A proposta parte da articulação entre cultura pop e ensino de Literatura, compreendendo essas linguagens como formas legítimas de produção historiográfica. O ponto de partida foi a análise do poema Navio Negreiro, de Castro Alves, estudado na terceira fase do Romantismo, e sua intertextualidade com a canção Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro, da banda O Rappa. Ambas as obras foram trabalhadas com alunos do 2º ano do ensino médio em uma escola pública, com o intuito de aproximar a arte do século XIX e a cultura popular contemporânea, além de refletir sobre as permanências históricas da violência racial no Brasil. Investigar de que forma a intertextualidade entre obras de diferentes tempos e suportes pode contribuir para a construção do pensamento histórico dos estudantes, ampliando suas possibilidades de leitura crítica do presente por meio da cultura pop. A atividade consistiu na leitura e análise conjunta do poema e da canção, seguidas de rodas de conversa guiadas por perguntas reflexivas. Posteriormente, os estudantes produziram um memorial coletivo sobre situações de racismo estrutural presenciadas por eles. A experiência demonstrou que os estudantes reconheceram conexões significativas entre o passado escravista e o presente, compreendendo que a história não é uma narrativa distante, mas algo que se atualiza nas formas culturais que os cercam. A linguagem próxima da vivência dos alunos favoreceu a escuta ativa, e a utilização da música – algo mais presente no cotidiano deles – despertou um olhar mais crítico e um sentimento de pertencimento. Ao relacionar literatura canônica e cultura pop, o trabalho fortalece a escola como espaço de construção de consciência histórica, pois, ao ser incorporada como fonte válida, amplia o repertório reflexivo dos estudantes e contribui para uma prática historiadora viva e politicamente comprometida.
Promovido pelo CUME – Laboratório de Pesquisa Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura e Memória (Unifesp/USP) e com apoio do LabhPac e da Rede Brasileira de História Pública (RBHP), o Seminário de Pesquisa Cultura Pop e Ação Historiadora constitui-se como espaço para reflexões provocativas sobre a relação entre a cultura pop e a história: como objeto de análise da comunidade historiadora, como campo de observação (com conjuntos de fontes específicos, capazes de fornecer materiais e suscitar interpretações para diversas perspectivas de estudo histórico) e como linguagem (enquanto recurso de comunicação da pesquisa histórica e de desenvolvimento de práticas participativas de investigação, em diálogo com a história pública).
O evento parte do entendimento da cultura pop – em suas múltiplas e por vezes conflitantes elaborações conceituais – como um elemento estruturante da contemporaneidade. Busca-se, a partir dele, construir espaços de diálogo, reflexão, trocas e compartilhamentos de experiência que permitam despertar uma reflexão coletiva acerca de como a comunidade historiadora pode se aproximar, tensionar e problematizar seus produtos, sujeitos, relações e produções – e como ela, de fato, tem feito isso. Assume-se, de saída, a relevância da cultura pop como um elemento que produz identificações, subjetividades, memórias, relatos (auto)biográficos e representações que informam sobre as relações entre o individual e o coletivo, sujeito e nação, mercado e Estado, academia e sociedade, transitando entre esses pólos e suas nuances.
Comissão Organizadora
Ricardo Santhiago
Igor Lemos Moreira
Comissão Científica
Carlos Eduardo Pereira de Oliveira (CUME)
Carolina Amaral Aguiar (USP)
Daisy Perelmutter (CUME)
Fábio Feltrin de Souza (UFPR)
Ivan Lima Gomes (UFG)
João Júlio Gomes dos Santos Júnior (Udesc)
Livia Morais Garcia Lima (CUME/Unesp)