Anderson Herzer, poeta transexual paranaense, construiu a maior parte de sua obra quando estava aprisionado em uma unidade feminina da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem) em São Paulo. Quase sem acesso a uma escolarização de qualidade e à uma formação literária, Herzer produziu sua poesia dentro de uma das principais instituições de controle e opressão da Ditadura Militar brasileira. Em um mundo em que vidas que não são estimadas, não possuem sua morte lastimadas, Herzer fez de sua escrita um pungente manifesto de reivindicação do direito ao luto e uma audaz afirmação das vidas marginalizadas.
Na televisão, o aguardo da cotação
um instante ocupado, para dizer morto João Ninguém
mas a aflição ataca, a cotação subiu ou caiu?
e João morreu... ninguém ouviu.
Eu vou distribuir panfletos,
dizendo que João morreu
talvez alguém se recordedo João que falo eu.
Trecho do poema "Mataram João Ninguém"
Herzer dizia que “um homem jamais morre, enquanto sua existência for recordada”. Seguindo seu ensinamento, nossa primeira Jornada de Poesia LGBT+ se inicia na afirmação da memória de Herzer. Anderson nasceu em 10 de junho de 1962 no município de Rolândia, no norte do Paraná. Depois de uma trajetória de abandono e negligência familiar, intensa violência institucional, encarceramento e transfobia, suicidou-se aos 20 anos, em 10 de agosto de 1982. Todavia, 56 anos após seu nascimento, a viva poesia de Herzer brota e viça intensa, como uma potente voz que bradava a luta pelos direitos das crianças e adolescentes marginalizadas e cantava a beleza do amor e do papel imprescindível dos poetas.
Seu único livro, A queda para o Alto contendo sua autobiografia e toda sua obra poética foi publicado em 1982 e se tornou um best-seller com várias edições e reimpressões, bem como inspirou o premiado filme Vera, dirigido e escrito por Sérgio Toledo em 1987.
O tema da morte e do direito ao luto percorria seus poemas. Para Herzer, a função do poeta era a preservação da própria vida, de modo que perder um poeta era perder a potência de significação de toda a existência. No poema A morte do poeta, ele escreve “Agora que as palavras de afeto se acabaram, / agora que não há mais amor em meu coração, / agora que sinto que todos morreram, / porque quem nos falava de amor, está partindo” e, no poema Esquecido poeta morto, afirma “Todos vão esquecer que um dia eu existi / nem meus vastos prantos vão sobreviver, / versos com poeira de minha razão / sãs lembranças de um poeta solidão.”
Esse melancólico poeta solidão, contudo, fez de sua vida um desacato poético diante do poder político do esquecimento – que faz a existência e a memória serem direitos somente de alguns. Em sua autobiografia, Herzer conta que em certo momento, o diretor da Febem se apoderou de suas poesias dizendo que iria publicá-las. Contudo, ao ver a capa do esboço do livro, percebeu que o diretor usaria as poesias para enaltecer a instituição que ele denunciava, apresentando-as como propaganda do resultado do suposto desenvolvimento cultural que a Febem possibilitava às adolescentes:
[...] tive uma discussão com o Sr. Humberto, porque pedi que ele devolvesse minhas poesias as quais ele havia pego, dizendo publicar um livro em meu nome. Mas quando vi o esboço da capa, o sangue fervia nas minhas veias pois ele me disse que não seria possível lançar um livro com meu nome enquanto eu permanecesse na FEBEM. Portanto, seria publicado em nome da FEBEM com o título: “Os menores escrevem”.
Trecho de "A queda para o Alto"
Nessa ocasião, Anderson Herzer conseguiu denunciar o fato para a presidente do Movimento de Defesa do Menor, Lia Junqueira. Lia apresentou Herzer para Eduardo Matarazzo Suplicy, na época Deputado Estadual, que não só intercedeu para a devolução dos poemas, como também para sua libertação da Febem. Herzer depois foi apresentado à Rosie Marie Muraro, da Editora Vozes, que propôs que a seus poemas fosse integrada uma autobiografia, resultando no livro Queda Para o Alto – lançado postumamente, após o seu suicídio.
Essa história mostra o esforço político de Herzer de inscrição da sua vida, obra e trajetória em uma memória coletiva e da reivindicação do direito de sua expressão artística e da garantia de registro de sua identidade e autoria em sua obra. A trajetória de Herzer e seu desacato à política de esquecimento ilumina a primeira Jornada de Poesia LGBT+, permitindo um movimento coletivo que afirma o lugar da poesia na significação e construção de um mundo onde todas as vidas importam, onde o amor pode brilhar livre nas relações, onde crianças e adolescentes não são marginalizadas e onde as identidades são reconhecidas e valorizadas como lugares de criação e beleza.
Felipe Areda
Instituto LGBT+