Resumo Expandido
Introdução
O presente resumo expandido tem como objetivo explorar a evolução das filosofias educacionais para indivíduos surdos, traçando um percurso que vai do oralismo à comunicação total e, finalmente, ao bilinguismo. A relevância deste tema reside na importância crucial da linguagem para o desenvolvimento social, emocional e intelectual da criança, seja ela ouvinte ou surda. O artigo de Fernando C. Capovilla (1998) serve como base para esta análise, revisando os fatores psicossociais e os conceitos históricos que moldaram as atitudes em relação à surdez desde a antiguidade até os dias atuais. Adicionalmente, o trabalho examina achados de pesquisa sobre o ensino de linguagem para surdos, elucidando as razões subjacentes às mudanças de paradigma e destacando a importância de programas de educação bilíngue para crianças surdas.
Fundamentos Teóricos
A Importância da Linguagem e Concepções Históricas da Surdez. A linguagem é um pilar fundamental para o desenvolvimento humano, influenciando diretamente as dimensões social, emocional e intelectual do indivíduo. A privação linguística pode acarretar sérias consequências, limitando a capacidade de comunicação, a partilha de experiências e a participação na vida em comunidade. Historicamente, a surdez foi frequentemente mal compreendida, sendo associada a deficiências intelectuais. Por exemplo, Aristóteles acreditava que os surdos eram ineducáveis e irresponsáveis, uma visão que, por muito tempo, influenciou as práticas educacionais. Esta percepção começou a ser questionada nos séculos XVIII e XIX, quando filósofos passaram a ver a surdez de uma perspectiva antropológica, embora ainda sob a predominância do oralismo.
Ascensão e Queda do Oralismo. O oralismo tornou-se a filosofia educacional dominante para surdos, consolidando-se particularmente após o Congresso de Milão de 1880. Esta abordagem visava o ensino da fala e da leitura labial, banindo o uso da língua de sinais da educação formal. Acreditava-se que o oralismo promoveria a integração dos surdos na sociedade ouvinte. No entanto, evidências empíricas demonstraram que o oralismo era, em grande parte, ineficaz. Estudos revelaram que apenas uma pequena percentagem de crianças surdas conseguia desenvolver habilidades orais funcionais satisfatórias, e a maioria apresentava déficits significativos na leitura e escrita. As limitações comunicativas e os prejuízos no desenvolvimento cognitivo resultantes do oralismo levaram a uma crítica crescente a essa abordagem.
A Era da Comunicação Total. Em resposta às falhas do oralismo, a Comunicação Total emergiu na década de 1970 como uma filosofia educacional mais inclusiva. Esta abordagem propunha a utilização de todos os modos de comunicação – incluindo a língua oral, a leitura labial, a escrita e, crucialmente, as línguas de sinais ou sistemas de sinais. O objetivo era maximizar a aquisição da linguagem e a literacia para os surdos. Foram desenvolvidos sistemas de sinais artificiais, como o Seeing Essential English, Manually Coded English e Signing Exact English, que buscavam representar o inglês falado por meio de sinais. Contudo, a análise de dados mostrou que esses sistemas, por serem artificiais e não refletirem a complexidade linguística das línguas de sinais naturais, frequentemente não resultaram nas melhorias esperadas na aquisição da linguagem. A Comunicação Total, muitas vezes, carecia de uma filosofia linguística clara e misturava elementos de forma incoerente, o que gerava um desenvolvimento linguístico incompleto e inconsistente.
A Transição para o Bilinguismo. A insatisfação com os resultados da Comunicação Total, especialmente a falta de uma base linguística sólida, levou ao surgimento e à ascensão do bilinguismo como a filosofia educacional mais promissora. Estudos e experiências práticas, como os desenvolvidos em Copenhague, Dinamarca, e na Suécia, demonstraram que a aquisição precoce da língua de sinais é fundamental para o desenvolvimento linguístico e cognitivo da criança surda. O bilinguismo reconhece a língua de sinais (como a LIBRAS no Brasil) como a primeira e natural língua do surdo, promovendo simultaneamente o desenvolvimento da língua oral e/ou escrita como segunda língua. Essa abordagem não apenas facilita uma aquisição de linguagem mais eficaz, mas também respeita a identidade cultural e social do indivíduo surdo, promovendo uma inclusão autêntica e um empoderamento real.
Metodologia
O artigo de Fernando C. Capovilla (1998) emprega uma metodologia de revisão de literatura e análise histórico-descritiva. O autor realiza uma investigação aprofundada das diferentes filosofias educacionais aplicadas à surdez ao longo do tempo, desde os conceitos mais antigos até as abordagens contemporâneas. A metodologia consiste em:
• Revisão Histórica: Exame de fatores psicossociais e conceçõesk históricas que influenciaram as atitudes em relação à surdez, desde a Grécia Antiga.
• Análise Crítica de Filosofia: Avaliação das bases teóricas e práticas do oralismo, comunicação total e bilinguismo.
• Discussão de Achados de Pesquisa: Consideração de estudos e dados que sustentam ou refutam a eficácia de cada filosofia educacional no desenvolvimento da linguagem e cognição de crianças surdas.
Essa abordagem permite ao autor traçar a evolução das práticas e dos entendimentos sobre a educação de surdos, identificando as causas das mudanças de paradigma e os elementos que levaram à consolidação do bilinguismo como a metodologia mais eficaz.
Análise de dados
A análise dos dados, conforme apresentada por Capovilla (1998), revela um padrão claro na eficácia das filosofias educacionais para surdos. O oralismo, apesar de sua hegemonia pós-Congresso de Milão, demonstrou ser amplamente ineficaz. Dados de pesquisa indicaram que menos de 0,5% das crianças surdas alcançavam níveis funcionais de oralização, e a maioria apresentava desempenho insatisfatório em leitura e escrita. Isso evidenciou que o oralismo não promovia o desenvolvimento linguístico completo e impedia o acesso à informação e à cultura.
A Comunicação Total, embora mais inclusiva ao permitir diversos modos de comunicação, incluindo sistemas de sinais, também apresentou limitações significativas. A análise mostrou que muitos dos sistemas de sinais artificiais empregados (como o Seeing Essential English ou Signing Exact English) não eram línguas naturais completas e, portanto, não facilitavam um desenvolvimento linguístico robusto. Estudos na Dinamarca, por exemplo, revelaram que a Comunicação Total não resultou em melhorias significativas na aquisição da linguagem escrita entre crianças surdas. Essa abordagem muitas vezes carecia de uma fundamentação linguística coerente, resultando em um desenvolvimento linguístico incompleto e fragmentado.
Em contraste, a análise ressaltou os benefícios superiores do bilinguismo. A pesquisa de Hansen (1990) e outros estudos em Copenhague indicaram que crianças surdas expostas à língua de sinais desde cedo apresentavam melhor desenvolvimento linguístico e de sinalização. Países como a Suécia e a Dinamarca, ao adotarem o bilinguismo, demonstraram que o reconhecimento da língua de sinais como primeira língua, juntamente com o desenvolvimento da língua escrita/oral, leva a melhores resultados cognitivos, linguísticos e sociais. Essa análise valida o bilinguismo como a abordagem mais eficaz para a educação e integração dos surdos, pois valoriza sua identidade e promove um desenvolvimento pleno.
Conclusões
O artigo de Fernando C. Capovilla (1998) oferece uma conclusão contundente sobre a trajetória das filosofias educacionais para surdos, destacando a transição necessária do oralismo e da comunicação total para o bilinguismo como o paradigma mais eficaz e respeitoso. A pesquisa enfatiza que a linguagem é um direito fundamental e um fator crítico para o desenvolvimento integral da criança, e a privação linguística precoce, frequentemente imposta por modelos oralistas e por algumas aplicações da comunicação total, causa danos irreversíveis ao desenvolvimento cognitivo, linguístico e social.
O bilinguismo é apresentado como a solução que oferece as melhores oportunidades. Ao reconhecer a língua de sinais como a língua natural e primária do surdo, e ao promover ativamente o desenvolvimento simultâneo da língua escrita e/ou oral como segunda língua, o bilinguismo não só facilita a aquisição de linguagem de forma eficaz, mas também respeita a identidade cultural e linguística do indivíduo surdo. Esta abordagem propicia um desenvolvimento cognitivo e social mais robusto, capacitando o surdo a participar plenamente em ambas as comunidades, surda e ouvinte. O artigo reitera a necessidade de continuar a pesquisa e a implementação de programas bilíngues que assegurem a todos os indivíduos surdos o acesso a uma educação inclusiva e de qualidade.
Referências
CAPOVILLA, F. C. (1998). FILOSOFIAS EDUCACIONAIS EM RELAÇÃO AO SURDO: DO ORALISMO À COMUNICAÇÃO TOTAL AO BILINGUISMO. Revista Brasileira de Educação Especial, v.6, n.1, a07, p. 99-116.
HANSEN, B. Trends in the progress towards bilingual education for deaf children in Denmark. In: PRILLWITZ, S.; VOLLHABER, T. (Eds.). Sign language research and application. International studies on sign language and communication of the deaf. v. 13, Hamburg, Signum Press. 1990, p. 51-62.
Comissão Organizadora
Congresso Internacional Educação e Diversidade
Júnea Tatiane Damasceno Oliveira
Éryka Jovania Pereira
Silvana Diamantino França
Juliane Leite Ferreira e Figueiredo
ALINE MARIA GONZAGA RUAS
Comissão Científica