SEMINÁRIOS DE FORMAÇÃO DOCENTE: PRÁTICAS INTERDISCIPLINARES PARA UMA MATEMÁTICA HUMANA E TRANSFORMADORA

  • Autor
  • Luan Carlos Dantas Rodrigues
  • Co-autores
  • Matheus Vinícius Santos Alexandre , Marcelo Samuel Campos Souza , Samuel Antunes França , Solange Ribeiro Prates
  • Resumo
  • Introdução

    Tradicionalmente, os cursos de Matemática Licenciatura são reconhecidos pela forte carga técnica e pela centralidade nos conteúdos disciplinares. Entretanto, formar professores matemáticos no século XXI implica ir além dos números, incorporando dimensões éticas, sociais, ambientais e inclusivas que dialoguem com a complexidade do mundo contemporâneo. Nesse horizonte, a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) oferta, no curso de Matemática Licenciatura, três disciplinas que compõem um verdadeiro eixo formativo de humanização docente: Seminário de Educação e Inclusão, Seminário de Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos e Seminário de Educação, Sociedade e Meio Ambiente. Embora tenham carga horária reduzida (36 horas cada), essas disciplinas são fundamentais para provocar reflexões, construir práticas pedagógicas inovadoras e fortalecer a identidade ética dos futuros professores. O presente relato tem como objetivo apresentar essa experiência integrada, evidenciando como os três seminários constituem espaços de articulação entre teoria, prática e valores humanos, contribuindo para a formação de professores de Matemática comprometidos com a inclusão, a cidadania e a sustentabilidade.

     

    Fundamentos Teóricos

    A formação docente contemporânea exige que o professor se reconheça como sujeito histórico e agente de transformação social. Freire (1996) destaca que educar é um ato político e ético, comprometido com a emancipação e com o diálogo entre saberes. Essa perspectiva rompe com a visão bancária do ensino e valoriza a experiência dos educandos como ponto de partida para a aprendizagem significativa. No campo da educação inclusiva, Mantoan (2003) defende que a escola precisa romper as barreiras atitudinais, pedagógicas e estruturais que excluem sujeitos em situação de deficiência ou vulnerabilidade. Gadotti (2000) e Leff (2001) reforçam que a educação ambiental crítica deve promover consciência planetária e responsabilidade ética com as gerações futuras. Arroyo (2017) lembra que a diversidade não é um obstáculo, mas uma riqueza que deve ser reconhecida e valorizada no processo educativo. Ao integrar esses referenciais, os seminários oferecidos no curso de Matemática Licenciatura buscam formar professores capazes de ensinar Matemática e, ao mesmo tempo, de educar para a cidadania, a inclusão e a sustentabilidade — articulando os saberes científicos aos desafios concretos da vida social.

     

    Apresentação da Experiência

    Os três seminários foram organizados como espaços de vivência e experimentação, superando o modelo tradicional de aulas expositivas. Em Seminário de Educação e Inclusão, os licenciandos analisaram legislações, casos reais e práticas pedagógicas voltadas ao atendimento de estudantes com deficiência e necessidades educacionais específicas. Desenvolveram pequenos projetos de adaptação curricular e compartilharam estratégias de acessibilidade, refletindo sobre o papel do professor de Matemática na promoção da equidade. No Seminário de Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos, as discussões centraram-se em temas como desigualdade social, preconceito, racismo, gênero e sexualidade, buscando compreender como esses marcadores impactam a trajetória escolar dos alunos e a prática docente. Foram realizadas rodas de conversa, análise de vídeos e debates orientados, estimulando o posicionamento crítico e ético dos licenciandos frente às violações de direitos. Por fim, no Seminário de Educação, Sociedade e Meio Ambiente, os estudantes foram desafiados a elaborar oficinas pedagógicas que relacionassem conteúdos matemáticos a temas ambientais contemporâneos, como consumo consciente, estatísticas sobre poluição e cálculos de áreas para hortas escolares. As oficinas foram aplicadas em sala e estão sendo sistematizadas em formato de minicurso para apresentação no II ICIED, ampliando o alcance da experiência para outros cursos e instituições. Apesar da carga horária reduzida, a combinação dessas três disciplinas tem permitido que os futuros professores experimentem metodologias ativas, desenvolvam empatia, protagonismo e construam um repertório pedagógico mais conectado às demandas sociais.

     

    Análise Parcial dos Resultados

    A experiência integrada dos seminários vem produzindo impactos significativos na formação dos licenciandos. Os estudantes relatam que começaram a enxergar a Matemática como ferramenta para ler o mundo, compreender desigualdades e propor soluções criativas para problemas reais. No campo da inclusão, surgiram propostas inovadoras de adaptação de conteúdos matemáticos para alunos com deficiência visual e transtornos de aprendizagem, fortalecendo a percepção de que a acessibilidade é parte do planejamento pedagógico. Nas discussões sobre diversidade e direitos humanos, os licenciandos desenvolveram maior sensibilidade para reconhecer preconceitos implícitos e refletir sobre sua postura profissional. Já no eixo socioambiental, as oficinas proporcionaram experiências concretas de interdisciplinaridade, exigindo pesquisa, trabalho colaborativo e elaboração de atividades significativas. Observa-se também o fortalecimento da identidade docente. Os licenciandos, ao assumirem o papel de planejadores e executores das oficinas e debates, passaram a se reconhecer como autores de práticas pedagógicas, e não apenas como receptores de conteúdos. Esse protagonismo vem sendo potencializado pela perspectiva de apresentar o minicurso no evento acadêmico, o que amplia a noção de pertencimento à comunidade científica e educacional.

     

    Conclusões

    Os seminários de Educação e Inclusão, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos e Educação, Sociedade e Meio Ambiente configuram um eixo inovador de formação no curso de Matemática Licenciatura, permitindo que os futuros professores construam um olhar mais crítico, humano e interdisciplinar sobre sua prática. Mesmo com carga horária reduzida, essas disciplinas se mostram potentes para provocar deslocamentos, romper preconceitos e aproximar os licenciandos da realidade social dos alunos que encontrarão nas escolas. Ao integrar inclusão, diversidade e sustentabilidade ao ensino de Matemática, a universidade contribui para formar educadores capazes de ensinar conteúdos e, ao mesmo tempo, educar para a cidadania, a equidade e o cuidado com a vida. Essa experiência reforça a importância de políticas institucionais que valorizem e ampliem espaços formativos interdisciplinares, reconhecendo que a docência se constrói não apenas no domínio técnico dos conteúdos, mas no compromisso ético com a transformação social.

    Referências

    ARROYO, Miguel. Ofício de Mestre: imagens e autoimagens. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

    GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.

    LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001.

    MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer?. São Paulo: Moderna, 2003.

  • Palavras-chave
  • Formação docente; Interdisciplinaridade; Educação inclusiva; Diversidade; Sustentabilidade.
  • Área Temática
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
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  • Eixo 1 - Educação Inclusiva, Acessibilidade e Tecnologias Assistivas
  • Eixo 2 – Educação e Justiça Social: Identidades, Gênero e Relações Étnico-Raciais
  • Eixo 3 – Políticas Públicas e Gestão Educacional na Perspectiva Inclusiva
  • Eixo 4 – Currículo, Práticas Pedagógicas e Formação Docente
  • Eixo 5 – Educação do Campo, Indígena e Quilombola: saberes, territórios e direitos

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