ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS DE DOCENTES DE EDUCAÇÃO FÍSICA NO TRABALHO COM A CAPOEIRA NA ESCOLA

  • Autor
  • Dejanny Martins de Brito
  • Co-autores
  • Josiane Santos Brant Rocha
  • Resumo
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    Introdução

     

    A Capoeira é uma prática corporal de movimento humano, símbolo da herança cultural africana e afro-brasileira, reconhecida em 2014 pela Organização das Nações Unidas para Educação, Cultura e Ciência (UNESCO) como Patrimônio Imaterial da humanidade, em razão de simbolizar a história de resistência e resiliência dos negros no Brasil, durante e após a escravidão (Pereira, 2020). Assim, tornou-se uma potente ferramenta para gerar debates na escola e promover a Educação das Relações Étnico-Raciais em todas as etapas da Educação Básica, em particular nas aulas de Educação Física, problematizando questões raciais a partir da sua prática (Pereira, 2020).

    Segundo a perspectiva teórica de Mariante et al. (2024), a cultura se aprende na escola, sendo esse espaço privilegiado para o ensino das diversidades de tradições presentes no Brasil, principalmente as afro-brasileiras. Ainda, segundo esses autores, há exclusão dos conhecimentos de matrizes africanas nas escolas, entre eles da Capoeira e dos demais saberes produzidos pelo continente africano. Chimamanda (2019) alerta sobre a fragilidade da história única nas aulas de Educação Física escolar que está em assegurar saberes de uma única cultura, caracterizando um ensino monocultural e com práticas corporais de movimento humano de base eurocêntrica.

    A Educação Física cultural corrobora o ensino de saberes da cultura de movimento humano de matriz africana, assegurando prática significativa para toda a vida, trazendo, dessa forma, a possibilidade pedagógica do trabalho com a Capoeira escolar que envolve luta, dança, folclore, educação, lazer e filosofia de vida. No entanto, o fato de estar na escola não garante a permanência desses aprendizados, quem sabe apenas uma visibilidade inicial (Neira, 2017).

    Nesse sentido, a Lei nº 10.639/2003, atualizada pela Lei nº 11.645/2008, incluiu a História e a Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo das escolas públicas e privadas de Educação Básica do país. No entanto, a sua efetivação encontra-se aquém do esperado, como destaca Jesus (2023). Nos horários de Educação Física, por exemplo, em todas as etapas da Educação Básica, os alunos brasileiros carecem de aulas sobre conhecimentos de matrizes africanas e afrodiaspórica, desvelando uma prática educativa em descompasso com as atuais orientações da BNCC (Andrade, 2023).

    Entre os desafios enfrentados pelos professores, destaca-se a dificuldade em efetivar, nas rotinas de aprendizagem, os fundamentos teóricos e metodológicos da Capoeira (Pereira, 2020). Desse modo, este estudo teve como objetivo investigar as estratégias pedagógicas utilizadas pelos docentes de Educação Física, atuantes na Educação Básica,  para o ensino da Capoeira nas aulas de Educação Física.

     

    Fundamentos Teóricos

     

    Com a publicação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) , a Capoeira permanece como conteúdo a ser abordado nas aulas de Educação Física na unidade temática Lutas. É citada como pertencente ao grupo de “lutas brasileiras” juntamente à huka-huka e à luta marajoara (Brasil, 2017).Segundo a proposta, para os anos iniciais do Ensino Fundamental, a Capoeira deve ser desenvolvida do 3º ao 5º ano e, nos anos finais, no 6º e 7º ano (Brasil, 2017).

    As práticas pedagógicas da Educação Física, no Brasil, ainda são influenciadas pelos modelos euro-estadudinenses, inclusive com a demarcação de um período histórico em que métodos ginásticos europeus eram reproduzidos sem nenhum tipo de criticidade ou contextualização, entendendo o corpo como uma máquina que precisava ser treinada, desconsiderando seu contexto histórico-cultural (Pereira; Gomes, 2017).

    A descolonização do conhecimento é um dos princípios propostos pelo Currículo Cultural da Educação Física, mas para que haja efetividade em sua proposição é necessário que esteja diretamente articulada com outros princípios, entre eles a ancoragem social dos conhecimentos, que se baseia em atividades que proporcionam uma análise socio-histórica e política das práticas corporais a partir de suas formas conhecidas, permitindo a compreensão e a criticidade sobre o contexto em que essas práticas foram construídas (Neira, 2017).

     

     

    Metodologia

     

    Trata-se de um estudo derivado da pesquisa original intitulada “Capoeira na educação física escolar: prática docente e estratégias pedagógicas”. O percurso metodológico foi constituído de um estudo transversal e descritivo, realizado na cidade de Montes Claros/MG, Brasil, no ano de 2024. A Rede Estadual de Educação do referido município conta com aproximadamente 180 professores de Educação Física. A quantidade de participantes da pesquisa foi estabelecida a partir da aplicação da fórmula para estudos transversais com população finita, por meio de uma proporção populacional de 50%, com 5% de erro e intervalo de confiança de 95%, o que resultou em 123 professores. O cálculo amostral foi realizado pelo programa OpenEpi, versão 3.

    Foram selecionados professores de Educação Física, de ambos os sexos, atuantes na Educação Básica, no Ensino Fundamental e/ou Ensino Médio. Para o aperfeiçoamento do protocolo de pesquisa, antes do período da coleta de dados, conduziu-se um estudo piloto com 10 professores. Este estudo permitiu que os questionários fossem testados e ajustados para que a pesquisa pudesse ser aplicada de forma exitosa. A coleta de dados foi realizada de forma presencial, entre os meses de maio, junho e julho de 2024. As pesquisadoras foram às escolas públicas estaduais da cidade para entregar o Termo de Concordância da Instituição para Autorização de Pesquisa e apresentar o projeto aos professores. Em seguida, em sala reservada, os professores convidados e interessados em participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e receberam o questionário.

    O instrumento investigativo foi construído pelas autoras com auxílio do suporte teórico e estruturou-se em 9 perguntas que investigaram as estratégias pedagógicas de inserção do ensino da Capoeira pelos professores nas aulas de Educação Física. Os dados obtidos foram tabulados no programa estatístico Statistical Package for the Social Science (SPSS) versão 21. Foram realizadas análises descritivas de todas as variáveis investigadas por meio de suas distribuições de média, desvio padrão, frequências e porcentagens. O estudo atendeu às diretrizes nacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros-MG, pelo número 6.578.276. Utilizou-se ainda o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

     

    Análise de dados

     

    Sobre estratégias pedagógicas de inserção do ensino da Capoeira, os professores foram indagados sobre utilizar alguma metodologia para participação dos alunos nas aulas de Educação Física e a maior parte dos investigados respondeu que utiliza. Além disso, houve consenso ao concordarem totalmente que a Capoeira promove a participação, o aprendizado dos alunos e pode ser praticada por ambos os sexos.

    Ao serem questionados sobre a Capoeira tornar os alunos mais agressivos, a maioria discordou totalmente. Outrossim, discordaram totalmente também sobre existir algum preconceito sobre a luta tanto pelos alunos, quanto pelos professores. Ainda demonstraram interesse de forma majoritária em trabalhar a Capoeira numa abordagem diferente da luta e que possa contemplar todas as temáticas da cultura corporal de movimento propostas pela BNCC, com ênfase à abordagens metodológicas por meio de jogos e brincadeiras e dança.

     

    Conclusão

     

    A pesquisa evidenciou que os professores de Educação Física reconhecem a Capoeira como uma prática corporal afro-brasileira de grande potencial pedagógico, capaz de contribuir para a formação dos estudantes a partir da promoção da Educação das Relações Étnico-Raciais no contexto escolar. As estratégias pedagógicas adotadas demonstram abertura para abordagens que contemplam as múltiplas dimensões da Capoeira, podendo ser trabalhada de forma cultural, histórica e formativa, por meio dos temas da Cultura Corporal de Movimento em consonância com as orientações da BNCC e com a Lei nº 10.639/2003. Entretanto, os resultados revelam a necessidade de fortalecer a formação continuada dos docentes e ampliar o suporte pedagógico, a fim de que o ensino da Capoeira ultrapasse a dimensão técnica e se consolide como uma prática crítica, descolonizadora e socialmente transformadora.

     

     

     

     

     

  • Palavras-chave
  • Capoeira; Educação Física Escolar; Prática pedagógica; Diversidade cultural.
  • Área Temática
  • Eixo 2 – Educação e Justiça Social: Identidades, Gênero e Relações Étnico-Raciais
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  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
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  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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