RELATO DE EXPERIÊNCIA LÍNGUA PORTUGUESA PARA SURDOS: UMA CONSTRUÇÃO COTIDIANA

  • Autor
  • Rosana Fróes Santos
  • Co-autores
  • Rosilene Aparecida Froes Santos
  • Resumo
  •  

    Introdução

    O contexto educacional se vê permeado por diversas especificidades que compõem a Educação Inclusiva, dentre essas especificidades destacamos o ensino de Língua Portuguesa - LP para Surdos. Ante o exposto esta comunicação tem como tema “O uso do português como segunda língua para surdos”, tendo em vista que conforme a legislação vigente a Língua Brasileira de Sinais – Libras é considerada a primeira língua do surdo e o Português a segunda língua. Assim, o presente trabalho tem como objetivo refletir sobre o português para pessoas surdas, bem como a sua utilização, tendo como pano de fundo as relações comunicacionais cotidianas. Tal reflexão torna-se relevante e necessária por evidenciar as particularidades que permeiam o Surdo e a LP.

    Fundamentos Teóricos

    Para iniciar as reflexões partimos das perspectivas sobre a surdez, a perspectiva clínico-terapêutica, que deu margem para o desenvolvimento de filosofias educacionais pautadas na oralização, configura-se como um marco na história dos surdos, uma vez que,

    [...] se sabe que a tradição médico-terapêutico influenciou a definição da surdez a partir do déficit auditivo e da classificação da Surdez (leve, profunda, congênita, Pré-linguística, etc.), mas deixou a incluir a experiência da surdez e de considerar os contextos psicossociais e culturais nos quais a pessoa Surda se desenvolve. Sá (2002, p. 48).

    Tal perspectiva viu-se enfraquecida ao não levar em conta as particularidades culturais do coletivo surdo. Assim, a partir do momento em que a Comunidade Surda passou a se autorrepresentar por meio da língua de sinais, houve o reconhecimento e a potencialização da Cultura Surda. Dessa forma, a “[...] visão Sociológica ou Socioantropológica, como muitos preferem denominar, tratam a pessoa surda em sua completude, como sujeito de sua história e de sua representação, não como ‘deficiente’” (Sá, 2002 apud Vieira; Freire, 2022, p. 8).

    Contudo, a concepção clínico-terapêutica embasou a filosofia educacional denominada ‘oralismo’, nessa ideologia “Os surdos passaram a ser vistos unicamente como deficientes, e não como um povo com cultura própria. Com ênfase na oralização e em seus déficts” (Capovilla, 2000, p. 102). Tal ideologia pressupõe a comunicação por meio da leitura labial, que corresponde a competência de compreender a fala, da língua oral, por meio da articulação dos lábios do emissor. O processo de leitura labial está intimamente vinculado ao domínio da língua oral, para uma melhor compreensão desse processo torna-se relevante elucidar a surdez pré-linguística e a surdez pós-linguística.

    De acordo com estudos, a surdez pré-linguística ocorre “[...] quando o indivíduo já nasce com a surdez ou quando ele adquire a surdez antes de aprender a falar. Desta forma o surdo não tem nenhuma lembrança de sons, porém podem ouvir alguns ruídos e são capazes de sentir alguma espécie de vibração” (Magalhães; Melo, 2023, p. 7). Já a surdez pós- linguística ocorre quando o “[...] indivíduo já teve contato com a língua oral. Quando a surdez ocorre nessa fase o surdo já tem condições de desenvolver a oralidade. A partir desse fato fica comprovado que a surdez não possui ligação com a mudez (Magalhães; Melo, 2023, p. 7).

    Tais reflexões levam-nos a um território complexo, que diz respeito ao uso da LP na modalidade oral pelos Surdos. A articulação das palavras tem por base o conhecimento dos léxicos da LP, a memória auditiva e outros elementos, que serão fortemente marcados pelo período da perda auditiva. Destarte, a leitura labial tem como premissa a língua oral, prescindindo, portanto, do nível linguístico, que está diretamente ligado ao período em que o sujeito perdeu a audição e seu contato com a língua oral.

    Torna-se crucial elucidar que, conforme a Lei 10.436/2002, a Libras é a primeira língua dos Surdos e a LP é a segunda, portanto sua obrigatoriedade é prevista no Parágrafo único, que afirma: “A Língua Brasileira de Sinais - Libras não poderá substituir a modalidade escrita da língua portuguesa” (Brasil, 2002). O exposto corrobora a utilização da LP pelo Sujeito Surdo na modalidade escrita, e não na modalidade oral, modalidade essa que se configura como premissa para a leitura labial.

    Apresentação da experiência

    O seguinte relato de experiência foi postado por mim, Rosana Fróes Santos, nas redes sociais. Sou mulher, mãe, professora e militante surda, perdi a audição aos 13 anos em decorrência de constantes processos inflamatórios de ouvido, nariz e garganta, o que pode ter sido potencializado por questões genéticas. Hoje utilizo a Libras, que é minha primeira língua, por meio da qual posso me comunicar com total segurança.

    No cotidiano, me deparo sempre com situações que me cobram o uso da LP, muitas vezes na modalidade oral, consigo me comunicar bem por meio dessa língua, pois quando perdi a audição eu tinha a LP oral efetivada. O meu conhecimento do português e a minha memória auditiva me auxiliam a pronunciar palavras em contextos onde não há Libras, contudo, algumas situações geram barreiras. O relato a seguir evidencia o meu sentimento frente a tudo isso.

    Sim, hoje aprendi a pronunciar a palavra PIBID com a ajuda da minha irmã @rosy.froes que disse que o som é o mesmo quando se fala CABIDE, só espero que minha memória auditiva colabore para que eu não esqueça assim como ela esquece frequentemente como se pronuncia Facebook (rsrs) piada?? Não, essa é a realidade de uma pessoa surda oralizada que muitas vezes prefere apenas sinalizar para não correr o risco de ser ridicularizada por pessoas leigas no assunto. Nós surdos aprendemos palavras novas todos os dias principalmente quando entramos num assunto/contexto novo. Em outro ângulo/momento, quando estava ensinando em sala de aula sobre Par Mínimo na Língua de Sinais usei os exemplos: DOCE e MERETRIZ/Prostituta (palavra essa que eu conheço via leitura Bíblica e contato social da minha época de ouvinte), visto que o ponto de localização ser o único diferencial entre os dois, enquanto eu falava Meretriz a Intérprete @leidiane acrescentou pra mim que também poderia usar a palavra JOB que tinha o mesmo significado de Meretriz, resumindo: aprendi o termo JOB recentemente!!! Hilário?! Para alguns sim, para outros significa que faz parte do processo de aprendizagem da língua a qual você não tem acesso via canal auditivo mas apenas por leitura visual.

    Obs.: ainda não aprendi a pronunciar AIR FRYER mas por enquanto vou usando o termo "fritadeira elétrica" e tá tudo certo!!!

    Ass.: Um relato pessoal meu! (Santos, 2025)

    Análise parcial dos resultados

    As reflexões construídas possibilitaram perceber que a comunicação das pessoas surdas foi marcada por diversas perspectivas, dentre as quais podemos destacar perspectiva clínico-terapêutica e socioantropológica, a primeira permeada pela ideia de reabilitação e a segunda pautada nas especificidades culturais do povo surdo. A perspectiva clínico-terapêutica deu base para o desenvolvimento do oralismo, que tem como prática a leitura labial e a fala oral. Contudo, é preciso destacar que essas práticas oralistas sofrem influencia do período em que ocorreu a perda auditiva, sendo que na surdez pré-linguística o sujeito não teve acesso à língua oral, portanto não terá memória auditiva, já na surdez pós-linguística o sujeito adquiriu a língua oral, portanto a memória auditiva auxilia não só na leitura labial, como também na pronúncia de palavras. Aproximando essa discussão ao relato de experiência apresentado, é possível identificar alguns pontos relevantes, como a pronúncia de palavras que não fazem parte do mundo do Surdo pode ocorrer com dificuldade, no entanto para diminuir essas dificuldades, uma das estratégias seria remeter a pronúncia a léxicos já conhecidos pelo surdo, como foi o caso do termo PIBID, que tem uma pronúncia próxima a CABIDE, o que prescinde a memória auditiva, presente nos surdos pré-linguais. Outra questão relevante diz respeito aos neologismos, no relato o termo JOB, que para ser compreendido foi vinculado a termos afins que faziam parte da memória auditiva da autora do relato.

    Conclusões

    Ao aproximar as reflexões apresentadas, acerca da relação entre o sujeito surdo e a LP, ao relato de experiência sobre o uso da língua oral pelo surdo, somos impulsionados a pensar sobre as perspectivas que permeiam a comunicação dessas pessoas, em especial o uso da LP no cotidiano. Por meio das reflexões propostas é possível depreender que o uso da LP pelo surdo, na modalidade oral, tem forte relação com o período da perda auditiva, assim a surdez pós-linguística propiciará a memória auditiva, que é um dos elementos que contribuem para a leitura labial, bem como para a pronúncia e compreensão de termos emergentes da LP. Nesse contexto, o relato de experiência evidencia as especificidades linguísticas do surdo em relação à LP, bem como demonstra a necessidade de levar essas questões cotidianas para o território do ensino de LP como segunda língua para surdos. 

     

  • Palavras-chave
  • PL2 para Surdos; Surdo Pós-Lingual; Neologismos; Pronúncia.
  • Área Temática
  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
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  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
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