XIII EPHIS – Encontro de Pesquisa em História (2026) - UFMG

Narrar o Tempo do Fim: História e Historiografias de Rupturas, Escatologias e dos Fins do mundo

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De 11 a 15 de maio Todos os dias das 08h00 às 23h59

Sobre o Evento

O aquecimento do planeta, o aumento de eventos climáticos extremos, o desenvolvimento tecnológico digno de ficções científicas, a sombra de uma extrema direita de contornos nazi-fascistas e as ameaças crescentes de uma crise econômica de nível global alimentam, em nossos dias, uma ansiedade constante – a sensação de que algo está para acontecer e, que dessa vez, não haverá retorno. Predomina, portanto, a impressão de que estamos diante de um contexto sem precedentes e que o “fim” está cada dia mais próximo.

Mas o que a História tem a nos dizer sobre isso?

Bem sabemos que a História, enquanto campo de conhecimento, não somente narra o passado, mas projeta sobre ele as angústias e as percepções de seu presente. Nesse sentido, o XIII EPHIS pretende “Narrar o Tempo do Fim”. O objetivo é resgatar e construir histórias e historiografias de rupturas, analisar escatologias e conhecer outros fins do mundo. O evento deste ano propõe um debate historiográfico sobre como a ideia de “fim” tem sido historicamente registrada, percebida e ressignificada ao longo do tempo. Pretende-se problematizar como diferentes sociedades, em momentos de ruptura, mobilizam (e mobilizaram) narrativas escatológicas para expressar, mais do que o temor do desaparecimento do mundo em si, o pavor da transformação do mundo tal como o conheciam.

Assim, argumentamos como a ansiedade do fim em um futuro próximo, ou nem tanto, não é exclusiva do presente. E pretendemos demonstrar como, em sua especificidade, diversos indivíduos, grupos e sociedades, ao longo da história, experienciaram momentos de transição e ruptura que foram interpretados como o fim de um tempo ou como fim do tempo em si.

Chinua Achebe retratou o impacto da colonização europeia sobre os Igbo na Nigéria: a dissolução de um universo social e cultural como um mundo que se despedaça. De forma semelhante, os povos Yanomami experienciam o contato com os brancos e com a mineração e o garimpo de ouro não apenas como um fenômeno econômico, mas como um colapso de seu cosmo, uma "queda eminente do céu", conforme descrito por Davi Kopenawa e Bruce Albert. Antes de se configurarem como exceções, esses exemplos se colocam ao lado de outros momentos históricos que também foram vivenciados como "fins de mundo". A perspectiva dos povos indígenas sobre chegada dos europeus na América e o início dos conflitos pelo território; os judeus diante do Holocausto; o Império Romano diante da sua dissolução; os pregadores medievais diante da Modernidade – tudo isso são indícios de como fenômenos extremos ou mesmo a ruptura de tempos históricos foram percebidos em muitos momentos como o “fim” de tudo o que conhecemos. Assim, em nossa proposta, a escatologia deve ser compreendida enquanto um recurso narrativo que não apenas descreve o "fim dos tempos", mas também o “fim” de uma ordem estabelecida.

Gostaríamos que essa temática também suscitasse reflexões sobre nosso campo disciplinar e seu papel em momentos como esse. Inclusive para rejeitar ou, ao menos, problematizar “o fim da História”. Francis Fukuyama ao propor o fim da história como o triunfo da democracia liberal, ignorava os desdobramentos políticos que revelaram novas crises globais. Em contrapartida, Walter Benjamin, em suas "Teses sobre o Conceito de História", rejeitava a ideia de um progresso linear, enfatizando como rupturas históricas e desastres fazem parte da trajetória humana. Ao “Narrar o Tempo do Fim”, nos propomos a ampliar as possibilidades históricas do nosso tempo, enfatizando a efemeridade do nosso presente, sujeito a acabar, aparentemente, de forma tão abrupta quanto começou.Dessa forma, a escatologia contemporânea – expressa nas crises climáticas, na virtualização das relações sociais e na ascensão de autoritarismo tipicamente capitalista – deve ser compreendida não como um “fim” absoluto, mas como um reflexo das angústias e das transformações do presente.

Por fim, com o tempo do “fim do tempo”, nos propomos a pensar mais detidamente sobre o tempo em si. Os agentes históricos constroem, além de seu tempo, o próprio tempo e de forma dialética são construídos eles mesmos pelo tempo que construíram. Um tempo com um fim definitivo pressupõe a linearidade implicada na visão ocidental do tempo como um fluxo progressivo; essa forma de conceber o tempo é, entretanto, apenas uma entre as várias possibilidades de lidar com a temporalidade. Frank Kermode analisa as “ficções do Fim”, ou seja, as “maneiras pelas quais, sob pressões existenciais diversas, imaginamos os fins do mundo” (sobretudo as apocalípticas antigas e modernas). Mircea Eliade discute como diversas sociedades não veem o tempo como um caminho irreversível, mas como um ciclo de renovação. Da mesma forma, Jacques Le Goff explora as percepções medievais do tempo, em que a história era compreendida sob uma dimensão teológica, e não puramente linear. Sociedades ameríndias, africanas e asiáticas apresentam concepções cíclicas ou não lineares do tempo. “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que lançou hoje”, diz um ditado yoruba. Ao questionar o tempo do fim, ou o tempo com fim, nossa proposta é perceber as potencialidades epistemológicas que novas percepções de tempo possibilitam para a Teoria da História.

Em suma, o XIII EPHIS, "Narrar o Tempo do Fim: História e Historiografias de Rupturas, Escatologias e dos Fins do mundo”, busca refletir sobre as diversas maneiras pelas quais os historiadores e agentes históricos percebem e narram (ou perceberam e narraram) os momentos de ruptura. Compreender a escatologia como um recurso narrativo permite analisar como diferentes povos e épocas enfrentaram as transformações de seu tempo. Além disso, problematizar a linearidade do tempo ocidental abre espaço para perspectivas históricas alternativas, ampliando o horizonte de interpretação das crises e das mutações contemporâneas.

Dessa forma, ao discutir os "fins do mundo" enquanto construções históricas, não apenas desmistificamos a ideia de um fim absoluto, mas também reafirmamos a História como um campo dinâmico, em constante revisão e ressignificação.

Ambicioso, nós sabemos. Mas quando é que o EPHIS não o foi?!

Confira abaixo os editais para participação do EPHIS:


Edital Ouvinte
Edital de Submissão de Comunicação em Simpósio Temático
Edital de Submissão de Comunicação Livre


ATENÇÃO!!!
As inscrições para ouvinte e para os minicursos permanecerão abertas até a semana anterior ao evento. Entretanto, apenas as inscrições realizadas entre os dias 10/03/2026 e 23/04/2026 terão garantido o recebimento do kit do evento.

Programação

19h00 Conferência de Encerramento Encerramento
Local: UFMG – FAFICH Aguarde...
14h00 ST01 - Inquisição, poder episcopal e cultura religiosa no Império português na Modernidade Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Ângelo Adriano Faria de Assis, Pedro Tadeu de Castro Ribeiro e Arthur Brum dos Reis

Este Simpósio Temático procura conferir destaque a temas de crescente interesse na produção historiográfica contemporânea. Longe de se configurar como um campo homogêneo ou linear, a interação entre Inquisição e episcopado, enquanto esferas de poder, apresenta-se de forma heterogênea, marcada por sobreposições jurisdicionais, tensões institucionais, negociações e formas diversas de cooperação, constituindo-se objeto privilegiado para a compreensão da dinâmica política, social e religiosa de Portugal no Antigo Regime. O período entre os séculos XVI e XVIII, por sua vez, emerge como particularmente significativo, tendo em conta tanto o processo de conquista e colonização das possessões portuguesas na América quanto a criação e o fortalecimento dos mecanismos de vigilância, controle e disciplinamento das condutas individuais. Sobretudo ao longo do século XVIII, assistiu-se à ampliação da rede de agentes inquisitoriais e da ação do episcopado no espaço colonial, bem como à efervescência de manifestações classificadas como heterodoxas, a exemplo das práticas relacionadas à religiosidade popular e de outros comportamentos tidos como desviantes em relação às normativas eclesiásticas. Nesse sentido, o Simpósio Temático pretende viabilizar análises que explorem as múltiplas dimensões do fenômeno religioso, focalizando a ampliação das redes administrativas, os mecanismos institucionais do poder eclesiástico na vigilância moral e no disciplinamento das sociabilidades, seus agentes, seus discursos normativos e suas estratégias de intervenção social. Busca-se, igualmente, refletir sobre as experiências vividas por indivíduos e grupos alcançados pela ação dessas instâncias de poder, considerando as formas de apropriação, negociação, resistência e acomodação às normas pastorais vigentes. Ao privilegiar uma abordagem relacional entre Inquisição e episcopado, objetiva-se destacar as complexidades de uma interação marcada pela cooperação, conflito e complementaridade na constituição da cultura religiosa no mundo luso no decorrer da Modernidade, tanto em seus aspectos normativos quanto em suas práticas cotidianas.
14h00 ST02 – Percepções da cidade em transformação Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Kelly Alves Andrade e Maria Cecília Ferreira

Este Simpósio Temático tem como objetivo reunir pesquisas dedicadas ao estudo da experiência urbana em diferentes contextos de modernização que redefiniram a organização do tempo, do espaço e da vida nas cidades. Interessa-nos compreender como essas mudanças foram percebidas, narradas e registradas por distintas tipologias documentais, evidenciando dinâmicas materiais, sociais e simbólicas associadas ao desenraizamento dos citadinos e à reconfiguração de valores e referenciais locais ao longo dos séculos XIX e XX. As cidades em constante remodelação, marcadas por demolições, deslocamentos e reorganizações espaciais, constituem um campo privilegiado para a análise de produções visuais e textuais que elaboram novos sentidos sobre a vivência cotidiana. O recorte temporal prioriza processos de transformação urbana ligados à expansão capitalista a partir da segunda metade do século XIX, marcados pelo crescimento populacional nos grandes centros e projetos de reforma associados a ideais de progresso. Essas dinâmicas se relacionam à circulação de pessoas, artefatos e ideias que, ao longo do século XX, revelam seus limites e contradições em conjunturas que ultrapassam o continente europeu. Parte-se do entendimento de que a modernidade urbana constitui-se como um processo vivido e apropriado de maneiras distintas, conforme suas materialidades, espacialidades e historicidades, reforçando a relevância do exame comparativo dessas variações. Nesse sentido, tendo como horizonte os debates sobre modernidade e a vida nas cidades, este Simpósio Temático propõe compreender produções visuais e textuais como mediações capazes de revelar conflitos e contradições das sociedades em momentos de reformas e apropriação do território. A articulação entre tipologias documentais variadas possibilita alcançar repertórios semânticos ligados à experiência urbana em múltiplos regimes temporais, evidenciando sensibilidades e práticas associadas à modernidade. Serão bem-vindas investigações que mobilizem fotografias, obras de arte, filmes, registros arquitetônicos, ilustrações e materiais publicitários, assim como memórias, romances, manuais de etiqueta, manuais de decoração e impressos de circulação social e de moda. Esses vestígios documentais permitem acessar valores, percepções e sentidos atribuídos aos modos de viver na cidade em diferentes momentos históricos. O Simpósio Temático acolhe abordagens multimétodos e incentiva o diálogo da História com campos como a Sociologia, a Antropologia, as Artes e a Literatura, respeitando as especificidades de cada conjunto documental na elaboração das análises.
14h00 ST03 - O Medievo que Produzimos Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Carolina Minardi, Pedro Henrique Pereira Silva, Brenda Mayara Alves Ramos Lima e Júlia da Silva Helvécio

Este Simpósio Temático propõe reunir pesquisas voltadas à análise crítica da medievalística brasileira como campo historiográfico específico, marcado por tradições intelectuais, disputas teóricas, escolhas metodológicas e condicionantes institucionais que moldam a produção do conhecimento histórico sobre a Idade Média no Brasil. O objetivo é examinar os fundamentos teóricos, metodológicos e epistemológicos que estruturam esse campo, bem como seus limites, impasses e possibilidades de renovação. Parte-se do reconhecimento de que a medievalística brasileira se constituiu em diálogo intenso — e estruturalmente desigual — com matrizes europeias, implicando processos de recepção, tradução, apropriação e reconfiguração de paradigmas historiográficos. Nesse sentido, o Simpósio Temático busca problematizar tanto a consolidação de linhagens interpretativas quanto os movimentos recentes de renovação teórica e metodológica, atentando para as condições específicas de produção do conhecimento histórico em contexto periférico. Serão privilegiadas reflexões acerca das categorias mobilizadas na escrita da história medieval — como temporalidade, periodização, crise, continuidade, ruptura e teleologia — e dos regimes de historicidade subjacentes às narrativas produzidas no país. Interessa discutir os modos de explicação histórica adotados, os pressupostos teóricos que orientam a pesquisa e os impactos dessas escolhas na formação acadêmica e no ensino. Serão acolhidos trabalhos que abordem, entre outros eixos: a história intelectual da medievalística brasileira; debates teóricos e metodológicos no campo dos estudos medievais; circulação e apropriação de modelos historiográficos; problemas de narrativa e explicação histórica; relações entre pesquisa e ensino; desafios epistemológicos da produção historiográfica sobre a Idade Média no Brasil. O Simpósio Temático pretende constituir-se como espaço de debate historiográfico rigoroso, voltado ao adensamento conceitual e à reflexão crítica sobre os fundamentos da medievalística brasileira.
14h00 ST04 - Arquivos do fim: memória, crise e políticas de preservação na produção do conhecimento histórico Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Arlene Xavier Santos Costa, Andreia de Freitas Rodrigues e Priscila de Oliveira Dias do Couto

Narrativas sobre o “fim” atravessam diferentes épocas e sociedades, assumindo formas religiosas, políticas, ambientais, sanitárias ou culturais. Em contextos de crise e ruptura, intensificam-se determinadas temporalidades da crise e reorganizam-se os regimes de historicidade por meio dos quais o passado é mobilizado e o futuro projetado. Nessas conjunturas, a produção, a preservação e a circulação de documentos tornam-se dimensões centrais das disputas pela memória e das condições de possibilidade da escrita da história. Este Simpósio Temático propõe reunir pesquisas que investiguem a constituição, organização, preservação, destruição e difusão de acervos documentais em distintos contextos históricos. Parte-se da compreensão de que os arquivos — institucionais, privados, comunitários, digitais ou pessoais — não são instâncias neutras, mas espaços de seleção, silenciamento e legitimação, atravessados por políticas de preservação e por projetos de futuro. Interessa-nos acolher trabalhos que analisem experiências históricas de crise, transformação ou ruptura em diferentes temporalidades e espaços, considerando tanto processos de salvaguarda documental quanto dinâmicas de perda, censura, dispersão ou reconstrução de acervos. Serão bem-vindas abordagens oriundas de diversas subáreas da História — política, social, cultural, intelectual, ambiental, história do tempo presente, história pública e digital — bem como pesquisas da Arquivologia e de áreas afins que problematizem a produção documental do tempo presente e suas implicações para a historiografia. Ao situar os arquivos no campo político da produção de verdade e da legitimação institucional, pretendemos com este Simpósio Temático discutir como as sociedades narram seus possíveis fins e como as disputas pela memória definem o que poderá ser conhecido no futuro. Refletir sobre o “tempo do fim”, portanto, implica interrogar as práticas documentais que tornam esse fim narrável.
14h00 ST05 - Caminhos alternativos na historiografia Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Luiza de Almeida Carminati e Igor Giovanni Murta de Sousa

Desde a metade do século passado, assistimos a uma profunda transformação no campo da História, movimento que se intensifica na virada para o século XXI. Integrando-se a novas problemáticas colocadas pelo contexto atual, como a introdução de novas tecnologias e a preocupação com novas temáticas, como a crescente apreensão em relação ao colapso climático, por exemplo, vemos uma tendência de se afastar do que Peter Burke nomeou de o “paradigma tradicional” da História, isto é, a História como uma narrativa dos grandes acontecimentos e dos grandes homens, pautada no estudo de documentos em sua perspectiva mais conservadora, imbuída de uma pretensão de objetividade. Pensamos a fonte tradicional como aquela que é vinculada diretamente à escrita e a uma ideia de uma verdade histórica, uma evidência de um passado que existiu, mas que não é completamente alcançável. Em sua maioria, tratam-se de fontes escritas, sejam elas oficiais, de arquivos pessoais ou jornalísticas. Vemos, a partir dessas transformações no campo, o despertar de inúmeras novas abordagens, objetos de pesquisa e possibilidades da escrita historiográfica. Diante disso, acompanhamos o uso mais frequente de fontes e abordagens não-tradicionais, que podem ser descritas como aquelas que não estão vinculadas exclusivamente à mídia escrita ou à análise documental. “Novas mídias” como música, cinema, televisão, fotografias, podcasts, jogos digitais podem ser consideradas fontes não-tradicionais, principalmente pelo seu aspecto majoritariamente ficcional. A reconstrução de um período histórico através dessas mídias apresenta um olhar diferente para a História, uma vez que são percepções, sensibilidades e recortes que não podem ser traduzidas apenas no escrito. O Simpósio Temático pretende, portanto, tratar de experimentos com a História e narrativas sobre o passado, sejam elas ficcionais ou não. Assim, pretendemos acolher e discutir trabalhos que se voltam para as representações do passado construídas através do olhar de um ou mais indivíduos. Esperamos trabalhos que se voltem para fontes que chamaremos de não-documentais. Estas fontes se distanciam da concepção de fonte tradicional e, apesar de não reconstruírem o passado como ele era — a exemplo da ficção histórica —, nos mostram determinadas visões sobre esse passado a partir de olhares específicos. Buscamos também trabalhos que pensem as diferentes temporalidades — sobretudo temporalidades não-ocidentais –, as discussões sobre o Antropoceno e o pós-humanismo, as distopias, a crescente sensação de apreensão em relação ao futuro, mediante à crise climática, à desagregação de paradigmas explicativos da realidade e à ascensão do autoritarismo. Especialmente, procuramos pesquisas que combinem as duas abordagens.
14h00 ST06 - As recepções da(s) antiguidade(s) em distintas temporalidades Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Laís Pazzetti Machado e Isabela Neves Campiolo

A área de estudos de recepção vem crescendo em franca expansão no Brasil. A sua proposta é, como colocou Charles Martindale, buscar estabelecer um diálogo trans-histórico, caracterizado pelo reconhecimento de que o passado não é uma relíquia que chega até nós carregando um sentido imanente, que espera para ser desvendado. Pelo contrário, os seus sentidos (pois são múltiplos) são construídos em uma via de mão dupla que envolve o contexto da fonte e os contextos de recepção: trata-se de um processo criativo, em que os contextos de recepção partem das suas visões de mundo, moldadas por aspectos intelectuais e materiais, para atribuir sentidos a uma fonte, enquanto ela própria informa sobre o mundo em que foi criada e sobre o que pode ser encontrado em seu ínterim. A construção de sentidos, assim, atravessa o tempo e estabelece diálogos entre diferentes passados e presentes. A riqueza desses diálogos dá sempre ensejo a discutir as reinterpretações das fontes e o que elas dizem sobre as realidades dos contextos que as reinterpretam: basta pensar na adaptação cinematográfica da Odisseia idealizada por Christopher Nolan, que será lançada neste ano e que, meses antes de sua estreia, já suscitou debates dos mais diversos. Com isso em mente, propomos que este Simpósio Temático seja um espaço para debater recepções da antiguidade partindo de perspectivas plurais, incluindo tanto as abordagens teóricas mais tradicionais, como da recepção e dos usos do passado, quanto mais recentes, como as propostas pelos termos allelopoiesis e omni-local. Estimulamos, ainda, diálogos focados não apenas na antiguidade greco-romana, mas também em antiguidades orientais e africanas, de maneira a possibilitar uma troca de conhecimentos que evidenciem as dinâmicas da construção do saber histórico, em especial sobre os imaginários a respeito do passado e as circunstâncias políticas, culturais, econômicas, sociais, dentre outras, que contribuem para que eles sejam formados.
14h00 ST07 - Práticas e instituições de ensino na América Latina: diálogos entre o transnacional e o nacional na história contemporânea Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Stella Gontijo e Taciana Garrido

Este Simpósio Temático possui o duplo interesse de reunir pesquisas voltadas para a análise do papel político-social das instituições de ensino (IE) básico e de ensino superior; e trabalhos que abarcam reflexões sobre narrativas e propostas didáticas voltadas ao ensino, em especial o ensino da História da América Latina na contemporaneidade (séculos XIX a XXI). O objetivo é refletir sobre como diferentes projetos institucionais moldaram interpretações, narrativas e abordagens pedagógicas acerca da experiência histórica latino-americana; bem como sobre os usos políticos e culturais na formação escolar e universitária do passado e do presente na região. Parte-se da compreensão de que o ensino de História da América Latina não é neutro ou homogêneo, mas que se constituiu e segue em transformação como campo de disputas simbólicas e institucionais, atravessado por projetos nacionais, ideários integracionistas e influências transnacionais. Ao mesmo tempo, compreendemos que esse problema também atinge as instituições de ensino, que se organizam ao redor de projetos acadêmico-pedagógicos e estruturas burocráticas que refletem interesses não só individuais. No caso das IE públicas, elas atendem a interesses políticos e econômicos das elites dirigentes, estando em permanente disputa. Nesse sentido, são bem-vindas propostas de comunicação que naveguem na interface entre educação, universidades e práticas pedagógicas, que discutam como currículos, livros didáticos, programas universitários, reformas educacionais e políticas públicas incorporaram ou silenciaram temas como colonialismo, independências, formação dos Estados nacionais, imperialismo, revoluções, ditaduras, movimentos sociais, questões étnico-raciais e de gênero e integração regional. Ao articular História Intelectual, História da Educação e debates contemporâneos sobre didática no ensino de História, o Simpósio Temático pretende analisar a universidade e a escola como espaços de produção e difusão de narrativas sobre a América Latina, compreendendo-as como arenas de disputas epistemológicas e políticas. Interessa-nos conhecer pesquisas tanto sobre a circulação de ideias e modelos pedagógicos entre países latino-americanos quanto sobre as experiências locais de apropriação, adaptação e resistência. Serão especialmente bem-vindas pesquisas que examinem iniciativas institucionais voltadas à integração acadêmica e curricular na região, bem como experiências de construção de currículos latino-americanistas, produção de materiais didáticos, projetos de extensão e formação de professores comprometidos com uma perspectiva crítica e situada no Sul Global. Ao enfatizar os diálogos entre o nacional e o transnacional, o Simpósio Temático pretende contribuir para o debate sobre o lugar da América Latina no ensino de História e, na contraface, o papel das instituições de ensino para a disputa de soberania e integração regional, problematizando hierarquias epistemológicas e propondo reflexões que valorizem conexões regionais, pluralidade de sujeitos e integração latino-americana como horizonte político e pedagógico.
14h00 ST08 - Depois do fim, a imagem: imagens e mundos que insistem Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Carolina Pimentel Souza e Gabriel Nunes da Silva

Historicamente, o arquivo se pautou por uma lógica colonial, tendo fetiche pelo escrito, pela cultura letrada, pelo guardar e registrar, delimitando quem merece ser lembrado, o que merece ser preservado, o que é passível de História ou não. Ao considerarmos culturas não ocidentais, como as populações indígenas e afro-diaspóricas, em que a letra manuscrita não é o meio primordial de inscrição e disseminação de seus múltiplos saberes, devemos fazer um alargamento sobre as nossas concepções daquilo que pode-se ter como fonte de investigação. Quando pensamos que a imagem não é apenas replicar formas acabadas, que ela não é apenas a manifestação daquilo que vemos, mas também torna visível o invisível, podemos perceber a imagem como mediadora entre universos anteriormente ignorantes uns dos outros. Por meio desse processo, a imagem serve como um vislumbre do outro desconhecido, das suas relações com os seres que convivem, que não eram percebidos previamente; ela apresenta o potencial de mostrar outras perspectivas sobre a existência. Por isso, muitas vezes a imagem pode nos apresentar vislumbres de fins de mundo que não são necessariamente novos para os outros e por muito tempo foram e continuam sendo adiados, mas que agora são visíveis para nós. Esses fins são adiados por meio de relações com seres que não enxergamos, que nos afastam e cuja existência é ignorada, mas cuja participação é essencial e que, por meio da arte, da imagem, por vezes se tornam visíveis para nós. Ela permite também que sejam apresentados e ressaltados outros seres que antes eram invisíveis, mas com os quais outros já se relacionavam e cultivavam relações, expandindo as limitações que se dá a relação e agência dos outros. Além disso, a imagem permite formas de expressão outras que não a escrita, possibilitando que outros caminhos, relações e manifestações se tornem visíveis. Por permitir essas formas de expressão, a imagem revela no invisível o desconhecido, gerando vislumbres de outros mundos, suas existências e seus fins. As outras formas de expressão que são possibilitadas pela arte permitem um acesso mais diverso a esses mundos, considerando expressões para além da escrita, inclusive sendo capazes de transpor barreiras linguísticas que poderiam existir, permitindo maior diálogo. A arte, a imagem, o cinema, e tudo aquilo que faz parte na cultura visual, entram nesse escopo de outras possibilidades para a compreensão de histórias plurais, universos outros. Tem-se como movimento na História a urgência de considerar fontes visuais para além da análise iconográfica, estabelecida por muito tempo como metodologia principal para a análise de produções visuais na História, mas sim uma análise que leve em consideração os sussurros, as reivindicações, o invisível que essas produções impõem. Uma análise que compreenda o poder dessas produções de ativar sensibilidades, de criar mudanças efetivas diante os subjugados, de apresentar uma narrativa e de ativar o pensamento histórico. Esse Simpósio Temático convoca trabalhos que dissertem sobre produções visuais, registros, arquivos e suas relações com a Teoria da História, sobre produções imagéticas de povos que por vezes foram deixados de fora dos arquivos oficiais, dos registros arquivados e do foco historiográfico, como também aquelas presentes nos acervos, arquivos e espaços museais. São bem-vindos trabalhos que exploram a fotografia, o cinema, as artes plásticas, as imagens de arquivos e vernaculares e arte digital, bem como os arquivos e acervos e suas interfaces com a memória e a História.
14h00 ST09 - Modos de governar os povos na Idade Moderna (séculos XV a XIX) Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Júlia de Cássia Silva Cassão e Luciano César da Costa

Este Simpósio Temático tem por objetivo acolher debates acerca do período compreendido como Idade Moderna. Esta época histórica, aqui entendida como aquela que se localiza entre meados do século XV e as primeiras décadas do século XIX, foi marcada por um grande processo de transformações, embora com a percepção de importantes permanências, que ainda hoje podem ser vislumbradas no chamado “mundo ocidental”. Na transição para a Modernidade, como a historiografia tem sustentado, surgiram novas perspectivas e arranjos da forma de fazer a política, governar os povos, mirar as culturas diversas e encarar as práticas econômicas, além de novas perspectivas e teorias que assentariam o viver dito moderno, apesar de ser possível entrever naquelas novidades marcas da “tradição”. É assim que as conhecidas reformas religiosas, o olhar sobre o “Novo Mundo”, bem como as ideias de Renascimento, mas também os governos monárquicos e republicanos podem ser melhor analisados. A conexão entre os quatro cantos do mundo, simbolizada pelos Impérios modernos, forjaria, portanto, novas formas de enxergar a realidade e costurar o entendimento sobre o “outro”, embora seja necessário afirmar que os homens e mulheres que viveram aquele tempo sabiam agir nas entrelinhas e contemplar o “passado” que não lhes era tão distante assim. Ou seja, entendemos que foi na relação entre o novo e o antigo que a Idade Moderna floresceu e é em razão desta abordagem pluralista que este Simpósio Temático buscará os seus proponentes. Debateremos temas que englobam diversas dimensões, pois é na eterna dinâmica entre os indivíduos e a sociedade que lhes permitiu atuar no mundo que a História e a historiografia são construídas. Assim, neste longo arco temporal que compreende a Época Moderna e nos diversos espaços que se conectam a ela, chamamos os pesquisadores que se interessam pelo estudo do conhecido Estado Moderno e as tentativas de sua consolidação, pela visão das elites e demais corpos políticos, bem como pelos esforços da pretensa centralização do poder, calcadas no ideal do bom governo, e as estratégias dos sujeitos, ligadas às especificidades do mundo colonial, de fuga à legislação e centradas no universo dos desgovernos e das ilicitudes, da confusão entre o público e privado, das redes clientelares e, é claro, dos costumes. Interessa-nos também dialogar com os estudiosos com trabalhos em diferentes estágios que tratem das práticas culturais da época, que não se afastam das religiosidades, embora tenham pensado além dela, posto que as Luzes, as revoltas, os radicalismos, as heterodoxias e as utopias também perfizeram este período, as quais, no limite, dariam os rumos do alvorecer da Contemporaneidade. Enfim, os modos de governar os povos na Idade Moderna só podem ser deslindados se soubermos enxergar a contrapelo, ou seja, entendendo que os governados também agiram nos espaços de poder.
14h00 ST10 - A instabilidade do texto: ironia, ambivalência e circulação de sentidos na literatura Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Alessandra Nóbrega Monteiro e Douglas Pereira Diniz

A proposta deste Simpósio Temático visa reunir pesquisas que tomem obras literárias como objetos privilegiados de análise, especialmente aquelas marcadas pela ironia, ambivalência, duplo sentido e outras estratégias narrativas que produzem instabilidade de significado, como ambiguidade, polifonia, narradores “não confiáveis” ou formas oblíquas de crítica. Interessa ao Simpósio Temático acolher investigações que examinem como essas formas narrativas polivalentes operam como instrumentos de tensionamento e desestabilização de discursos hegemônicos, sejam eles históricos, sociais, políticos ou culturais, nos contextos aos quais tais obras se vinculam. Ao evitar o confronto direto e a oposição explícita ao status quo, essas narrativas constroem modos sutis e eficazes de crítica, fazendo da instabilidade de sentido uma ferramenta central de subversão discursiva. Nosso objetivo é promover um espaço de debate interdisciplinar dedicado à análise e recepção literárias, evidenciando a literatura como campo dinâmico de negociação de sentidos. Nesses termos, o Simpósio Temático dialoga com temas clássicos dos estudos literários e da história cultural, como autoria, representação, recepção e perspectivas da história do livro e da leitura. Assim, propõe-se discutir não apenas os procedimentos formais que estruturam narrativas irônicas e ambivalentes, mas também os percursos históricos de consagração, silenciamento, reapropriação e disputa interpretativa dessas obras ao longo do tempo. Partimos da premissa de que textos literários identificados pela polivalência de sentido tendem a ser continuamente revisitados na medida em que seus horizontes de leitura se transformam conforme os contextos históricos, políticos e culturais de seus leitores. Ao enfatizar a historicidade da leitura, o presente Simpósio Temático busca compreender como a recepção de obras literárias ambivalentes revela rupturas e continuidades nos modos de interpretação de um texto. A relevância deste Simpósio Temático fundamenta-se no reconhecimento de que obras literárias estruturadas a partir da instabilidade de sentido ocupam um lugar singular na história cultural, justamente por sua capacidade de sobreviver a contextos históricos diversos e de gerar interpretações múltiplas que são, por vezes, conflitantes. São narrativas que mobilizam estratégias de crítica que exigem do leitor um trabalho interpretativo historicamente situado, tornando a recepção um elemento central para a compreensão de seus sentidos. Nesse processo, evidencia-se o potencial ambivalente da literatura como arquivo sensível das contradições sociais, na medida em que diferentes contextos históricos podem reativar, deslocar ou mesmo neutralizar o potencial crítico dessas obras. Serão especialmente bem-vindas comunicações que proponham análises de obras literárias, nacionais ou estrangeiras, em diálogo com as investigações sobre suas trajetórias de leitura e recepção no percurso da história.
14h00 ST11 - Encruzilhadas Ultramarinas: indivíduos, poder e instituições no Atlântico Ibérico (séculos XVI ao XIX) Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Arthur Assunção Costa, Thaís do Nascimento Gonçalves e Ana Clara Alves Reis

Este Simpósio Temático propõe uma reflexão sobre as configurações sociais e as dinâmicas de poder que estruturaram os impérios ibéricos entre os séculos XVI e XIX. A partir do referencial teórico-metodológico do “Antigo Regime nos Trópicos” e da História Conectada, busca-se analisar as monarquias ibéricas como corpos políticos corporativos e polissinodais. Partimos do princípio de que as periferias ultramarinas integradas em redes que conectavam os impérios da Península Ibérica a espaços continentais na América e na África, bem como a enclaves estratégicos no Índico e no Extremo Oriente, não eram meras receptoras de ordens, mas partes ativas de uma governação à distância. Buscaremos nos apoiar em aspectos estruturantes da sociedade, com foco no campo da política e suas instituições administrativas (Conselhos, vice-reinados, câmaras municipais). Interessa-nos a análise de uma cultura política baseada no pluralismo jurídico e na economia das mercês, nas quais a negociação de privilégios, foros e hábitos de ordens militares funcionava como o cimento da fidelidade monárquica. A articulação entre a macroescala das decisões régias e a microescala do cotidiano colonial revela a agência de indivíduos que transitavam por diversas espacialidades do império, operando em diferentes escalas de poder. No âmbito da economia, a proposta busca superar a visão estrita do exclusivo comercial, privilegiando a análise das redes de comércio, crédito e parentesco que interligavam os oceanos Atlântico e Índico. Busca-se entender como o fluxo de mercadorias e o tráfico de escravizados estavam imbricados em estratégias sociais de ascensão e manutenção de prestígio, conectando portos e gentes em circuitos globais. A religiosidade e a cultura (material e imaterial) são pensadas como mecanismos de reprodução social e diferenciação. A atuação da Igreja, o papel das irmandades leigas e as práticas devocionais são analisados como espaços de sociabilidade e afirmação de hierarquias estamentais em todo o mundo ibérico. Da mesma forma, a circulação de objetos, saberes técnicos e impressos demonstra a porosidade das fronteiras culturais e a ressignificação de valores europeus em contextos tropicais e asiáticos. O Simpósio Temático visa reunir pesquisas que abranjam desde a consolidação das estruturas do Antigo Regime até as suas transformações e persistências durante a transição para a modernidade oitocentista. O objetivo é contemplar trabalhos que analisem tanto a estabilidade das redes de indivíduos ao longo dos séculos quanto os impactos das reformas e crises que redesenharam os mundos conectados pelas monarquias ibéricas.
14h00 ST12 - Culturas Políticas nos séculos XX e XXI: conflitos, rupturas e experiências históricas Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Daiane da Silva Vicente, Gabriel Pereira Nascimento e George Daniel Rodrigues Fonseca

Este Simpósio Temático visa partir da perspectiva dos estudos em História Política voltados à análise de processos históricos marcados por conflitos, crises e transições de regimes ao longo dos séculos XX e XXI, com foco no Ocidente e nas rupturas e conflitos por ele causados, considerando a política como um campo de disputas permeado por práticas, representações e valores compartilhados, isto é, por diferentes culturas políticas. O estudo da participação política e dos processos eleitorais possibilita a inclusão de uma diversidade de sujeitos históricos, tanto pertencentes às elites quanto às classes subalternizadas. Essa abordagem permite compreender a atuação de distintos agentes históricos a partir de suas inserções sociais, culturais e políticas, reconhecendo a esfera pública como um espaço de disputas no qual homens e mulheres atuam de forma ativa, atravessados por marcadores de gênero, classe e raça. Nesse sentido, o presente Simpósio Temático busca acolher pesquisas que tenham como objeto de estudo trajetórias, partidos políticos, ditaduras, regimes autoritários e democráticos, imprensa, bem como movimentos políticos e sociais, atentando para as múltiplas formas de participação e ação política. Sob uma perspectiva interseccional, pretende-se compreender as interpretações que esses sujeitos e organizações elaboraram sobre o seu próprio tempo, assim como o impacto de suas intervenções políticas na sociedade de então e suas reverberações no presente.
14h00 ST13 - Mulheres negras em movimento: trajetórias, intelectualidades e educação Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH Coordenadores: Fernanda de Araújo Oliveira e Ayana Omi Amorim de Oliveira

O presente Simpósio Temático propõe a construção de um espaço de interlocução acadêmica voltado à compreensão dos movimentos históricos, políticos e epistemológicos protagonizados por mulheres negras na diáspora africana em território brasileiro. Parte-se da área de estudos da História das Mulheres Negras, em articulação direta com a História Social, História das Relações de Gênero e o campo da Educação. Diante disso, reconhecemos a importância dessas mulheres como sujeitas centrais na constituição da vida social e política, com papel fundamental no desenvolvimento de múltiplas formas de organização, produção de saberes e reexistência. Busca-se analisar a atuação das mulheres negras em diversos espaços de mobilização, englobando desde as práticas e saberes forjados por mulheres escravizadas até a presença em frentes feministas, na organizações dos movimentos negros, em movimentos culturais, quilombolas e sindicais, em frentes negras, nos movimentos sociais, nas universidades, nas redes sociais digitais e na educação. O potencial agregador deste Simpósio Temático estrutura-se justamente em sua abrangência temporal de longa duração: ao conectar dinâmicas do período da escravização aos séculos XX e XXI, o Simpósio Temático permite mapear a complexa genealogia da agência negra feminina, investigando as continuidades, rupturas e a constante reformulação de estratégias de luta e práticas educativas. A proposta justifica-se pela necessidade de visibilizar as histórias das mulheres negras enquanto sujeitas históricas que foram marginalizadas e consolidar uma historiografia que reconheça as mulheres negras como intelectuais e agentes políticas fundamentais. Espera-se fomentar um debate que não apenas recupere memórias silenciadas, mas que analise estratégias políticas e pedagógicas gestadas pela intelectualidade negra feminina em sua luta por cidadania e pelo direito de existir.
14h00 ST14 - Moral e estética na História: discursos, práticas e processos formativos em contextos de modernidade e ruptura Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Renata Garcia Campos Duarte, João Victor Jesus Oliveira Nogueira e Daniela Oliveira Ramos dos Passos

A relação entre moral e estética constitui importante dimensão na produção histórica das sensibilidades, dos valores sociais e das formas de organização da vida coletiva. Tais categorias não se restringem aos campos filosófico ou artístico; operam como dispositivos de regulação simbólica e social, perpassando projetos políticos, mobilizações religiosas, ordenamentos econômicos e dinâmicas educacionais. Em diferentes momentos de ruptura na experiência histórica, moral e estética emergem como linguagens por meio das quais se legitimam hierarquias, se constroem identidades e se formulam projetos de sociedade. O Simpósio Temático tem como objetivo analisar de que maneira discursos morais e regimes estéticos participam da constituição histórica de sujeitos e coletividades, considerando tanto a consolidação de matrizes hegemônicas quanto a emergência de formulações contra-hegemônicas. Interessa perceber como esses elementos se articulam às experiências das modernidades, inclusive em suas tensões e desdobramentos críticos, em diálogo com perspectivas que problematizam a colonialidade, a transmodernidade e as disputas em torno da produção de sentidos históricos. A relevância do tema decorre da necessidade de ampliar o olhar historiográfico sobre dimensões simbólicas que estruturam práticas sociais e institucionais, principalmente no que se refere aos processos educativos formais e não formais, às dinâmicas dos movimentos sociais e às formas de regulação cultural. Ao compreender moral e estética como categorias históricas, o Simpósio Temático contribui para deslocar abordagens normativas e evidenciar como valores, sensibilidades e padrões de representação participam da configuração das relações de poder. O Simpósio Temático acolherá trabalhos fundamentados em diferentes referenciais teóricos, desde que mantenham como eixo comum a problematização histórica das articulações entre moral, estética e formação social. Serão bem-vindas análises baseadas em múltiplas fontes, como documentos escritos, registros orais, imagens, práticas culturais, impressos, produções midiáticas e outros suportes que permitam examinar a elaboração histórica de discursos, sensibilidades e valores. Pretende-se, assim, reunir investigações plurais, articuladas em torno da temática. O Simpósio Temático destina-se a pesquisadoras e pesquisadores da História, da História da Educação e de áreas afins, e privilegia trabalhos que investiguem essas articulações em contextos latino-americanos e afro-diaspóricos, considerando as experiências históricas do Sul global.
14h00 ST15 - Áfricas em reflexão: disputas e transformações no Continente-mãe e em suas diásporas (XII- XXI) Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Rafael de Azevedo Silva, Júlia Soledade Caldas Saud Rodriguez e Thamires da Silva Souza

Este Simpósio Temático parte da premissa de que a experiência da catástrofe e extinção para as sociedades africanas transcende o horizonte da abstração escatológica para se consubstanciar em fraturas históricas de múltiplas dimensões, origens e temporalidades. Propomos compreender esses colapsos temporais e espaciais como catástrofes concretas e imaginárias que operaram em diversas escalas, desde o esgotamento sociopolítico e ambiental de antigas formações imperiais no continente, passando pela desestruturação demográfica e mercantil imposta pelas lógicas atlântica e índica, pelas as reformulações institucionais decorrentes da situação colonial e imperial e, por fim, chegando às utopias e à falência da era dos Estados-nação africanos. Sob essa ótica, o objetivo central deste Simpósio Temático é reunir pesquisadores interessados em examinar as variadas formas pelas quais essas crises e transformações foram intelectualmente elaboradas, politicamente tensionadas e socialmente rearticuladas em África e em suas diásporas. Nesse escopo, o Simpósio Temático acolhe trabalhos que questionem concepções idealizadas ou homogeneizadoras do passado pré-colonial, frequentemente mobilizadas como contraponto às narrativas coloniais de ausência ou atraso e propõe-se a analisar as tensões, disputas internas, hierarquias, conflitos e assimetrias que atravessavam aquelas formações políticas e que foram reelaboradas por diferentes sujeitos históricos. Interessa-nos compreender como essas dinâmicas internas produziram rearranjos institucionais e cosmológicos, bem como transformações nas linguagens de poder, evitando tanto a reprodução de leituras eurocêntricas quanto a romantização retrospectiva de passados concebidos como estáveis ou consensuais. Na mesma direção, nos opomos às visões do passado colonial e pós-colonial como meras periodizações, que reduzem a trajetória africana a uma condição de coadjuvante das experiências ocidentais. No que se refere às mudanças e ressignificações estruturais geradas pela situação colonial, diversas sociedades africanas lidaram com intensas rupturas, obrigadas a negociar e a se reelaborar diante de condições assimétricas que alteravam da natureza ao social. Assim, entendemos que a iminência ou a concretização das catástrofes operaram como catalisadores de importantes viradas epistemológicas. Nosso interesse reside em iluminar os processos mediante os quais diferentes atores mobilizaram práticas políticas, institucionais e de letramento histórico, não apenas para sobreviver à ruína, mas também para forjar novas gramáticas sociais e políticas Nosso espaço, por fim, acolhe investigações que contemplem desde as reconfigurações de poder em recortes temporais mais recuados, examinando as cosmologias e os impactos das expansões internas, passando pelas disputas e reestruturações no período colonial e por suas transformações posteriores durante e após os processos de independência, bem como pelas histórias entrelaçadas do Continente Mãe e de suas diásporas.
14h00 ST16 - O corpo feminino em tempos de crise: as disputas sobre o gênero, os sentidos, os fluídos e as representações do materno entre a modernidade e o mundo contemporâneo Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Denise Cardoso Soares dos Santos e Luisa Padua Zanon

Historicamente, a posição das mulheres e o controle da maternidade foram alvos de tensões e disputas que perpassam aspectos religiosos, sociais e políticos, amparados por uma lógica androcêntrica. Face à pluralidade de narrativas, sujeitos e particularidades sediadas pelo tempo e espaço, a literatura foi uma das responsáveis por externalizar ou encobrir a posição das mulheres em relação ao mundo. Desde as tragédias antigas marcadas por conflitos de parentesco até os romances do século XIX com teses cientificistas, defronta-se com um repertório no qual o corpo feminino e sua fisiologia tornam-se o centro de gravidade da narrativa. Nessas obras, evidencia-se, além da construção histórica da mulher e do gênero, as querelas em torno da apreensão do corpo feminino, muitas vezes reduzido à função reprodutiva a fim de reafirmar, ressignificar ou naturalizar hierarquias sociais. Sob esse prisma, construções culturais de maternidades podem ser apreendidas por meio de fontes históricas que versavam, textualmente, sobre o local das mulheres no decurso do tempo. A análise dessa temática pelas lentes da história contribui para ampliar a compreensão de como os corpos femininos e seus fluidos — como o leite e o sangue — foram, e ainda são, objetos de atenção, ojeriza e controle. As representações maternas, sejam elas idealizadas ou vilanizadas, podem constituir importantes pistas para melhor compreender tensões de gênero de cada contexto. Ao debruçar-se sobre a produção literária com rigor histórico, pode-se encara-lá não como reflexo da “natureza” feminina e materna, mas enquanto parte de discursos que naturalizam relações que são, em essência, historicamente construídas. Ao ater-se a essa dimensão, propõe-se aqui um Simpósio Temático destinado a refletir sobre as obras literárias, artísticas e filosóficas, cinematográficas e visuais que permeiam o corpo feminino e as disputas sobre os sentidos do materno. Ao reunir pesquisadoras e pesquisadores das ciências humanas e dos estudos literários, históricos e político-sociais, fomenta-se um debate interdisciplinar sobre o discurso feito sob e sobre o corpo feminino. Trabalhos que tangenciam o âmbito da maternidade, do casamento e da dominação masculina favorecem um olhar para como a literatura e a história versaram sobre as mulheres, indicando ainda como se forjava uma dada percepção social, política, médica e religiosa desses sujeitos. Nessa ótica, serão aceitos trabalhos atrelados aos mais variados contextos, abrangendo, em especial, aqueles do século XVII ao XX, com destaque para comunicações que discutam as intersecções entre gênero, corpo e poder na passagem da modernidade para o mundo contemporâneo. Instiga-se ainda um interesse nas discussões que problematizem o local das mulheres nas mais diferentes formas discursivas, evidenciando as transformações nas percepções de gênero, sexualidade e feminilidade mediante tempo e espaço. Privilegiam-se temas como: representações da amamentação e/ou da menstruação; saberes médicos sobre os sexos; violência de gênero; intersecções entre gênero, raça e classe; narrativas femininas; e maternidade em tempos de crise. Pretende-se, assim, ampliar os debates epistemológicos sobre a experiência feminina, observando o corpo materno como território onde se narram as permanências e os fins de mundo.
14h00 ST17 - Experiências Históricas Negras: tempo, crise e elaboração de futuros possíveis Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Laura de Sousa Viana, Renato de Oliveira Ferraz, Bruno Egonu e Talita Gabriela de Oliveira Ribeiro

As narrativas de fim de mundo, colapso e crise atravessam diferentes temporalidades e sociedades, manifestando-se em transformações materiais e em disputas simbólicas em torno do tempo histórico e dos horizontes de futuro. No contexto contemporâneo, tais narrativas têm sido mobilizadas para interpretar fenômenos como o avanço de formas autoritárias de poder, a crise estrutural do capitalismo, a crise ambiental e o aprofundamento das desigualdades sociais e raciais, frequentemente apresentados sob o signo da irreversibilidade. No Brasil, a persistência da violência policial, que vitima majoritariamente jovens negros das periferias urbanas, evidencia continuidades históricas de controle social e negação de futuro, nas quais a violência de Estado atua como elemento estruturante da vida e do cotidiano. Em âmbito internacional, processos semelhantes podem ser observados nos Estados Unidos, nas mobilizações do Black Lives Matter contra a violência policial e nos conflitos envolvendo o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), evidenciando como a violência estatal produz experiências recorrentes de ruptura e colapso social. Historicamente, as disputas em torno do tempo histórico ganham centralidade em conjunturas de crise do capitalismo e do colonialismo, quando a intensificação das contradições sociais e da violência desestabiliza narrativas de continuidade e progresso, produz reconfigurações coletivas e impulsiona práticas culturais e projetos políticos que registram, figuram e reelaboram os conflitos em curso, projetando futuros em disputa. Este Simpósio Temático propõe reunir pesquisas que analisem experiências históricas negras a partir das categorias de ruptura, crise e horizonte de futuro, considerando práticas sociais e elaborações intelectuais, culturais e políticas produzidas por sujeitos negros em diferentes contextos históricos e articuladas a mobilizações antirracistas. Busca-se debater criticamente tradições historiográficas que privilegiaram paradigmas conciliatórios da formação nacional, destacando as experiências negras como centrais nos processos de desagregação de determinadas ordens sociais e na imaginação e construção de futuros possíveis. Encorajam-se comunicações que abordem, entre outros temas: resistências negras em suas dimensões políticas, culturais e territoriais; articulações entre raça, classe e gênero; violência de Estado e suas continuidades históricas; temporalidades não lineares; críticas às concepções harmônicas da formação nacional; usos políticos da memória; produções culturais como elaboração histórica de projetos de futuro; cosmovisões quilombolas e africanas como formas de organização social e de produção de alternativas ao modelo dominante; bem como debates historiográficos formulados a partir de perspectivas negras, afro-diaspóricas e contra-hegemônicas. Incentivamos também comunicações que abordem temas como as convergências e divergências entre movimento negro e as esquerdas com o objetivo de reconhecer as demandas do movimento negro a partir da perspectiva da luta antirracista. Nesse sentido, diálogos e interlocuções com autores e autoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento e Clóvis Moura, bem como correntes teóricas como os estudos pós-coloniais e decoloniais também são bem-vindos.
14h00 ST18 - Saúde e doença na História: entre ciência, tecnologia e sociedade Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Huener Silva Gonçalves, Polyana Aparecida Valente, Luana Fonseca da Silva Rocha e Elizabeth Valeria Rouwe de Souza

Seja vivenciada na experiência individual do câncer ou coletiva, como nas epidemias, a tensão saúde-doença esteve sempre ligada à luta pela vida desde a antiguidade. Doença e morte são encaradas como divindades relacionadas ao epitáfio da vida em várias religiosidades, como no apocalipse cristão. A tensão tem chamado a atenção dos historiadores, cientistas sociais, antropólogos e pesquisadores de outras ciências humanas como objeto de pesquisa, desde a segunda metade do século XX. O diálogo interdisciplinar entre ciências humanas e da saúde tem possibilitado aos historiadores compreender como se configuraram saberes tradicionais, conhecimentos e tecnologias em redes de atores e seus impactos em sociedades de épocas e espaços diversos, como, também, revelar aspectos sociais, políticos, culturais e dimensões de gênero e raça pouco explorados por vertentes mais tradicionais da historiografia. O campo de estudos em torno da problemática tem se ampliado e contribuído para renovar a pesquisa histórica no país, com a presença em eventos acadêmicos (como os simpósios da ANPUH), com grupos de trabalho (como o GT História da Saúde e das Doenças), publicações especializadas (como a revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos) e, sobretudo, com a disponibilização de acervos arquivísticos para pesquisa. Assim, este Simpósio Temático objetiva reunir trabalhos que abordam questões relacionadas ao papel do cientista, enquanto agentena estabilização dos conhecimento em torno da doença, pensada como fato científico, e na elaboração de pautas de políticas de saúde pública; da ciência nas pretensões geopolíticas; os processos de produção e apropriação do conhecimento científico, implicando na problematização do conceito de tecnociência, do modelo difusionista do conhecimento e a ênfase nos aspectos das recepções e ressignificações de conteúdos europeus em outras partes do globo; o papel de redes e instituições científicas, além do diálogo com a história global, transnacional, como vias metodológicas alternativas às análises de caráter nacionalista; e as contribuições metodológicas e teóricas dos Science Studies e dos Estudos CTS (Ciência, Trabalho e Sociedade). Percursos de pesquisa que priorizem o exame da relação saúde-doença e sua articulação com as narrativas de doentes, médicos e outros atores sociais, e a construção de subjetividades em espaços tradicionais e alternativos da saúde, estudos sobre a institucionalização de práticas e conhecimentos no campo (bio)médico, bem como discussões sobre a relação medicina, saberes tradicionais (abrangendo os relacionados a discursos populares e religiosos), ciência, tecnologia, saúde pública, gênero, raça e sociedade também fazem parte do escopo desse Simpósio Temático. Além disso, são bem-vindos debates sobre as relações público e privado, coletivo e individual nas práticas e experiências de saúde e doença. Por fim, espera-se contribuir para a ampliação de redes, de trocas de saberes e de reflexão quanto ao papel das pesquisas para além do mundo acadêmico e suas interações com o cotidiano e com os movimentos sociais.
14h00 ST19 - Escravidão, liberdade, religiosidades e dinâmicas de mestiçagens Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Igor da Silva Nunes, Letícia Maia Dias, Eduardo Julião Teixeira Santos e Antônio Gabriel Ferreira e Barros

Este Simpósio Temático tem por objetivo reunir pesquisadores(as), de diversos níveis, com pesquisas que englobam os temas da escravidão, liberdade e religiosidades e suas confluências com as dinâmicas de mestiçagens e das mobilidades sociais, enfocando o período entre os séculos XVI ao XIX, na Ibero-América e suas conexões globais. Com a crescente produção de trabalhos acadêmicos das últimas décadas, que tem destacado as mestiçagens culturais, religiosas e biológicas, pretendemos destrinchar a agência, o cotidiano e a classificação de indivíduos e grupos de todas as "qualidades" (pretos, crioulos, pardos, índios e etc.) e "condições" (livres, forros e escravos) que habitaram a Ibero-América, analisando suas práticas sociais, políticas, culturais, econômicas e religiosas nos ambientes urbanos, suburbanos e no campo. Através das mais variadas fontes documentais, como testamentos, inventários post-mortem, cartas e escrituras de alforria, compromissos de irmandade, dentre outros, almeja-se relacionar a atuação desses personagens com a temática proposta neste Simpósio Temático. Sendo assim, pretendemos reunir e debater pesquisas que tenham como eixo central indivíduos e grupos que viveram e habitaram essas terras em séculos passados e foram atravessados pelas dinâmicas de mestiçagens e/ou mobilidades sociais.
14h00 ST20 - Ensino e História: experiências, práticas docentes e pesquisa em História Simpósio Temático
Local: UFMG – FAFICH
Coordenadores: Laura Augusta Oliveira Palhares e Felipe Augusto Souza Costa

O ensino de História é compreendido como um dos pilares do pensamento histórico, constituindo-se como uma prática que perpassa diferentes ambientes, sujeitos e espaços ao longo de sua construção social e histórica. A prática docente lidou e continua lidando cotidianamente com o ambiente escolar, a comunidade escolar, o mercado profissional, editorial e de produção de saberes; ou seja, constitui-se em sua totalidade a partir da sociedade e em interação com ela, sendo fruto de suas temporalidades e espacialidades. A importância da articulação entre a pesquisa em História e a prática docente pode ser compreendida a partir da centralidade social que a educação histórica ocupa na formação das sociedades contemporâneas. Nesse sentido, torna-se fundamental compreender como essa educação foi produzida em outros momentos históricos, de que forma perpassa espaços mercadológicos e de pesquisa e como a prática em sala de aula esteve historicamente vinculada à produção acadêmica, aos intelectuais, aos livros produzidos, aos saberes e aos recortes selecionados pelos currículos ao longo do tempo. Assim, a reflexão acerca da relação entre História e ensino apresenta-se como um elemento central para a compreensão das formas de constituição de sociedades mais ou menos democráticas, considerando diferentes espaços e temporalidades. O Simpósio Temático tem como objetivo promover a articulação entre a pesquisa em História e os saberes docentes, considerando suas práticas, reflexões e problemáticas. A partir da compreensão da figura do professor pesquisador, cuja atuação envolve a construção coletiva do conhecimento tanto no espaço da sala de aula quanto nos ambientes de pesquisa. O simpósio propõe a abertura de um espaço de debate acerca das relações entre ensino e pesquisa, bem como sobre os processos que historicamente contribuíram para a construção de uma divisão entre essas práticas. Dessa forma, convidam-se trabalhos provenientes das mais diversas áreas da educação, tais como estudos sobre currículos, livros didáticos, práticas docentes, Educação de Jovens e Adultos, bem como investigações acerca dos papéis da educação na construção de sociedades em distintos recortes históricos. Busca-se, assim, fomentar a construção de diálogos entre áreas afins que atravessam a pesquisa em História, a educação e a prática docente. Educação e democracia são dimensões indissociáveis. De acordo com Nóvoa, essa relação torna-se ainda mais relevante no contexto contemporâneo, marcado por profundas transformações nas esferas políticas, econômicas e culturais da sociedade nas últimas décadas, que, segundo o autor, são protagonistas na construção da crise que afeta a educação atualmente. Nesse contexto, a esfera educacional sofre crescentes influências mercadológicas, que redefinem sua função e fragilizam o papel da escola e da profissão docente. Tal interpretação é reforçada pelo pensamento de Rüsen e Cerri e Saddi , que compreendem o potencial emancipatório da educação histórica na formação de sujeitos críticos, capazes de compreender e problematizar as diferentes narrativas sobre o passado e sua relação com os debates do presente. Em suma, o debate acerca do ensino de História se revela essencial para a construção de uma educação que possibilite a formação de sujeitos conscientes e capazes de atuar de forma reflexiva na sociedade.
08h00 MC15 - Repensando o movimento estudantil brasileiro: historiografia, fontes e problemas Minicurso
Local: FaFiCH - UFMG

O minicurso propõe discutir a historiografia do movimento estudantil brasileiro, tomando como referência a centralidade da obra O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros, de Arthur José Poerner, e sua influência na consolidação de interpretações duradouras sobre o tema. Serão analisadas algumas tópicas recorrentes na produção historiográfica, como a construção do estudante como sujeito político progressista, a ideia de descontinuidade do movimento após 1968 e a concentração espacial das pesquisas. A partir dessa discussão, o curso problematiza lacunas e silenciamentos, como a pouca atenção a experiências locais, a atuação de estudantes secundaristas, as correntes políticas não hegemônicas (incluindo, mas não exclusivamente, grupos de direita) e as dimensões de raça, gênero e classe. Em diálogo com essas questões, serão exploradas possibilidades de renovação analítica, com ênfase no uso de fontes históricas primárias, especialmente relativas ao movimento estudantil em Belo Horizonte, bem como em abordagens multiescalares e conexões transnacionais. O minicurso busca, assim, oferecer subsídios para a formulação de problemas de pesquisa e o desenvolvimento de investigações sobre a temática.

09h00 MC01 - Imprensa feminista no Brasil do século XIX: possibilidades de pesquisas Minicurso
Local: Auditório Bicalho

Este minicurso tem como objetivo principal propor uma reflexão sobre o início e o desenvolvimento da imprensa feminista no Brasil do século XIX, buscando abordar o contexto de produção, seus temas e objetivos, além de refletir sobre a agência das mulheres e suas trajetórias. Os estudos sobre o periodismo feminino no Brasil começaram a ser produzidos principalmente a partir da década de 1980 e 1990, período em que se evidenciou a presença das mulheres nas academias e na produção historiográfica. Esses estudos buscaram tornar conhecidas diversas produções de mulheres que foram negligenciadas e esquecidas na historiografia.

