MITOS E VERDADES SOBRE AS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO NO BRASIL: UMA ANÁLISE CRÍTICA À LUZ DA LITERATURA ESPECIALIZADA

  • Autor
  • Maria do Socorro de Souza Melo
  • Co-autores
  • Dr. Luis Alexandre Lemos Costa
  • Resumo
  • MITOS E VERDADES SOBRE AS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO NO BRASIL: UMA ANÁLISE CRÍTICA À LUZ DA LITERATURA ESPECIALIZADA

     

    Eixo 1 – Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas

    Palavras-chave: Altas Habilidades, Superdotação, Mitos, Inclusão Escolar; Educação Especial.

     

    Resumo Expandido

     

    1 Introdução

    As Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) representam um campo da educação especial que ainda carece de ampla compreensão no Brasil. Embora a legislação assegure atendimento especializado, desde 1960, como aponta o Parecer CNE/CP 51/2023, estudantes com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) configuram um grupo cuja realidade ainda permanece marcada pela invisibilidade e pela insuficiência de respostas adequadas às suas demandas, como aponta o senso escolar (graf.1), (Inep, MEC, 2022), quando retrata o panorama de matrículas de alunos de AH/SD quando comparado às matrículas de estudantes com deficiências ou TEA.

     

    Gráfico 1- Matrículas de estudantes com TEA e com deficiências em comparação aos alunos com AH/SD

     

    Fonte: Inep, MEC (2022)

    A relevância social e educacional do tema é evidente: estima-se que aproximadamente 5% da população estudantil brasileira possua AH/SD, mas apenas uma fração é formalmente reconhecida pelas redes de ensino (MEC, 2008), 

    A identificação e o desenvolvimento dos estudantes com AH/SD continuam comprometidos por diversos aspectos, dentre estes crenças equivocadas, preconceitos e desconhecimento.

     

    2 Fundamentos Teóricos

     

    O Ministério da Educação define o estudante com AH/SD como aquele que demonstra potencial elevado em áreas: intelectuais, acadêmicas, artísticas, de liderança ou psicomotricidade, aliado à elevada criatividade e envolvimento com a aprendizagem (BRASIL, 2008).

    O aporte teórico ancora-se em estudiosos como: Howard Gardner (1995), com a Teoria das Inteligências Múltiplas, rompeu com a visão de inteligência unidimensional, apontando múltiplos domínios — linguístico, lógico-matemático, musical, espacial, corporal-cinestésico, interpessoal e intrapessoal. Para Gardner (1995, p. 39)  “As escolas devem ser locais onde todos os tipos de talentos possam ser reconhecidos e estimulados. Uma inteligência não é mais valiosa do que outra, embora a sociedade muitas vezes atribua mais prestígio a algumas delas”.

     Joseph Renzulli (2005), no Modelo dos Três Anéis, propôs que a superdotação resulta da interação entre habilidades acima da média, criatividade e comprometimento com a tarefa, destacando a importância de contextos que favoreçam o desenvolvimento das habilidades e caraterísticas deste público. Este modelo é amplamente utilizado no cenário educacional brasileiro, sendo base para o desenvolvimento de políticas públicas para estudantes com características de Altas Habilidades/Superdotação MEC (Resolução n. 4, 2009).

    No Brasil, Alencar (2001) destaca que pessoas com altas habilidades/superdotação formam um grupo muitas vezes mal compreendido e pouco valorizado, o que evidencia a carência de programas específicos para atender às suas demandas.

    A Dra. Angela Virgolim (2008) e a Dra. Cristina Delou (2011) têm contribuído para a adaptação desses referenciais, abordando os desafios de identificação e atendimento no contexto nacional. Muitos tratam os superdotados, como grupos de pessoas privilegiadas [...] e que não precisam de mais nada para se desenvolverem, como se já viessem prontos. (Virgolim, 2018).

     Delou (2011), que também fala de preconceitos e mitos sobre superdotados, alerta que  muitos destes pensamentos desvirtuados levam a criança, com Altas Habilidades/Superdotação, a mascarar ou negar suas habilidades, em busca de aceitação. 

    A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), em seus artigos 58 e 59, garante o atendimento educacional especializado para alunos com AH/SD. Outros documentos reforçam essa política, como a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e o Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece metas para a inclusão desses estudantes. Essa lacuna entre a legislação e a realidade escolar reforça a urgência de tornar visíveis as necessidades específicas desse público.

    3 Metodologia 

    A metodologia adotada é uma revisão bibliográfica, contemplando publicações de autores reconhecidos na área e diretrizes do Ministério da Educação, que dialoga com autores de referência, como Gardner (1995), Renzulli (2005), além de contribuições brasileiras de Virgolim (2018), Perez (2008), Delou (2011), Alencar (2001) e outros.

    4 Análise de dados

    O estudo aponta que apesar do embasamento teórico e legal, mitos são persistentes, o que dificulta e até impede  práticas pedagógicas adequadas. O quadro abaixo esclarece mitos e verdades  sobre as altas habilidades/superdotação, com base em Winner (1998).

     

    Mitos versus Realidade, com base na obra de Winner (1998)

    MITO

    REALIDADE

    Mito 1 – Superdotação Global

    É incomum que crianças apresentem superdotação de maneira homogênea em todos os domínios acadêmicos.

    Mito 2 – Talentosos, mas não superdotados

    As mesmas concepções generalistas são equivocadamente aplicadas a todos os indivíduos com AH/SD, independentemente de suas áreas de destaque, sejam acadêmicas ou artísticas.

    Mito 3 – QI Excepcional

    É possível que crianças demonstrem talentos extraordinários nas artes ou na música sem necessariamente apresentarem um quociente intelectual elevado.

    Mito 4 e 5 – Biologia versus Ambiente

    A superdotação resulta da combinação entre uma predisposição inata e uma dedicação intensa à área de interesse, sendo potencializada com pouca orientação externa.

    Mito 6 – O pai dominador

    Os pais não criam talentos, mas atuam como incentivadores no processo de desenvolvimento das potencialidades.

    Mito 7 – Esbanjando saúde psicológica

    Estudantes superdotados tendem a ser intensos, introspectivos e solitários, e só se ajustam socialmente quando encontram pares com interesses intelectuais semelhantes.

    Mito 8 – Todas as crianças são superdotadas?

    Embora todas as crianças apresentem variações em suas habilidades, algumas se destacam por possuírem competências extraordinárias em áreas específicas. Altos níveis de superdotação demandam intervenções educacionais específicas e diferenciadas.

    Mito 9 – Crianças superdotadas se tornam adultos eminentes

    A eminência na vida adulta não está assegurada pela superdotação infantil; o desenvolvimento pleno depende da interação entre sujeito e contexto sociocultural.

    Adaptado de Winner,1998

     

    Conclusões

    A análise evidencia que os mitos sobre AH/SD persistem mesmo diante de avanços científicos e normativos. O desconhecimento sobre a diversidade de manifestações da superdotação perpetua práticas excludentes, prejudicando a trajetória educacional de muitos estudantes talentosos.

    Por fim, recomenda-se que redes de ensino ampliem ações de identificação, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, e que pesquisadores desenvolvam estudos que revelem a pluralidade de talentos existentes na população brasileira.

    Referências

     

    ALENCAR, Eunice Maria Lima Soriano. Criatividade e educação de superdotados. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

    BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 1996.

    BRASIL, Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.

    BRASIL. Ministério da Educação. Parecer CNE/CP nº 51/2023, aprovado em 5 de dezembro de 2023 — Orientações Específicas para o Público da Educação Especial: atendimento dos estudantes com altas habilidades/superdotação. Diário Oficial da União, Seção 1, p. 14, 22 jan. 2024. Disponível em: https://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=254491- pcp051-23&category_slug=dezembro-2023-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 23 maio. 2025.

    DELOU, Cristina Maria Carvalho. Os preconceitos levam muitas crianças a mascarar ou negar suas habilidades, em busca de aceitação. Revista Ensino Superior, São Paulo, 10 set. 2011. Disponível em: https://revistaensinosuperior.com.br/2011/09/10/mentes-inquietas/. Acesso em: 12 ago. 2025.

    GARDNER, Howard. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995.

    PÉREZ. Susana G. P. Barreira. Ser ou não ser, eis a questão: o processo de construção da identidade na pessoa com altas habilidades/superdotação adulta.

    RENZULLI, J. S. The three-ring conception of giftedness: A developmental model for promoting creative productivity. In: STERNBERG, R. J.; DAVIDSON, J. E. (org.). Conceptions of Giftedness. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2005. p. 246–279.

    VIRGOLIM, Angela. Altas habilidades/superdotação: um diálogo pedagógico urgente. Editora Intersaberes, 2018.

    WINNER, E. Crianças superdotadas: mitos e realidades. Tradução Sandra Costa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

     

  • Palavras-chave
  • Altas Habilidades, Superdotação, Mitos, Inclusão Escolar, Educação Especial
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