TRABALHO PEDAGÓGICO COM PESSOA COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
Maione Vieira Teixeira Souza
Universidade de Montes Claros - UNIMONTES
Patrícia Lima de Souza França
Universidade de Montes Claros - UNIMONTES
professorapatricialimafranca@gmail.com
Dra. Bernarda Elane Madureira Lopes
Universidade de Montes Claros - UNIMONTES
Eixo 1 – Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
Palavras-chave: Autismo; Inclusão escolar; Afetividade; Adaptações pedagógicas.
Introdução
Este relato tem como objetivo compartilhar uma experiência pedagógica vivida com uma estudante com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte, matriculada no 9º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública municipal da Bahia. Embora já a conhecesse de forma indireta, por meio de relatos de colegas na sala dos professores, foi neste ano letivo que tive contato direto com ela, como professora de Língua Portuguesa.
A aluna apresenta comorbidades associadas ao seu diagnóstico, como intolerância à lactose e ao glúten, o que lhe impõe uma dieta bastante restrita. Seu porte físico é frágil, e as dificuldades alimentares agravam ainda mais sua vulnerabilidade. Soma-se a isso um alto nível de ansiedade, sendo sensível a ruídos e tumultos, que lhe causam mal-estar intenso.
A experiência está fundamentada nas contribuições de Henri Wallon (2007), que defende a interdependência entre emoção e cognição no processo de aprendizagem, destacando o papel central do afeto nas relações pedagógicas. Também se apoia nos estudos de Lev Vygotsky (1991), que afirma que “é na relação com o outro que o sujeito se constitui”, valorizando o vínculo afetivo como base para o desenvolvimento humano.
Além disso, a prática relatada dialoga com os princípios da educação inclusiva defendidos por Almeida (2012), que enfatiza a importância do trabalho colaborativo entre docentes como estratégia para promover a aprendizagem de todos os estudantes, respeitando a diversidade. O Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) também norteou a construção de práticas pedagógicas acessíveis.
A aluna, diagnosticada aos 8 anos com TEA nível 1, também apresenta TDAH, TAG e intolerâncias alimentares. Iniciou sua vida escolar aos 4 anos em um ambiente confuso e barulhento, o que lhe gerava insegurança diante da superlotação e dos estímulos sensoriais intensos. Apesar dessas dificuldades, construiu vínculo afetivo com “Tia Cris”, professora que lhe ofereceu acolhimento emocional, gesto alinhado às ideias de Wallon (2007) e Vygotsky (1998), ao reconhecer o papel do afeto na aprendizagem e no desenvolvimento humano.
Nos anos seguintes, buscou segurança mantendo proximidade com apenas uma colega. Recusava o uso de abafadores para não se sentir diferente, enfrentava dificuldades em Língua Portuguesa e nas aulas de Educação Física e foi alvo de bullying por suas singularidades. A escola, diante dessas barreiras, passou a adotar adaptações pedagógicas, como flexibilização de avaliações e metodologias diversificadas, além da presença de uma professora assistente. Embora inicialmente tenha rejeitado essa figura por se sentir exposta, com o tempo aceitou o apoio, especialmente após iniciar acompanhamento psicológico, o que favoreceu sua relação com professores e colegas.
Gradualmente, a aluna apresentou avanços significativos no comportamento e no envolvimento social. Estabeleceu vínculos de confiança, passou a verbalizar sentimentos, pedir ajuda e participar ativamente das atividades escolares. Essa mudança foi impulsionada pela escuta atenta dos docentes, pela mediação da professora do AEE e pela construção de um ambiente mais receptivo e respeitoso na turma.
Os progressos foram resultado de ações coletivas que envolveram a reorganização do espaço físico, adaptações nas práticas pedagógicas, uso de estratégias comunicativas mais acessíveis, modulação da voz e valorização da escuta sensível. O esforço colaborativo entre professores e colegas possibilitou que a estudante se sentisse mais segura, permanecesse em sala e participasse efetivamente das atividades propostas. Essa experiência revela que a inclusão escolar vai além da simples matrícula ou de recursos materiais: ela depende, sobretudo, de práticas permeadas pela afetividade, do envolvimento da comunidade escolar e da construção de vínculos de confiança.
A experiência reflete como a afetividade e o vínculo interpessoal podem favorecer a permanência escolar (Wallon, 2007; Vygotsky, 1998). A resistência à adaptação na fase inicial e a rejeição de recursos como abafadores evidenciam a tensão entre o desejo de pertencimento e a necessidade de suporte, tema explorado por La Taille (2006). As adaptações pedagógicas adotadas dialogam com os saberes docentes flexíveis discutidos por Tardif (2014).
A presença colaborativa da professora do AEE em sala mostrou-se extremamente positiva. O ensino colaborativo e o uso do DUA permitiram o desenvolvimento de estratégias pedagógicas inclusivas desde o planejamento, beneficiando toda a turma. Essa prática promoveu maior engajamento, pertencimento e aprendizagem, reforçando que a inclusão vai além de adaptações materiais e depende do comprometimento humano. A aproximação entre teoria e prática permitiu que a aluna ressignificasse sua experiência escolar, aproximando-se de um reconhecimento efetivo de seus direitos.
Este relato mostrou que estratégias inclusivas só são eficazes quando combinadas com escuta, afeto e protagonismo do sujeito. Mesmo em contextos sensíveis, o estabelecimento de vínculos afetivos e o ajuste participativo das adaptações favoreceram o engajamento e a autoestima da aluna. Para outras escolas, recomenda-se: formação docente sobre TEA, espaços de diálogo com estudantes para co-construção de adaptações e monitoramento contínuo do impacto dessas medidas. A sala de aula transforma-se em um ambiente de pertencimento, favorecendo o desenvolvimento integral.
O sucesso da inclusão, portanto, não está apenas em recursos, mas na postura ética e afetuosa do educador. Essa vivência reafirma que práticas pedagógicas inclusivas e humanizadas só são possíveis quando se reconhece o outro em sua totalidade.
Não houve apoio técnico ou financeiro para a realização desta experiência
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica