Introdução
Este trabalho objetiva apresentar a pesquisa Literatura em libras: estudo da tradução literária em o alienista, de Machado de Assis, que se encontra em desenvolvimento no âmbito do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Letras/Estudos Literários. Em sua essência dialógica, a literatura proporciona ao leitor uma rica experiência de diversidade cultural e conhecimento, construindo uma rede de vivências entre os leitores. Ela é um acontecimento que pode colaborar com o reconhecimento identitário. É também uma jornada imaginativa, gerando significados que permeiam as vozes dos discursos literários. Nessa perspectiva, emerge a importância de discutir as traduções literárias para o sujeito surdo, considerando suas peculiaridades, como a comunicação por meio da língua de sinais, que destaca a perspectiva gestual-visual da leitura do mundo. Nesse contexto, esta pesquisa tem como objeto de análise qualitativa a obra O Alienista, que foi traduzido no ano de 2004 por Alexandre Melendez e Roberta Almeida, em Língua Brasileira de Sinais (Libras) para surdos e em português para ouvintes, respectivamente, a partir da obra original de Machado de Assis. A justificativa desse estudo se dá, porque o povo surdo deve ter garantido o direito de expressar, ler e compartilhar suas experiências por meio da literatura em Libras, assegurando o acesso inclusivo à informação e à cultura. Desse modo, os textos literários traduzidos para a língua natural dos leitores surdos podem aproximá-los do mundo leitor, onde a visualidade seja considerada. O questionamento delineado é o seguinte: a tradução literária consegue cumprir os requisitos de especificidade linguística e cultural dos surdos para aproximar a literatura desse público leitor? O objetivo geral da pesquisa é avaliar se as traduções literárias atendem às necessidades culturais e visuais dos surdos, possibilitando-lhes apreciar a literatura de forma acessível e autêntica. Os objetivos específicos são: i)
analisar conceitos teóricos e metodológicos de tradução em língua gestual; ii) descrever e refletir sobre a tradução do livro O Alienista, de Machado de Assis; iii) analisar traduções de contos específicos em Língua Gestual Portuguesa e Libras, considerando as teorizações sobre tradução para línguas gestuais. Esta pesquisa levanta a hipótese de que, por meio da análise do processo de tradução do livro O Alienista da Língua Portuguesa para Libras, seja possível realizar reflexões críticas acerca do contexto de produção literária em que os textos são traduzidos, bem como sobre as metodologias e objetivos empregados na tradução. Dessa forma, este estudo investigativo defende que seja possível compreender melhor a especificidade gestual-visual, na qual as mãos falam e lutam por melhores condições de vida.
Fundamentos Teóricos
Segundo Morgado (2011), as manifestações artístico-literárias dos surdos estiveram presentes em espaços como associações, escolas e eventos da comunidade surda, embora não fossem registradas devido à falta de reconhecimento de seu valor cultural. Esses espaços foram fundamentais para o desenvolvimento de gêneros literários em língua de sinais e desempenharam um papel importante na comunidade surda. A pesquisadora Sutton-Spence (2021) dialoga com Morgado (2011) ao compreender que a literatura surda pode ser somente escrita e não necessariamente estar apresentada em língua de sinais, desde que tenha como tema central o surdo e as questões desse universo. Já a literatura gestual, prioriza as narrativas contadas em língua de sinais, abordando ou não temáticas relativas ao sujeito surdo. Nesse caso, o importante é disponibilizar a literatura para o leitor surdo. Nessa última configuração encontra-se a obra selecionada para análise nesta pesquisa: O alienista, de Machado de Assis. De acordo com Carvalho (2019, p. 38), “o sujeito surdo é ao mesmo tempo integrante da formação cultural e social que compartilha uma língua nacional ou equivalente, mas, por outro lado, demanda o uso de traduções/versões para absorver plenamente os conteúdos éticos/estéticos presentes no meio social e cultural onde vive”. Nesse viés, o autor pontua que o sujeito surdo compartilha uma língua nacional ou equivalente com os ouvintes. No entanto, devido à sua condição de surdez, ele também tem necessidades e experiências únicas que o distinguem dos ouvintes. Sendo assim, a tradução literária é imprescindível para o leitor surdo. Em O alienista, o personagem principal, Dr. Bacamarte, era um médico (re)conhecido nacional e internacionalmente. Assis (2017) apresenta a personagem da seguinte forma: “Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua” (p. 7), “par de olhos agudos como punhais” (p. 29), olhos de “eterno metal, duro, liso” (p. 17), com “a fronte quieta como a água de Botafogo” (p. 17), “olhar inquieto e policial” (p. 19), “homem de ciência, e só de ciência” (p. 19), “frio como um diagnóstico” (p. 33), era “o mais alto espírito de Itaguaí, e seguramente do reino” (p. 57), “grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão” (p. 62), “corpo majestoso [...] ilustre alienista” (p. 76), entre outros adjetivos. Com essa caracterização, Bacamarte detinha o poder e poderia decidir sobre a vida das pessoas. No decorrer da obra, fica explícita a cultura do favor entre o Dr. Bacamarte e seus aliados políticos, a fim de manter o poder sobre a população de Itaquaí.
Metodologia
A metodologia adotada é a pesquisa bibliográfica analítica, de cunho qualitativo. As análises na tradução da obra O Alienista será realizada com sustentação nos teóricos que já discutiram a temática da tradução e suas particularidades no campo da literatura surda. Dessa maneira, esta investigação considera aspectos relevantes para a compreensão da tradução, incluindo a avaliação da fidelidade semântica e a adequação cultural, com foco na utilização de recursos visuais e espaciais próprios da Libras.
Análise de dados
A pesquisa encontra-se em andamento no Programa de Pós-Graduação em Letras / Estudos Literários, da Universidade Estadual de Montes Claros. No entanto, já promoveu resultados satisfatórios no contexto da pesquisa bibliográfica, que tem sanado dúvidas quanto aos requisitos exigidos para uma tradução alcançar o público-leitor posto em evidência nesta investigação. Os dados já produzidos sugerem que, embora seja importante, a tradução literária é ínfima, portanto exige um olhar mais sensível das universidades para maiores divulgações dessa temática.
Conclusões
A pesquisa tem demonstrado que a tradução literária é uma área fundamental para oportunizar aos sujeitos surdos um bem cultural valioso: a literatura. Espera-se, portanto, que este estudo possa favorecer no entendimento sobre a importância da tradução literária para oportunizar aos surdos o direito de ler em sua língua, que é predominantemente visual.
Apoio técnico ou financeiro (se houver)
Não há apoio técnico ou financeiro.
Referências
ASSIS, Machado de. O Alienista. Trad. de Alexandre Melendez e Roberta Almeida. Petrópolis: Editora Arara Azul, 2004.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Petrópolis: Vozes, 2017.
CARVALHO, Luiz Claudio da Costa. Lendas da identidade: o conceito de literatura surda em perspectiva. Curitiba: Appris, 2019.
MORGADO, Marta. Literatura das línguas gestuais. Lisboa: Universidade Católica Editora, 2011.
SUTTON-SPENCE, Rachel. Como vemos esse espaço literário? In: SUTTON-SPENCE, Rachel. Literatura em libras: parte 1 – alguns elementos fundamentais de literatura em libras. Tradução de Gustavo Gusmão. Petrópolis: Editora Arara Azul, 2021.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
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Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
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