OS HIATOS NA INTERNET 4.0: CONCEITUAÇÃO EM INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS (IAS) MEDIADORAS DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM

  • Autor
  • Evilázia Ferreira Martins
  • Co-autores
  • Edson Batista Lopes , Mariana Cardoso Marques , Emanuelly Cardoso Souza , Deborah Gomes Barbosa , Isabela Ribeiro Santos , Jeferson Alan Nunes da Silva Oliveira
  • Resumo
  • Introdução

    No primeiro quarto de século XXI, a internet consolidou-se como o principal mecanismo de busca de informações, principalmente por meio de sites de busca como o Google e, posteriormente, por meio de redes sociais. Em constante transformação, a ascensão e democratização da Inteligência Artificial (IA), a partir do lançamento do ChatGPT pela Open IA, em 2022, impulsionou uma corrida, com o surgimento de outras IAs generativas tais como o Google Gemini, o Microsoft Copilot, e a Luzia, em versões gratuitas e pagas, revolucionando a forma de produzir e receber informações na Internet. Informações, antes, geradas por humanos e, como produto escrito, estáticas, agora, são mediadas e geradas instantaneamente por máquinas, de forma dinâmica e mutável, a partir de textos gerados por prompts. Considerando isso, compreender como o conceito linguístico de hiatos se dão nesse ambiente, aliando isso à possibilidade de conceber (e como conceber) a Inteligência Artificial como mediadora da apropriação e mobilização de saberes pelos estudantes e professores, em suas práticas pedagógicas, é o objeto desta pesquisa.

    Fundamentos Teóricos

    Na Linguística, hiatos são sequências sonoras formadas por duas vogais [V.V] em sílabas diferentes (Câmara Júnior, 2002; Cristófaro Silva, 2011; Crystal, 2008; Houaiss, 2009), como em ‘saúde’ s[a.?u]de, ‘aéreo’ [a.??]reo, ‘saída’ s[a.?i]da. Essas sequências geralmente são consideradas nas línguas, inclusive no Português Brasileiro (PB), como passíveis de serem desfeitas por fenômenos, tais como: ditongação (‘diabo’ d[i.?a]bo ~ d[???a]bo; ‘farmácia’ farmác[i.a] ~ farmaç[??a], degeminação (‘caatinga’ c[a.a]tinga ~ c[a]tinga) e elisão/monotongação (‘farmácia’ farmác[i.a] ~ farmaç[a]) (Lee, 2005) e, por isso, estudos sobre a manutenção de hiatos ainda são escassos no PB, como argumentam Eberle (2023) e Brabila e Monaretto (2024). De acordo com o estudo de Martins, Lopes, Souza e Marques (2025), o conceito de hiato em sites educativos utilizados por estudantes do ensino fundamental e médio para pesquisas (Toda Matéria, Brasil Escola etc.) vai ao encontro do conceito proposto pela linguística. Visto isso, o primeiro objetivo específico deste trabalho é comparar os conceitos construídos pelas IAs para os hiatos no PB com o conceito da linguística. Se as IAs constroem sua informação com base na internet, os conceitos criados estão corretos ou apresentariam problemas? O segundo objetivo específico é trazer, à baila, o pensar sobre o uso de IA, o seu impacto nas práticas pedagógicas e a necessidade urgente de uma formação docente capaz de possibilitar o seu uso ético no ensino – já que a IA é uma realidade (Andrade; Nicolas, 2025; Lima, 2024; Salvi, 2025; Santos; Silva, 2024; Zibetti; Souza, 2007).

    Metodologia

    Para isso, esta pesquisa, de cunho qualitativo, fundamenta-se na análise descritiva e comparativa dos conceitos trazidos pelas IAs à luz das pesquisas linguísticas supracitadas, que descrevem e explicam a manutenção e o desfazimento de hiatos no PB, e das pesquisas que relacionam o uso de IAs na prática pedagógica e na formação docente – também mencionadas anteriormente, na fundamentação teórica. Foram investigadas 4 Inteligências Artificiais generativas: ChatGPT, Google Gemini, Microsoft Copilot, e Luzia, escolhidas por graduandos do curso de letras. Os dados (conceitos) foram coletados em julho de 2025, nas versões gratuitas das IAs, a partir do prompt criado pelos acadêmicos “O que é hiato? Dê-me exemplos”.

    Análise de dados

    Para a conceituação dos hiatos, as IAs, ChatGPT, Google Gemini, Microsoft Copilot, e Luzia, produziram, para o prompt, os seguintes textos, descritos no Quadro 1, a seguir.

     

    Quadro 1: Conceituação de hiatos por Ias

    1

    ChatGPT

    Hiato é um fenômeno da fonologia (estudo dos sons da língua) e também da gramática, que ocorre quando duas vogais aparecem juntas em uma palavra, mas pertencem a sílabas diferentes. Ou seja, cada vogal fica em uma sílaba separada, o que faz com que a pronúncia das duas seja bem destacada.

