Introdução
A formação de professores de Matemática, historicamente marcada por uma ênfase técnica e conteudista, vem sendo desafiada a incorporar dimensões sociais, éticas e ambientais em seus processos formativos. Nesse contexto, a disciplina Seminário de Educação, Sociedade e Meio Ambiente, ofertada no 3º período do curso de Matemática Licenciatura da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), constituiu-se em espaço privilegiado de reflexão crítica sobre o papel do educador na construção de uma sociedade sustentável.
O presente relato tem como objetivo apresentar a experiência desenvolvida com os licenciandos, centrada na produção e execução de oficinas pedagógicas voltadas à temática socioambiental. As atividades foram organizadas de forma colaborativa, culminando na proposição de um minicurso a ser ofertado no II Congresso Internacional de Educação e Diversidade (II ICIED), como forma de socializar as aprendizagens e ampliar o diálogo entre formação docente, sociedade e meio ambiente.
Fundamentos Teóricos
A discussão sobre a relação entre educação e meio ambiente é atravessada por diferentes concepções de sustentabilidade e de cidadania. Para Gadotti (2000), a educação ambiental deve ser entendida como processo de transformação social, que envolve o repensar das relações entre ser humano, natureza e conhecimento. Nessa mesma perspectiva, Leff (2001) defende uma educação ambiental crítica, capaz de superar o caráter meramente conservacionista e assumir compromisso ético e político com a vida. A complexidade desse processo é destacada por Morin (2002), ao afirmar que pensar o meio ambiente implica reconhecer a interdependência entre todas as dimensões do real — biológica, social, cultural e espiritual. Assim, a formação docente deve possibilitar o desenvolvimento de um pensamento ecológico que articule saberes e promova a consciência planetária. Freire (1996) complementa essa visão ao destacar que educar é um ato de esperança e de compromisso com a transformação da realidade. No campo da formação de professores, essa perspectiva exige que a universidade promova espaços de diálogo, de experimentação e de ação-reflexão, capazes de articular teoria e prática de forma viva e significativa.
Apresentação da experiência
A experiência foi desenvolvida ao longo do semestre letivo de 2025 com a turma do 3º período de Matemática Licenciatura. O ponto de partida foi a leitura e discussão coletiva da ementa da disciplina, buscando compreender como os temas “educação, sociedade e meio ambiente” se relacionam com o campo da Matemática e com a prática docente.
A partir dessas discussões, os estudantes foram organizados em grupos e convidados a elaborar oficinas pedagógicas sobre temas ambientais contemporâneos — como consumo consciente, descarte de resíduos, mudanças climáticas, alimentação sustentável, poluição e uso racional da água.
Cada grupo ficou responsável por relacionar o tema ambiental a conteúdos matemáticos, como medidas, proporções, estatísticas e geometria, de modo a propor atividades práticas e contextualizadas. As oficinas foram desenvolvidas e aplicadas em sala de aula, com os próprios colegas atuando como público-alvo. Esse movimento permitiu que os estudantes vivenciassem a docência de forma colaborativa, testando metodologias ativas e refletindo sobre a articulação entre teoria, prática e realidade social.
Como culminância, os alunos decidiram sistematizar parte das oficinas em formato de minicurso, a ser apresentado no II ICIED, com o propósito de compartilhar a experiência com a comunidade acadêmica e estimular o diálogo entre diferentes licenciaturas sobre o papel da educação ambiental na formação de professores.
Análise parcial dos resultados
A vivência das oficinas possibilitou múltiplas aprendizagens. Do ponto de vista pedagógico, os alunos destacaram a importância de planejar atividades que mobilizem o raciocínio lógico e, ao mesmo tempo, despertem consciência crítica sobre os impactos das ações humanas no planeta. O exercício de relacionar conteúdos matemáticos a temas ambientais exigiu pesquisa, criatividade e cooperação, ampliando o sentido da disciplina e do próprio curso.
Do ponto de vista formativo, observou-se um fortalecimento da identidade docente e da percepção do professor como agente transformador. Muitos estudantes relataram que, antes da experiência, não conseguiam perceber conexões entre Matemática e meio ambiente. Após as oficinas, reconheceram a potência da disciplina para desenvolver competências cidadãs e éticas nos alunos da educação básica.
Além disso, o processo colaborativo contribuiu para o desenvolvimento de habilidades de comunicação, planejamento e mediação, essenciais à prática docente. A preparação para o minicurso consolidou a noção de autoria e protagonismo, valorizando o papel do futuro professor como sujeito que também produz conhecimento e partilha experiências com outros educadores.
Conclusões
A experiência revelou que a integração entre educação ambiental e formação docente em Matemática é não apenas possível, mas necessária. As oficinas pedagógicas mostraram-se estratégias eficazes para promover aprendizagens significativas, favorecendo o diálogo entre ciência, ética e sociedade. O seminário, ao propor práticas reflexivas e colaborativas, rompeu com a fragmentação curricular e aproximou os licenciandos de uma concepção de ensino comprometida com a sustentabilidade e com a cidadania. O minicurso em construção representa a continuidade desse processo, reafirmando a relevância da docência como prática social e transformadora.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.
LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez/UNESCO, 2002.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica