Este trabalho busca explorar como o conceito de monstruosidade figura no mangá “Tomie”, escrito por Junji Ito em 1987 e publicado no Brasil em 2021. Em primeira instância, apresenta-se uma introdução acerca do autor e da obra em questão, de modo a expor suas associações com a literatura, a cultura pop e as artes visuais de terror. Ademais, este trabalho analisará como a monstruosidade em Tomie é articulada à teratologia, ao mal moral e ao desejo, evidenciando sua relação com o contexto das visões do Japão acerca da sexualidade. Para tanto, utilizam-se as seguintes teorias para subsidiar a análise literária e histórica: a ideia de monstruosidade moral proposta por Michel Foucault, o conceito de abjeto trabalhado por Julia Kristeva e as teses da monstruosidade discutidas por Jeffrey Jerome Cohen. Ademais, as visões de Julio Jeha e de Noel Carröl serão utilizadas para discutir a monstruosidade, o desejo e o mal moral. Com isso, o presente trabalho pretende demonstrar como Tomie, a protagonista da obra, representa uma ambiguidade em relação à figura monstruosa: por um lado, seu corpo é extremamente belo, e a moralidade da moça é o que representa o seu perigo. Porém, o verdadeiro corpo de Tomie, com ramificações, distorções e partes aberrantes, traz consigo uma ideia de abjeção proposta na monstruosidade teratológica. Estas duas configurações são utilizadas de modo a causar no leitor um efeito também ambíguo: a fascinação por Tomie e, ao mesmo tempo, asco por ela (algo, inclusive, muito comum nas obras de Junji Ito). Deste modo, expõe-se como esta obra se relaciona com o contexto japonês de sua época para causar um efeito de terror e encantamento.
Promovido pelo CUME – Laboratório de Pesquisa Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura e Memória (Unifesp/USP) e com apoio do LabhPac e da Rede Brasileira de História Pública (RBHP), o Seminário de Pesquisa Cultura Pop e Ação Historiadora constitui-se como espaço para reflexões provocativas sobre a relação entre a cultura pop e a história: como objeto de análise da comunidade historiadora, como campo de observação (com conjuntos de fontes específicos, capazes de fornecer materiais e suscitar interpretações para diversas perspectivas de estudo histórico) e como linguagem (enquanto recurso de comunicação da pesquisa histórica e de desenvolvimento de práticas participativas de investigação, em diálogo com a história pública).
O evento parte do entendimento da cultura pop – em suas múltiplas e por vezes conflitantes elaborações conceituais – como um elemento estruturante da contemporaneidade. Busca-se, a partir dele, construir espaços de diálogo, reflexão, trocas e compartilhamentos de experiência que permitam despertar uma reflexão coletiva acerca de como a comunidade historiadora pode se aproximar, tensionar e problematizar seus produtos, sujeitos, relações e produções – e como ela, de fato, tem feito isso. Assume-se, de saída, a relevância da cultura pop como um elemento que produz identificações, subjetividades, memórias, relatos (auto)biográficos e representações que informam sobre as relações entre o individual e o coletivo, sujeito e nação, mercado e Estado, academia e sociedade, transitando entre esses pólos e suas nuances.
Comissão Organizadora
Ricardo Santhiago
Igor Lemos Moreira
Comissão Científica
Carlos Eduardo Pereira de Oliveira (CUME)
Carolina Amaral Aguiar (USP)
Daisy Perelmutter (CUME)
Fábio Feltrin de Souza (UFPR)
Ivan Lima Gomes (UFG)
João Júlio Gomes dos Santos Júnior (Udesc)
Livia Morais Garcia Lima (CUME/Unesp)