    2

    Google Gemini

    Em língua portuguesa, o hiato é um encontro vocálico que ocorre quando duas vogais estão lado a lado em uma palavra, mas pertencem a sílabas diferentes na hora da separação silábica. É importante diferenciá-lo do ditongo (vogal e semivogal na mesma sílaba) e do tritongo (semivogal, vogal e semivogal na mesma sílaba). No hiato, cada vogal é pronunciada separadamente, em um esforço de voz distinto. Para identificar um hiato: Observe se há duas vogais juntas na palavra. Faça a separação silábica. Se as vogais ficarem em sílabas diferentes, trata-se de um hiato.

    3

    Microsoft Copilot

    Um hiato é um fenômeno da língua portuguesa que acontece quando duas vogais aparecem lado a lado em palavras, mas pertencem a sílabas diferentes. Isso é diferente de um ditongo, onde as vogais ficam juntas na mesma sílaba.

    4

    Luzia

    Hiato é um termo usado na língua portuguesa para descrever quando duas vogais estão juntas em uma palavra, mas pertencem a sílabas diferentes. Ou seja, elas não formam um ditongo, que é quando as vogais ficam na mesma sílaba.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Fonte: próprio autor (2025, grifo nosso).

     

    De acordo com linguística, o hiato é uma sequência de duas vogais em sílabas diferentes. No PB, essa sequência pode ocorrer tanto dentro da palavra (‘aerado’) quanto entre palavras, no sintagma (‘café amargo’, caf[??a]margo). Das quatro IAs investigadas, três, ChatGPT, Google Gemini e Luzia, afirmam ser o hiato uma sequência de vogais em sílabas diferentes (somente) no interior da palavra. Uma, Microsoft Copilot, apresenta uma conceituação que afirma ser o hiato “duas vogais [que] aparecem lado a lado em palavras”, o que pode dar a entender que o hiato ocorre apenas entre palavras (Copilot, 2025, grifo nosso) e não no interior delas. Pode-se concluir, a partir disso, que o conceito de hiato produzidos pelas IAs são limitados e distorcidos, apresentando problemas com relação à teoria linguística. Além disso, o conceito criado pelo ChatGPT (2025) apresenta vários problemas. Essa IA afirma que o “Hiato é um fenômeno da fonologia (estudo dos sons da língua) e também da gramática” (grifo nosso). Em primeiro lugar, os hiatos são sequências vocálicas com propriedades também fonéticas, não apenas fonológicas. Em segundo, é a fonética que estuda os sons das línguas, e não a fonologia. O ChatGPT (2025) também descreve o hiato sendo um fenômeno gramático, mas não menciona o contexto entre palavras, o que é incoerente. Por outro lado, o Google Gemini é a IA que mais detalha o conceito de hiato. Por fim, tanto o Google Gemini, quanto o Microsoft Copilot e a Luzia diferenciam hiatos de ditongos – apenas um dos processos possíveis de desfazimento do hiato no PB. Esses resultados mostram a necessidade de investir na formação continuada de professores em todos os níveis (Santos; Silva, 2024), para que eles continuem sendo os ‘produtores de saber’ (Zibetti; Souza, 2007), só que, agora mediados para, além máquina, pelos sistemas generativos das Inteligências Artificiais que, com certeza, em algum momento, serão utilizados pelos alunos, dentro ou fora da sala de aula. O professor tem papel crucial neste processo, capaz de promover o uso ético, “crítico e consciente dessas tecnologias” (Lima, 2024). De acordo com Salvi (2025),

     

    os principais desafios quanto ao uso da IA são “a falta de infraestrutura adequada, o desconhecimento técnico dos educadores, as resistências culturais e emocionais além de questões éticas relacionadas à integridade, viesses algorítmicos e integridade acadêmica. [...] os professores se sentem inseguros para utilizar ferramentas de IA e sofrem com a ausência de programas formativos estruturados, tanto na graduação quanto na carreira ativa.

     

    Também mencionamos a necessidade do contínuo diálogo entre o material científico existente, como no caso da Linguística, e o diálogo com o conhecimento na sala de aula, que deve ser adaptado, mas não distorcido.

     

    Conclusões

     

    Os resultados da análise qualitativa comparativo-descritiva mostram que as IAs podem apresentar problemas ao formular uma conceituação teórica. Para que seja um instrumento mediador das práticas pedagógicas, é fundamental que seu uso seja crítico por parte do estudante, que deve estar preparado para reconhecer os desafios e as possibilidades que a aliança ser humano e máquina produzem, para que a apropriação do conhecimento aconteça de maneira alinhada com realidade e escola. Para além disso, é fundamental que o educador seja e esteja preparado para compreender os desafios e as possibilidades desse novo recurso metacognitivo, principalmente a partir de políticas públicas consistentes (Andrade; Nicolas, 2025; Lima, 2024; Monari, 2025; Santos; Silva, 2024; Zibetti; Souza, 2007). A partir do estudo, conclui-se a necessidade do avanço das pesquisas sobre o hiato e a importância de articular ciência, tecnologia, uso e ensino de língua materna – construindo o material didático dentro e fora da escola. 

  • Palavras-chave
  • fonética, fonologia, hiatos, internet, prática docente
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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