Introdução
O curso de Ciências da Religião, ainda em processo de consolidação no Brasil, ocupa um lugar estratégico na formação de profissionais capazes de dialogar com a pluralidade cultural e religiosa presente na sociedade contemporânea. A interculturalidade, entendida como perspectiva ética, política e pedagógica, constitui elemento essencial para a formação de professores comprometidos com a valorização da diversidade, o respeito mútuo e a convivência democrática nos espaços escolares (CANDAU, 2016; FLEURI, 2003).
Entretanto, ainda se observa a permanência de concepções reducionistas que restringem o debate à mera tolerância religiosa, desconsiderando as dimensões históricas, sociais e culturais que atravessam as práticas educativas. Nesse cenário, torna-se urgente a adoção de metodologias que promovam o diálogo entre saberes e estimulem a construção coletiva do conhecimento.
O presente trabalho tem como objetivo relatar uma experiência formativa desenvolvida no curso de Ciências da Religião de uma universidade pública mineira, cujo foco esteve na promoção da interculturalidade mediante o uso de metodologias ativas. A proposta envolveu disciplinas do núcleo pedagógico e contou com a participação de estudantes do 2º e 4º períodos, ao longo do ano letivo de 2024.
Fundamentos Teóricos
Os fundamentos teóricos do trabalho dialogam com autores que compreendem a prática pedagógica como espaço de mediação cultural e de construção de saberes plurais. Freire (1996) destaca que educar é um ato de libertação e de transformação, no qual o diálogo constitui o caminho para o reconhecimento do outro e a superação de práticas opressoras.
Para Candau (2016), a interculturalidade é uma proposta ético-política que exige a revisão das práticas escolares e curriculares, a fim de romper com perspectivas monoculturais e promover o diálogo entre diferentes matrizes culturais e religiosas. Fleuri (2003) complementa essa visão ao defender que a educação intercultural deve se constituir como espaço de diálogo, reconhecimento e reconstrução de identidades em constante movimento.
Nesse contexto, Moran (2018) enfatiza que as metodologias ativas favorecem o protagonismo discente e o engajamento crítico, permitindo que os estudantes se tornem autores do processo de aprendizagem. Sacristán (2000) reforça a necessidade de currículos que estimulem a reflexão e a problematização da realidade, articulando teoria e prática. Assim, a formação docente em Ciências da Religião deve possibilitar que o futuro educador reconheça a diversidade cultural e religiosa como fonte de aprendizagem e de transformação social.
Metodologia
A proposta metodológica teve como base a abordagem qualitativa, de caráter descritivo e reflexivo, organizada em torno da aprendizagem baseada em projetos e de práticas colaborativas. Foram implementadas estratégias diversificadas, tais como estudos de caso, rodas de diálogo, oficinas criativas, elaboração de planos de aula e seminários interativos.
Os licenciandos foram convidados a analisar criticamente diferentes manifestações religiosas e culturais, articulando-as aos desafios da prática pedagógica. A cada atividade, eram estimulados a produzir materiais didáticos inclusivos e reflexivos, destinados à aplicação em contextos escolares da Educação Básica.
Essas experiências ocorreram em espaços de debate horizontal, onde o professor atuou como mediador e os alunos assumiram papel de pesquisadores e produtores de conhecimento. O processo foi continuamente registrado e avaliado, priorizando a escuta ativa e a autoavaliação coletiva, o que permitiu identificar avanços, desafios e aprendizagens significativas.
Análise Parcial dos Resultados
A experiência revelou avanços significativos na formação crítica e intercultural dos licenciandos. As atividades baseadas em metodologias ativas favoreceram maior engajamento, autonomia e participação colaborativa, permitindo que os estudantes relacionassem o conteúdo das disciplinas a suas vivências pessoais e comunitárias.
Os relatos evidenciaram o desenvolvimento de competências comunicativas e relacionais, fundamentais à docência em contextos plurais. Muitos estudantes reconheceram que, antes das atividades, compreendiam a diversidade apenas sob a ótica da “tolerância religiosa”, mas, ao longo do processo, passaram a percebê-la como oportunidade de diálogo, aprendizagem mútua e reconstrução de saberes.
Do ponto de vista pedagógico, destacou-se a elaboração de materiais didáticos interculturais, com abordagens que valorizavam as diversas expressões religiosas, culturais e artísticas, além de promover reflexões éticas sobre respeito, solidariedade e convivência democrática. A utilização de metodologias ativas, como a Aprendizagem Baseada em Projetos, contribuiu para o fortalecimento da autoria docente e para a formação de sujeitos críticos e sensíveis à realidade social.
Conclusões
A experiência formativa demonstrou que a interculturalidade deve ser compreendida como eixo estruturante da formação docente em Ciências da Religião. Ao adotar metodologias ativas, o curso avançou na construção de práticas pedagógicas mais dialógicas, críticas e contextualizadas, que valorizam o protagonismo dos licenciandos e a pluralidade dos saberes.
Conclui-se que a educação intercultural ultrapassa o âmbito da tolerância religiosa, configurando-se como compromisso ético e político com a dignidade humana, a equidade e a justiça social. A proposta relatada contribuiu para consolidar um espaço formativo em que teoria e prática se articulam, transformando o processo de ensinar e aprender em exercício de convivência e emancipação.
Recomenda-se que essa abordagem seja ampliada para outras disciplinas e cursos de licenciatura, de modo a fortalecer a universidade como espaço de promoção de uma educação inclusiva, democrática e socialmente relevante.
Referências
CANDAU, V. M. F. Educação intercultural: entre afirmações e desafios. Revista Brasileira de Educação, v. 21, n. 64, p. 39-57, 2016.
FLEURI, R. M. Interculturalidade e educação: entre o relativismo e o diálogo. Educação & Sociedade, v. 24, n. 85, p. 1183-1202, 2003.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MORAN, J. Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. In: BACICH, L.; MORAN, J. (orgs.). Metodologias ativas para uma educação inovadora. Porto Alegre: Penso, 2018.
SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed, 2000.
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