CONSCIÊNCIA FONOLÓGICA E ENSINO EXPLÍCITO DA RELAÇÃO FONEMA GRAFEMA NA ALFABETIZAÇÃO

  • Autor
  • Luciana Gonçalves de Araújo Gomes
  • Resumo
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    RESUMO: O trabalho trata-se de um relato de experiência de uma prática vivenciada em uma escola da rede pública da cidade de Ponte Nova/MG. Especialmente, uma vivência (exitosa) em uma escola com um dos piores índices IDEB no 5º ano da rede municipal e com baixa taxa de alfabetização dos alunos até o 2º ano do Ensino Fundamental I, localizada em um bairro com alta vulnerabilidade socioeconômica e baixos índices de escolaridade entre os moradores. Cujo objetivo consiste em evidenciar os impactos do trabalho docente na alfabetização através do desenvolvimento da consciência fonológica e do ensino explícito da relação fonema-grafema através da instrução fônica.

    Palavras-chave: Alfabetização. Consciência fonológica. Instrução fônica.

     

    Introdução

    Sabemos que o domínio da leitura é condição basilar para que o estudante se aproprie do conhecimento mediado por textos. Portanto, é imprescindível que aprenda a ler para aprender por meio da leitura. Para Capovilla (2000) e Morais (1995), crianças provenientes de lares com menor nível de escolarização tendem a apresentar maiores dificuldades na aprendizagem pelo método global de alfabetização, em comparação àquelas de contextos mais escolarizados. Tal desvantagem decorre, em geral, da escassez de práticas letradas no ambiente doméstico e da ausência de mediações que atenuem lacunas escolares, como o acesso sistemático a instruções básicas sobre as correspondências grafema-fonema. Capovilla (2000) e Puliezi (2013) atribuem o fracasso na alfabetização das últimas décadas ao método global que usa a concepção construtivista.

    Assim surgiu a problemática da pesquisa: como ensinar todos os alunos do 1º ano do Ensino Fundamental I público alvo da Educação Especial e os que se encontram em alta vulnerabilidade socioeconômica a ler e a escrever para que possam apropriar de conhecimento através da leitura? O trabalho teve como objetivo principal alfabetizar todos os alunos até o final do ano letivo de 2025.

    O trabalho parte da constatação de que o método global de alfabetização, difundido nas últimas décadas no país, não tem se mostrado suficiente para garantir que todos os alunos, em especial aqueles provenientes de contextos de maior vulnerabilidade social, atinjam níveis satisfatórios de letramento. Diante disso, emergiu a necessidade de adotar práticas baseadas em evidências científicas sobre os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem da leitura, como defendem Dehaene (2012), Scliar (2022) e Puliezi (2013).

     

    Fundamentos Teóricos

    Para fundamentação à luz dos teóricos da área. De acordo com Dehaene (2013), em seu livro “Os neurônios da leitura” diz que “a psicologia cognitiva refuta, assim, bem diretamente, toda a ideia de ensinar a leitura por um método global ou ideovisual”.  (Dehaene, 2013, p.237).  Enquanto a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) diz que no 1º e 2º ano do Ensino fundamental “o processo de alfabetização deve ser o foco da ação pedagógica”. (Brasil, 2017, p.63).

    Vale destacar que a consciência fonológica é definida como a habilidade metalinguística que permite ao sujeito identificar, segmentar, manipular e refletir sobre os sons da fala, em diferentes níveis de complexidade, que vão desde a percepção de rimas e aliterações até a segmentação de fonemas (Capovilla, 2000; Adams et al., 2006). Pesquisas evidenciam que crianças que desenvolvem essa habilidade antes ou durante o processo de alfabetização tendem a apresentar desempenho mais eficiente na leitura e na escrita (Puliezi, 2013). Paralelamente ao desenvolvimento da consciência fonológica, o professor deve promover o ensino explícito da relação fonema-grafema, em consonância com a BNCC, que segundo Puliezi (2013), não desenvolve de forma espontânea.

    Segundo Dehaene (2012, p.246), o professor deve trabalhar a relação fonema e grafema de forma bem explícita e de forma sistemática fazendo repetições até o aluno dominar partindo sempre dos grafemas mais fáceis para os mais difíceis, pois “é preciso explicar claramente ao aluno que cada “som” tem suas “roupas”, as letras ou grupos de letras que podem vesti-los e que, inversamente, cada letra se pronuncia de uma ou de várias maneiras possíveis”.

    Portanto, o referencial adotado sustenta que a alfabetização eficiente exige um trabalho voltado para o desenvolvimento da consciência fonológica e do ensino explícito da relação grafema-fonema. (Puliezi, 2013).

