Vários dispositivos legais, tanto nacionais quanto internacionais, garantem às comunidades indígenas o direito a uma educação diferenciada, intercultural e bilíngue, eles validam tanto a autonomia educacional quanto a elaboração colaborativa de processos pedagógicos, dois fatores indispensáveis à reestruturação de modelos escolares tradicionais. Nesse sentido, a educação infantil na comunidade Boe Bororo da Aldeia Tadarimana é indispensável que seja contextualizada, ultrapassando a perspectiva colonial de aprisionamento das crianças.
Segundo Tiriba (2024), abrir a infância é garantir às crianças o direito de vivenciar diretamente a natureza, a cultura e a vida em comunidade, aprendendo de forma relevante a partir do seu território. Para o povo Boe, isso significa entender que seus conhecimentos não estão restritos a materiais didáticos ou a um ambiente escolar formal, mas se encontram na interação com a natureza, na transmissão oral e nas vivências em grupo. A educação intercultural, como sugerem D'Ambrósio (2012) e Walsh (2009), é um caminho possível para desfazer currículos colonizadores, promovendo a interação entre o conhecimento tradicional e o saber científico. Portanto, a formação de professores é entendida como um eixo central para que essa transformação ocorra, rompendo com a assimilação cultural que a escola sempre promoveu.
2 Fundamentação teórica
A fundamentação teórica ancora-se no diálogo entre a interculturalidade crítica (Walsh, 2009), a pedagogia do diálogo de Paulo Freire (1987) e o "desemparedamento" da infância (Tiriba, 2024). A interculturalidade crítica orienta a análise para além de uma visão folclorizada da diversidade, focando na transformação das estruturas de poder que subalternizam os saberes indígenas. A pedagogia freiriana oferece o fundamento para uma prática educativa horizontal e dialógica, enquanto a ideia de desemparedamento critica o confinamento físico e cultural das crianças, defendendo seu direito de aprender a partir do território. Esse referencial é complementado pelas contribuições de autores indígenas, como Baniwa (2019) e Munduruku (2018), que reforçam a escola como espaço de fortalecimento cultural, e pela concepção de formação docente como eixo central para uma educação decolonial (Adugoenau, 2015).
3 Objetivos
Com base no exposto, o presente resumo tem como objetivo sintetizar uma proposta de pesquisa que investiga a formação de professores para uma educação infantil intercultural na comunidade Boe Bororo da Aldeia Tadarimana. A investigação parte do reconhecimento de que uma educação diferenciada, intercultural e bilíngue é um direito garantido por um sólido aparato legal, nacional e internacional, que válida a autonomia educacional e a construção colaborativa de processos pedagógicos como antídotos aos modelos escolares tradicionais de matriz colonial.
4 Metodologia
Metodologicamente, a pesquisa adotará a Investigação Comunicativa Crítica, baseada em Habermas e Freire, privilegiando um processo dialógico e não hierárquico entre a pesquisadora e os participantes da aldeia. A coleta de dados se dará por meio de três procedimentos principais: a observação comunicativa das interações em contexto natural, entrevistas em grupo realizadas como círculos de diálogo (Rodrigues, 2010) e relatos de vida comunicativos, co-construídos com os educadores. A análise, de caráter temático e interpretativo, emergirá desse diálogo, sem categorias prévias, guiada pelo princípio freiriano de que o conhecimento se constrói coletivamente. Todos os aspectos éticos seguirão a Resolução CNS nº 510/2016.
5 Resultados e discussão
Espera-se que a pesquisa revele como a mediação docente intercultural é fundamental para que as crianças Boe se tornem mais receptivas ao que as rodeia. Veremos, então, como a dialogicidade freiriana viabiliza o entrelaçamento de saberes populares e currículo escolar, fazendo da escola um espaço de afirmação identitária. A interculturalidade crítica, então, deve emergir como uma ferramenta de resistência contra currículos que promovem a homogeneização, dando destaque a narrativas orais, rituais e à conexão com o território.
6 Considerações finais
A pesquisa busca mostrar que a formação docente intercultural, baseada no diálogo e na crítica às estruturas coloniais, é indispensável para uma educação infantil que visa à emancipação. A valorização dos saberes locais, bem como a promoção do diálogo entre a escola e o território, favorece tanto o fortalecimento do sentimento identitário das crianças Boe quanto a construção de uma educação que seja verdadeiramente plural e decolonial.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica