O aquecimento do planeta, o aumento de eventos climáticos extremos, o desenvolvimento tecnológico digno de ficções científicas, a sombra de uma extrema direita de contornos nazi-fascistas e as ameaças crescentes de uma crise econômica de nível global alimentam, em nossos dias, uma ansiedade constante – a sensação de que algo está para acontecer e, que dessa vez, não haverá retorno. Predomina, portanto, a impressão de que estamos diante de um contexto sem precedentes e que o “fim” está cada dia mais próximo.
Mas o que a História tem a nos dizer sobre isso?
Bem sabemos que a História, enquanto campo de conhecimento, não somente narra o passado, mas projeta sobre ele as angústias e as percepções de seu presente. Nesse sentido, o XIII EPHIS pretende “Narrar o Tempo do Fim”. O objetivo é resgatar e construir histórias e historiografias de rupturas, analisar escatologias e conhecer outros fins do mundo. O evento deste ano propõe um debate historiográfico sobre como a ideia de “fim” tem sido historicamente registrada, percebida e ressignificada ao longo do tempo. Pretende-se problematizar como diferentes sociedades, em momentos de ruptura, mobilizam (e mobilizaram) narrativas escatológicas para expressar, mais do que o temor do desaparecimento do mundo em si, o pavor da transformação do mundo tal como o conheciam.
Assim, argumentamos como a ansiedade do fim em um futuro próximo, ou nem tanto, não é exclusiva do presente. E pretendemos demonstrar como, em sua especificidade, diversos indivíduos, grupos e sociedades, ao longo da história, experienciaram momentos de transição e ruptura que foram interpretados como o fim de um tempo ou como fim do tempo em si.
Chinua Achebe retratou o impacto da colonização europeia sobre os Igbo na Nigéria: a dissolução de um universo social e cultural como um mundo que se despedaça. De forma semelhante, os povos Yanomami experienciam o contato com os brancos e com a mineração e o garimpo de ouro não apenas como um fenômeno econômico, mas como um colapso de seu cosmo, uma "queda eminente do céu", conforme descrito por Davi Kopenawa e Bruce Albert. Antes de se configurarem como exceções, esses exemplos se colocam ao lado de outros momentos históricos que também foram vivenciados como "fins de mundo". A perspectiva dos povos indígenas sobre chegada dos europeus na América e o início dos conflitos pelo território; os judeus diante do Holocausto; o Império Romano diante da sua dissolução; os pregadores medievais diante da Modernidade – tudo isso são indícios de como fenômenos extremos ou mesmo a ruptura de tempos históricos foram percebidos em muitos momentos como o “fim” de tudo o que conhecemos. Assim, em nossa proposta, a escatologia deve ser compreendida enquanto um recurso narrativo que não apenas descreve o "fim dos tempos", mas também o “fim” de uma ordem estabelecida.
Gostaríamos que essa temática também suscitasse reflexões sobre nosso campo disciplinar e seu papel em momentos como esse. Inclusive para rejeitar ou, ao menos, problematizar “o fim da História”. Francis Fukuyama ao propor o fim da história como o triunfo da democracia liberal, ignorava os desdobramentos políticos que revelaram novas crises globais. Em contrapartida, Walter Benjamin, em suas "Teses sobre o Conceito de História", rejeitava a ideia de um progresso linear, enfatizando como rupturas históricas e desastres fazem parte da trajetória humana. Ao “Narrar o Tempo do Fim”, nos propomos a ampliar as possibilidades históricas do nosso tempo, enfatizando a efemeridade do nosso presente, sujeito a acabar, aparentemente, de forma tão abrupta quanto começou.Dessa forma, a escatologia contemporânea – expressa nas crises climáticas, na virtualização das relações sociais e na ascensão de autoritarismo tipicamente capitalista – deve ser compreendida não como um “fim” absoluto, mas como um reflexo das angústias e das transformações do presente.
Por fim, com o tempo do “fim do tempo”, nos propomos a pensar mais detidamente sobre o tempo em si. Os agentes históricos constroem, além de seu tempo, o próprio tempo e de forma dialética são construídos eles mesmos pelo tempo que construíram. Um tempo com um fim definitivo pressupõe a linearidade implicada na visão ocidental do tempo como um fluxo progressivo; essa forma de conceber o tempo é, entretanto, apenas uma entre as várias possibilidades de lidar com a temporalidade. Frank Kermode analisa as “ficções do Fim”, ou seja, as “maneiras pelas quais, sob pressões existenciais diversas, imaginamos os fins do mundo” (sobretudo as apocalípticas antigas e modernas). Mircea Eliade discute como diversas sociedades não veem o tempo como um caminho irreversível, mas como um ciclo de renovação. Da mesma forma, Jacques Le Goff explora as percepções medievais do tempo, em que a história era compreendida sob uma dimensão teológica, e não puramente linear. Sociedades ameríndias, africanas e asiáticas apresentam concepções cíclicas ou não lineares do tempo. “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que lançou hoje”, diz um ditado yoruba. Ao questionar o tempo do fim, ou o tempo com fim, nossa proposta é perceber as potencialidades epistemológicas que novas percepções de tempo possibilitam para a Teoria da História.
Em suma, o XIII EPHIS, "Narrar o Tempo do Fim: História e Historiografias de Rupturas, Escatologias e dos Fins do mundo”, busca refletir sobre as diversas maneiras pelas quais os historiadores e agentes históricos percebem e narram (ou perceberam e narraram) os momentos de ruptura. Compreender a escatologia como um recurso narrativo permite analisar como diferentes povos e épocas enfrentaram as transformações de seu tempo. Além disso, problematizar a linearidade do tempo ocidental abre espaço para perspectivas históricas alternativas, ampliando o horizonte de interpretação das crises e das mutações contemporâneas.
Dessa forma, ao discutir os "fins do mundo" enquanto construções históricas, não apenas desmistificamos a ideia de um fim absoluto, mas também reafirmamos a História como um campo dinâmico, em constante revisão e ressignificação.
Ambicioso, nós sabemos. Mas quando é que o EPHIS não o foi?!
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