“Ao contrário dos filmes tradicionais da Disney, as animações da Pixar sempre trataram a morte de maneira pudica, discreta. Enquanto A Bela e a Fera ousava matar seu vilão jogando-o do alto de uma torre imensa, o vilão de Toy Story 3, por exemplo, era punido com uma vida ruim ao invés da morte. Agora, a Pixar ousa abordar o assunto com uma frontalidade atípica e bem-vinda: Viva - A Vida é uma Festa explora não apenas a morte natural, mas as mortes por acidente, o assassinato e a morte simbólica, ou seja, o esquecimento.
O conteúdo poderia soar árido demais para o público infantil, porém o diretor Lee Unkrich suaviza a ideia com música, poesia e afeto familiar. A história gira em torno de um garotinho apaixonado por canções, vivendo dentro de uma estrutura matriarcal onde a música é banida devido a um trauma: como o tataravô abandonou a esposa e os filhos pequenos para seguir a carreira de artista, a dor familiar foi deslocada do homem para o seu outro objeto de paixão, no caso, a arte. (...) Viva se dissocia da noção maniqueísta de céu e inferno, preferindo a transferência harmônica e igualitária para outro plano de existência, no qual o elemento mais importante é ser lembrado por aqueles que ainda vivem.
Por isso mesmo, a bela canção-tema se chama “Lembre de Mim”, destacando o papel da memória na manutenção do afeto. Esse é um atalho fundamental encontrado pela história: ao invés de sugerir que o amor pela família passa obrigatoriamente pela presença física ao lado dos parentes, o amor se encontra na lembrança de quem cuidou de nós. A noção de um amor não-físico possibilita o afeto com os antepassados mortos e permite igualmente que uma pessoa seja, ao mesmo tempo, apegada aos pais, tios e avós, mas também um artista percorrendo o mundo com a sua arte. O dilema Miguel, entre ficar e partir, é solucionado pela narrativa através de uma bela via alternativa.” @adorocinema
Facilitadora: Livia Rocha Torreiro de Carvalho CRP:15/2806
Público alvo: Estudantes e Profissionais de Psicologia
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