COMPREENSÃO NEUROBIOLÓGICA DAS NEURODIVERGÊNCIAS: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UM CURSO DE EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA/UNEB

  • Autor
  • Roberto Harrysson Braga Tolentino
  • Co-autores
  • Elmara Verneque Durães Tolentino
  • Resumo
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    Introdução

    A capacitação docente é um pilar para a construção de uma escola inclusiva, especialmente no que tange à identificação precoce e criteriosa de sinais de neurodivergência. A ausência de formação específica pode levar a encaminhamentos inadequados e diagnósticos equivocados, gerando impactos negativos duradouros no desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Dislexia. Este trabalho relata a experiência do curso de extensão “Introdução à Neurofisiologia da Educação: Compreendendo as Bases do Aprendizado e das Neurodivergências”, realizado em 2025 na Universidade do Estado da Bahia (UNEB – Campus XII). A iniciativa, vinculada ao projeto de pesquisa "Compreender para Agir" e ao Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais, Avaliação e Gestão (GEPEAG/UNEB), teve como objetivo central oferecer subsídios científicos para qualificar o olhar de professores e futuros pedagogos, alinhando a prática pedagógica às evidências neurocientíficas para uma atuação mais assertiva e humana.

    Fundamentos Teóricos

    A proposta foi construída a partir da demanda, cada vez mais crescente por parte de professores, acerca de compreensão das peculiaridades que envolvem os neurodivergentes. E no intuito de buscar sanar algumas dessas necessidades é que se pensou em um curso de capacitação em Neurofisiologia da Educação, campo que investiga os mecanismos cerebrais subjacentes à aprendizagem e ao comportamento. A literatura aponta que as dificuldades de aprendizagem possuem marcadores neurobiológicos que, se conhecidos pelos educadores, podem qualificar suas intervenções em sala de aula, amparando cientificamente suas ações e fundamentando a forma como interpretam tais eventos (Silva e Melo, 2018). Estudos sobre as bases neuroquímicas do TDAH (Tolentino; Tolentino, 2024) e da ansiedade matemática (Moura-Silva, Neto, Gonçalves, 2020) reforçam como alterações em funções executivas, atenção e regulação emocional impactam diretamente o desempenho escolar. Contudo, a necessidade de abordagens inovadoras para a compreensão de indivíduos neurodivergentes é crescente; como apontaram Tolentino e Tolentino (2024) demonstrando, em uma de suas pesquisas, como as tecnologias digitais podem servir como ferramentas de "escuta" para observação de padrões de comportamento em pessoas com TEA Nível 1. E foi nessa lógica de uma observação contextualizada, fundamentada cientificamente e assomada, como dito anteriormente, às demandas da inclusão de pessoas neurodivergentes é que inspirou a necessidade de se ministrar um curso de extensão focado em capacitar o professor sobre os processos neurobiológicos da educação, permitindo um conhecimento científico bem fundamentado e uma escuta mais atenta.

    Apresentação da experiência

    O curso foi ofertado a 40 participantes, entre acadêmicos de Pedagogia, mestrandos em Educação e professores da Educação Básica, com carga horária de 40 horas em formato híbrido. A metodologia articulou aulas expositivas, estudos de caso, leitura crítica e fichamento de artigos científicos, culminando na produção orientada de um artigo sobre Neuroeducação. O conteúdo programático foi dividido em quatro módulos: (1) Fundamentos da Neurofisiologia da Educação, onde se discutiu o funcionamento do SNC e a neuroplasticidade; (2) Processos Cognitivos e Aprendizagem, com foco em atenção, memória e funções executivas; (3) Neurodivergências e Inclusão Escolar, abordando as características de TDAH, Dislexia e TEA; e (4) Leitura, Fichamento e Escrita Científica, visando a autonomia intelectual e produção acadêmica dos cursistas. A experiência promoveu debates intensos sobre a responsabilidade do professor na identificação de sinais e na realização de encaminhamentos mais assertivos a fim de evitar diagnósticos precipitados e/ou equivocados, um dos problemas centrais investigados pelo projeto de pesquisa que ancora esta iniciativa.

