior a 35 anos (ANTRA, 2024).
Cabe ressaltar ainda que a violência letal que atinge adolescentes e jovens no Brasil está marcada pela seletividade racial, de classe e de gênero. Os corpos jovens negros e periféricos não são alvos ocasionais, mas objetos centrais de uma engrenagem de controle social que se forja historicamente.
Existe assim, uma marginalização histórica que conecta-se à lógica da dependência econômica e da superexploração, que, segundo Marini (2000), caracteriza as sociedades latino-americanas. O capitalismo dependente necessita da intensificação da exploração de determinados segmentos sociais e, simultaneamente, de mecanismos de repressão e eliminação para conter os excedentes populacionais que não são plenamente absorvidos pelo mercado de trabalho:
A superexploração da força de trabalho não é apenas uma necessidade econômica, mas também um mecanismo de controle político e social, que naturaliza a precarização e legitima a violência sobre os trabalhadores (MARINI, 2000, p. 146).
No caso brasileiro, esse mecanismo assume uma feição racializada. A juventude negra é construída como “classe perigosa” e permanentemente suspeita. Essa construção simbólica legitima o genocídio, naturalizando mortes em operações policiais e culpabilizando as próprias vítimas por suas condições de vida. Moura (1988) aponta que o racismo é funcional à manutenção da ordem capitalista, pois garante uma divisão social que intensifica a exploração e permite justificar a eliminação dos “indesejados”:
O racismo, ao mesmo tempo em que inferioriza e desumaniza o negro, cumpre a função de legitimar a violência contra ele. Trata-se de um mecanismo de dominação que naturaliza a exclusão e justifica a opressão” (MOURA, 1988, p. 92).
Ao se adicionar a dimensão gênero, as vulnerabilidades se multiplicam. Meninas negras são as maiores vítimas de violência sexual e exploração do trabalho doméstico, herança da divisão racial e patriarcal do trabalho. Jovens LGBTQIAPN+, sobretudo trans e travestis, vivenciam uma dupla marginalização: sofrem com a LGBTQIAPN+fobia e com a violência racial e de classe, muitas vezes concentradas na exclusão escolar e na exclusividade da prostituição como meio de sobrevivência (ANTRA, 2024). Collins (2019) oferece a categoria de matriz de dominação para compreender como as opressões não operam isoladamente, mas se interconectam na produção da morte seletiva:
As opressões interagem de forma simultânea e reforçam-se mutuamente, de modo que a experiência de ser jovem, negra e mulher ou de ser jovem, negro e trans não pode ser compreendida a partir de apenas uma dessas categorias isoladamente” (COLLINS, 2019, p. 112).
Essa articulação evidencia que a violência não é apenas resultado de desigualdades sociais abstratas, mas de um sistema estruturado para preservar privilégios e eliminar aqueles considerados excedentes ou desviantes. Como Yazbek (2009) ressalta, a questão social no Brasil não pode ser dissociada da violência repressiva que recai sobre as classes subalternas:
A questão social, além de se expressar pela desigualdade e pela negação de direitos, manifesta-se pela repressão sistemática, pela criminalização e pela violência cotidiana que se abate sobre os pobres” (YAZBEK, 2009, p. 74).
Portanto, o genocídio da juventude negra, pobre e dissidente não é acidente, mas expressão da lógica de reprodução capitalista e do patriarcado racializado que sustenta a ordem social brasileira.
A juventude negra, em especial os homens jovens das periferias, é transformada em alvo preferencial de políticas de segurança pública que se sustentam no ideário da guerra às drogas. Tais políticas não têm como objetivo central reduzir a criminalidade, mas sim controlar populações consideradas “perigosas”, como observa Vera Malaguti (2011):
O discurso da guerra às drogas legitima a militarização dos territórios pobres, criminaliza os jovens negros e pobres e constrói o inimigo interno, que deve ser combatido e eliminado” (BATISTA, 2011, p. 56).
Essa construção do jovem negro como “inimigo” articula-se com a lógica de classe e com a herança escravocrata. Como Moura (1994) já alertava, a sociedade brasileira mantém mecanismos de criminalização das classes subalternas como forma de perpetuar o controle social:
A criminalização da pobreza é uma forma de disciplinar as classes subalternas, reforçando a ideia de que os negros e pobres são naturalmente inclinados ao crime, legitimando assim sua repressão e exclusão (MOURA, 1994, p. 83).
O encarceramento em massa é uma das expressões mais evidentes dessa necropolítica. O Brasil possui hoje a terceira maior população carcerária do mundo, majoritariamente composta por jovens negros e pobres.
Essa engrenagem repressiva não é neutra. Ao mesmo tempo em que mata seletivamente jovens negros nas ruas e nas prisões, também direciona violências específicas contra jovens mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. As travestis e mulheres trans, por exemplo, são alvos constantes da violência policial e da exclusão institucional. O dossiê da ANTRA (2024) aponta que mais de 80% das pessoas trans assassinadas no Brasil têm menos de 35 anos, revelando que a necropolítica se entrelaça com o patriarcado e a LGBTfobia para definir quem deve morrer.
O fuzil apontado contra adolescentes e jovens não é um desvio institucional, mas parte constitutiva de um modelo de sociabilidade que escolhe quais vidas são vivíveis e quais podem ser eliminadas em nome da ordem.
Conclusões
O extermínio de adolescentes e jovens no Brasil revela um padrão estruturado de violência que articula racismo, patriarcado e capitalismo dependente, tornando certos corpos socialmente descartáveis. Essa realidade confirma que a violência letal não é resultado de falhas isoladas, mas expressão de um projeto histórico de necropolítica, no qual o Estado decide quem pode viver e quem deve morrer (MBEMBE, 2018).
A luta antirracista, feminista, anticapitalista e contra a LGBTQIAPN+fobia não é apenas necessária, mas central para a construção de uma sociedade na qual a vida da juventude negra, periférica e dissidente possa ser efetivamente valorizada. Assim, o genocídio da juventude não pode ser naturalizado. Somente será possível romper com o fuzil que ainda mira os corpos jovens negros dissidentes das periferias brasileiras se começarmos a pensar outra ordem societária fora do capitalismo.
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