Uma das mesas mais aguardadas do congresso reuniu produtores que são referência nacional em sistemas orgânicos para compartilhar experiências concretas de produção, inovação e manejo sustentável no campo. Realizada nos Auditórios 1, 2 e 3 e mediada por Fabio Ramos, diretor técnico do Instituto Brasil Orgânico, a sessão trouxe exemplos práticos de como conhecimento científico, experimentação e visão de longo prazo têm transformado propriedades agrícolas em modelos de sustentabilidade e eficiência produtiva.
A proposta da mesa foi aproximar pesquisa, inovação e prática agrícola, convidando produtores a apresentar não apenas os resultados de suas experiências, mas também os caminhos percorridos para chegar até eles. Entre os pontos abordados nas apresentações estiveram as técnicas que geraram melhores resultados nas propriedades, os fatores que motivaram a adoção dessas práticas, as lições aprendidas ao longo do tempo, e a forma como se estabelecem parcerias com universidades, pesquisadores e consultores. Outro aspecto destacado foi a importância da experimentação dentro das próprias propriedades, com equipes desenvolvendo testes e adaptações diretamente no campo.
Cada produtor teve cerca de 20 minutos para apresentar sua experiência, seguidos por um momento de perguntas e interação com o público, que aproveitou a oportunidade para aprofundar questões técnicas e trocar impressões sobre os desafios e oportunidades da produção orgânica no Brasil.
Entre os casos apresentados, destacou-se a experiência da Fazenda Nutrilite Brasil – Amway, apresentada por Eder Paulino. Localizada em Ubajara, no Ceará, a propriedade possui 250 hectares dedicados ao cultivo de acerola e é considerada a maior fazenda orgânica e biodinâmica de acerola do mundo. A produção é voltada à obtenção de vitamina C natural utilizada em suplementos alimentares, e combina práticas sustentáveis como o uso de compostos orgânicos, reaproveitamento de resíduos agrícolas e sistemas eficientes de irrigação. A fazenda também desenvolve iniciativas sociais com a comunidade local e mantém parceria com mais de cem produtores da região, consolidando um modelo de produção que integra ciência, natureza e desenvolvimento regional.
Outro exemplo inspirador veio da Fazenda Malunga, apresentado por Joe Valle, pioneiro da produção orgânica no Brasil. Localizada a cerca de 70 quilômetros de Brasília, a propriedade tornou-se uma referência nacional ao desenvolver um sistema integrado de produção orgânica, que combina horticultura, fruticultura e produção de laticínios. A fazenda cultiva mais de trinta e cinco espécies de hortaliças e legumes, além de produzir alimentos como queijos, iogurte natural e kefir, distribuídos em cerca de setenta pontos de venda. Um dos pilares do sistema produtivo é o manejo do solo por meio da compostagem com esterco e urina dos animais, combinados com serragem e pó de rocha, fortalecendo a fertilidade do solo e a saúde das plantas. O uso de biofertilizantes e manejo nutricional específico para cada cultura também foi apontado como fator determinante para a produtividade e qualidade dos alimentos.
A mesa também apresentou o caso da Raiar Ovos Orgânicos, em exposição feita por Luis Barbieri. A empresa, localizada em Avaré (SP), tem se destacado pela combinação entre bem-estar animal e inovação tecnológica. As galinhas são criadas em sistemas que priorizam a liberdade de movimento e o comportamento natural das aves, e a empresa adotou uma tecnologia inédita no Brasil para sexagem de ovos, que permite identificar o sexo do embrião ainda no ovo, evitando a prática de descarte de pintinhos machos após o nascimento. A empresa também desenvolveu uma linha de ovos pasteurizados, incluindo claras e gemas separadas, ampliando o valor agregado do produto. Entre as inovações apresentadas está o uso do Jumpst, um equipamento importado da Holanda que funciona como um “playground” para as galinhas, estimulando atividade física e bem-estar. A alimentação das aves é baseada em grãos orgânicos produzidos por parceiros, e a empresa mantém iniciativas de pesquisa por meio do Instituto Folio, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos, voltadas ao desenvolvimento de grãos orgânicos, bioinsumos e fertilizantes naturais.
Durante toda a sessão, o público acompanhou com grande interesse as experiências apresentadas. As perguntas levantadas ao final das palestras demonstraram a busca por soluções aplicáveis à realidade do campo, com produtores e pesquisadores interessados em compreender como adaptar essas práticas a diferentes contextos produtivos.
O debate reforçou uma mensagem central do congresso: a agricultura orgânica brasileira avança quando conhecimento científico, inovação tecnológica e experiência prática se encontram, criando soluções que fortalecem a produção de alimentos saudáveis, regeneram os ecossistemas e ampliam as oportunidades para agricultores em diferentes regiões do país.