    Análise parcial dos resultados

    Embora a análise completa dos dados (questionários, produções textuais e discussões gravadas) ainda esteja em andamento, os resultados preliminares são promissores. O grupo participou de várias discussões no decorrer do curso; e os relatórios parciais indicam que o curso ampliou significativamente a compreensão dos participantes sobre a aplicabilidade dos achados neurocientíficos no contexto escolar. Houve relatos de maior segurança para diferenciar dificuldades de aprendizagem de possíveis sinais de neurodivergência. A exemplo, há o breve depoimento de um dos professores participantes que ponderou que “antes do curso eu tinha dificuldade de entender quando é que era atraso e quando que era uma neurodivergência”. Outro professor pontuou que “o curso me deu mais clareza para observar e refletir antes de encaminhar” Essa percepção inicial sugere que a formação contribuiu para um olhar mais criterioso e menos rotulador, alinhado ao objetivo de reduzir encaminhamentos inadequados e fortalecer o diálogo entre escola, família e profissionais de saúde, como defendido por Silva e Melo (2018).

     

    Conclusões parciais

    A experiência do curso de extensão demonstrou ser uma estratégia potente e eficaz para articular os conhecimentos da neurociência com a prática pedagógica cotidiana. Os resultados parciais corroboram a hipótese de que a formação docente baseada em evidências fortalece a capacidade dos educadores de promover uma educação verdadeiramente inclusiva, não apenas pela aplicação de técnicas, mas pela compreensão profunda dos processos que modulam o aprender. A iniciativa reforça a tese de que a personalização do ensino, aliada ao entendimento das bases neurobiológicas, é essencial para o desenvolvimento integral dos alunos (Silva; Melo, 2018; Tolentino; Tolentino, 2024). Portanto, ações de formação como esta constituem um caminho promissor para qualificar a educação básica e ampliar o diálogo entre a ciência e a sala de aula e quiçá, abrir caminhos para futuros diálogos sobre políticas públicas e adequação de grades curriculares para formação de educadores focados nas bases neurobiológicas da educação.

    Apoio técnico ou financeiro (se houver)

    Não houve

    Referências

    MOURA-SILVA, Marcos Guilherme; NETO, João Bento Torres; GONÇALVES, Tadeu Oliver. Bases neurais da ansiedade matemática: implicações para o processo de ensino-aprendizagem. Bolema: Boletim de Educação Matemática, Rio Claro, v. 34, n. 66, p. 246-267, abr. 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bolema/a/jrVBryXPH6TWH5X6tt94HZq/. Acesso em: set. 2025.

    SILVA, Luciane Grecilo da; MELLO, Elena Maria Billig. Fundamentos de neurociência presentes na inclusão escolar: vivências docentes. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 31, n. 62, p. 759-776, jul./set. 2018. DOI: 10.5902/1984686X28388760. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=313158892018759. Acesso em: set. 2025

    TOLENTINO, Roberto Harrysson Braga; TOLENTINO, Elmara Verneque Durães. Da química à técnica: evidências científicas para a escolha do tratamento de TDAH mais adequado. In: Vigilância do desenvolvimento infantil típico e neurodiverso: conceituação e processos inclusivos – Volume 2. Cap. 7, p. 117-137. Publicado em 29 fev. 2024. DOI: 10.37885/231215367.

    TOLENTINO, Roberto Harrysson Braga; TOLENTINO, Elmara Verneque Durães. Contribuições inovadoras do WhatsApp para auxiliar no diagnóstico de autismo sem deficiência intelectual (TEA1): um relato de experiência. In: Psicologia: teorias e práticas em pesquisa ? volume 2. Cap. 5, p. 82-94. Publicado em 28 jun. 2024. DOI: 10.37885/240316067.

     

  • Palavras-chave
  • Neurodivergências; Formação Docente; Neurofisiologia da Educação; Práticas Inclusivas.
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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