     

    A Experiência Vivenciada

    A intervenção foi implementada em uma turma de 25 estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental I. A avaliação diagnóstica realizada em fevereiro de 2025 evidenciou que cinco estudantes se encontravam no nível silábico e os demais vinte no nível pré-silábico de escrita. Diante desse cenário, elaborou-se um plano de ensino com a meta de conduzir toda a turma ao nível alfabético de escrita e, no mínimo, ao estágio de leitor iniciante até o final de maio de 2025, por meio de intervenções diárias de, no mínimo, 1h30min.

    O desenho da intervenção articulou dois eixos: (1) uma rotina diária de consciência fonológica, organizada em progressão de complexidade, envolvendo jogos de escuta e atenção auditiva; percepção de rimas e aliterações com cantigas e parlendas; segmentação de palavras em frases; consciência silábica; atividades no nível intrassilábico; e operações fonêmicas (identificar, isolar, adicionar, suprimir e substituir fonemas); e (2) o ensino explícito e cumulativo das relações fonema–grafema através da instrução fônica, iniciando por grafemas mais frequentes e regulares e avançando para padrões contextuais, dígrafos e casos irregulares, com prática distribuída, feedback imediato e retomadas orientadas pelo erro.

    Concluída a intervenção, ao final do mês de junho de 2025, os estudantes foram submetidos a nova avaliação para verificação dos níveis de leitura e escrita. Constatou-se que, dos 25 estudantes, 23 atingiram o nível alfabético de escrita e o estágio de leitor iniciante lendo palavras, frases e pequenos textos, enquanto os demais dois alcançaram o nível silábico-alfabético e demonstraram capacidade de ler palavras. Esses resultados corroboram a afirmação de Puliezi de que “para aprender a ler, a criança precisa entender as relações entre letras e sons” (Puliezi, 2013, p. 10).

    Deste modo, a experiência relatada é considerada exitosa e demonstra que a articulação entre teoria e prática, aliada ao planejamento intencional do professor, pode contribuir para superar o fracasso escolar em alfabetização e democratizar o acesso ao conhecimento.

     

    Conclusões

    A experiência demonstra que a consciência fonológica, aliada ao ensino explícito da relação fonema-grafema através da instrução fônica, constitui uma estratégia eficaz para enfrentar o fracasso escolar em alfabetização. Ao contrário do que sugere a concepção de que “a criança aprende a ler lendo”, os dados analisados reforçam que o processo exige ensino intencional e sistemático, capaz de respeitar as etapas de desenvolvimento cognitivo da criança.

    Os resultados obtidos confirmam o que os estudos teóricos apontam sobre a centralidade da consciência fonológica e da instrução fônica para o sucesso da alfabetização. Além disso, revelam que não se trata apenas de uma escolha metodológica, mas de uma condição para promover inclusão e equidade social, permitindo que alunos com deficiência e oriundos de famílias com baixo capital econômico e cultural alcancem os mesmos patamares de desempenho que seus pares de contextos mais favorecidos. É importante destacar que essa experiência atingiu de forma positiva alunos com deficiência da Educação Especial que estavam matriculados nessa sala.

    O relato apresentado reafirma a necessidade de investir na formação continuada dos professores, para que possam articular teoria e prática no planejamento de suas aulas, e também de repensar políticas públicas que ainda privilegiam modelos pouco eficazes. Alfabetizar é um compromisso social, e a consciência fonológica e o ensino explícito da relação fonema-grafema através da instrução fônica se mostram como chave para a democratização do acesso à leitura e à escrita, habilidades indispensáveis para a inserção cidadã e crítica na sociedade contemporânea.

     

    Referências

    ADAMS, M. J. et al. Consciência fonológica em crianças pequenas. Porto Alegre: ArtMed, 2006.

    BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-educacao/base-nacional-comum-curricular-bncc. Acesso em: 27 set. 2025.

    CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Alfabetização: método fônico. 2. ed. São Paulo: Memnon, 2003.

    CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível socioeconômico. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 13, n. 1, p. 7–25, 2000.

    DEHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.

    MORAIS, J. A arte de ler. São Paulo, SP: Editora Unesp, 1995.

    PULIEZI, S. Ensinando com letras e sons: contribuições da psicologia cognitiva da leitura à educação. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2013.

    SCLIAR-CABRA, Leonor. Sistema Scliar de alfabetização Fundamentos, SC: LILI Editora, 2022.

     

  • Palavras-chave
  • Alfabetização. Consciência fonológica. Instrução fônica
  • Área Temática
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