Ao investigar jornais e revistas fundados e dirigidos por mulheres, este minicurso busca compreender as mulheres periodistas como agentes da História. Ao compartilhar seus pensamentos e reflexões nas páginas da imprensa, essas mulheres construíram um espaço de resistência feminina e de divulgação de suas principais reivindicações. Deste modo, a imprensa foi o principal meio pelo qual se gestou o início de um movimento que buscava lutar por melhorias na condição social das mulheres, principalmente no que se referia ao acesso à educação e à profissão.

Dessa forma, neste minicurso serão discutidos temas que possam refletir sobre a construção de uma imprensa feminista no Brasil do Oitocentos, buscando discutir a história da imprensa, bem como analisar os periódicos como fonte e objeto para a construção da História. Também serão tratados temas relacionados à educação feminina e a proposta de uma reflexão sobre o lugar social das leitoras e periodistas do período. Do mesmo modo, será discutida a ideia de feminismo no XIX, assim como serão apresentados e analisados os jornais feministas brasileiros da época.

09h00 MC02 - Quem Fala por Elas? Mulheres, Religião e Autoridade nas Fontes e na Historiografia Medieval. Minicurso
Local: Auditório Carangola - FAFICH

O minicurso propõe analisar como diferentes tradições religiosas medievais produziram formas específicas de autoridade feminina e como a historiografia moderna constrói, interpreta ou projeta essas presenças. Partindo de uma abordagem comparativa, o curso examina a constituição da categoria “mulheres medievais” como objeto historiográfico, os problemas metodológicos envolvidos na leitura das fontes e os riscos de anacronismo na aplicação de conceitos como agência, emancipação e esfera pública.

Inicialmente, serão discutidas as condições de produção das fontes — majoritariamente masculinas e institucionais —, os silêncios documentais e os mecanismos de construção textual da autoridade religiosa. Em seguida, o curso abordará experiências de ascese e inserção pública no Ocidente latino, por meio da análise de trajetórias como as de Christina de Markyate, Margarida de Cortona e Catarina de Siena, problematizando redes de legitimação, mediações institucionais e inserção urbana.

O terceiro eixo contempla o sufismo no Egito aiúbida e mameluco (séculos XIII–XV), discutindo a participação feminina em confrarias e espaços urbanos religiosos a partir de relatos de viagem e documentação institucional, como os registros de Ibn Battuta e Ibn Khaldun. Serão examinadas as categorias mobilizadas pela historiografia para interpretar essas experiências e seus limites analíticos.

Por fim, será analisada a experiência visionária de Juliana de Norwich, especialmente em Revelações do Amor Divino, discutindo a articulação entre criação, natureza e autoridade espiritual, bem como os desafios da leitura ecocrítica aplicada a textos medievais.

Com carga horária total de 12 horas, distribuídas em quatro dias de 3 horas cada, o minicurso será estruturado em exposições teóricas, análise orientada de fontes e debates, buscando oferecer instrumentos críticos para a leitura historiográfica das formas de autoridade feminina no medievo, evitando tanto o apagamento documental quanto a romantização anacrônica.

09h00 MC03 - Sob a sombra de Mnemosine: História e memória e novas problemáticas de seus lugares Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso propõe uma reflexão sobre os cruzamentos entre memória e história, seus conflitos epistemológicos e suas intersecções conceituais. Ao longo de três encontros com carga horária de 3 horas, serão debatidas as transformações no campo historiográfico a partir das demandas da memória, com ênfase em seus desdobramentos políticos, culturais e sociais. Adotando uma perspectiva interdisciplinar, articularemos debates teóricos fundamentais com questões urgentes do nosso tempo, como os movimentos por justiça histórica, as políticas de reparação e os desafios colocados pelas novas tecnologias à preservação da memória e sobre o campo da história. A presente proposta de minicurso se justifica devido às recentes ameaças e tentativas de negacionismo, mascaradas de revisionismo, que a história e a memória vêm sofrendo, principalmente quando se trata de passados traumáticos - no nosso caso, a Ditadura Militar. Assim, a importância do minicurso se dá pela tentativa de promover um ambiente de debate e discussão sobre como estancar o esquecimento, o silenciamento e, principalmente, combater o negacionismo.
09h00 MC09 - Não é magia, é paleografia: leitura de manuscritos nos estudos sobre História da África Minicurso
Local: CEPAMM - FAFICH
Os estudos das sociedades africanas no chamado Período Moderno tornaram-se uma área de grande relevância na historiografia atual. Uma das fontes mais ricas em informações são os documentos produzidos pela Inquisição portuguesa, quase sempre manuscritos. Este minicurso pretende aliar em ensino de metodologias para a leitura e transcrição de manuscritos em língua portuguesa no Período Moderno com discussões acerca de religiosidades africanas descritas e perseguidas pelo Santo Ofício, sobretudo no Congo e em Angola entre os séculos XVII e XVIII e algumas possibilidades e limites da documentação inquisitorial nesses estudos.
Era essencial à vivência religiosa centro-africana o culto aos ancestrais por meio de ritos diversos. Ainda que reprimidos pela Inquisição, os africanos nascidos em Angola e Congo continuavam cultivando suas práticas religiosas tradicionais em meio às suas panelas, ervas e danças. Sua noção religiosa era tida como demoníaca pelos europeus e, por isso, inúmeras foram as denúncias ao Santo Ofício, a qual se estabeleceu como instituição abundante em fontes acerca deste contexto. Aprender a ler e analisar documentos manuscritos, portanto, é uma habilidade essencial àqueles que se interessam pela história africana, sendo estes acadêmicos ou não.
A Paleografia é uma ciência transdisciplinar cuja ocupação vai muito além da leitura e transcrição de fontes manuscritas antigas. Dessa forma, neste minicurso pretende-se apresentar as noções básicas da área, algumas das possibilidades de contribuição para a História da África seiscentista e setecentista, tanto para a pesquisa como para o ensino. Como não é possível fazer paleografia sem ler manuscritos, objetiva-se também munir os participantes de instrumental básico/razoável de leitura e transcrição de manuscritos em português do período Moderno por meio de atividades de leitura.
Este minicurso é voltado para estudantes da graduação, bem como para professores de ensino fundamental e médio, já que a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) tem apresentado atividades que envolvem a paleografia nos últimos anos e, também, para os demais interessados na área. O curso é introdutório, não precisando haver nenhum contato prévio com manuscritos antigos ou experiência de transcrição, nem ter cursado disciplinas sobre História da África.
As aulas intercalarão exposições teóricas à respeito de Paleografia, História da África e da repressão inquisitorial às cerimônias africanas com exercícios de leitura e transcrição de manuscritos.
09h00 MC13 - A fotografia como fonte para a pesquisa em História: apontamentos teóricos e metodológicos Minicurso
Local: Sala 1010 - FAFICH
As fotografias têm sido fontes cada vez mais valorizadas no estudo da História, englobando diferentes áreas de especialização neste campo. Por suas especificidades e potencialidades, elas são vistas como janelas que descortinam sujeitos, espaços e acontecimentos do passado, inacessíveis por meio de outras fontes. A partir delas, torna-se possível ver rostos, olhares, expressões que nem a descrição mais fiel é capaz de captar. Contudo, as fotografias não são fontes de fácil análise, pois englobam elementos diversos que devem ser considerados ao se tomar esses objetos como fonte histórica. Analisá-las, explorando toda sua potencialidade documental, exige uma educação do olhar, que torne o pesquisador capaz de olhar e ler o objeto fotográfico para além do que está explícito e evidente.
No que se refere aos apontamentos metodológicos aplicados à investigação do documento fotográfico, destaca-se que esta fonte deve ser entendida como um artefato humano veiculador de uma mensagem, referente a signos culturais específicos de seu lugar sociocultural e contextual. Destarte, há de se considerar a fotografia em seu caráter de imagem/documento, ao ser tomada como fonte, visando a compreensão de aspectos de outros tempos; e em seu caráter de imagem/monumento, tendo em vista as especificidades a partir das quais é produzida, através da intenção de seu produtor em preservar, por meio do registro fotográfico, determinada memória.
Desse modo, analisar fotografias exige voltar a atenção tanto para a natureza técnica da imagem fotográfica como para o próprio ato de fotografar, apreciar e consumir fotografias. Este processo de produção, circulação e consumo das imagens é entendido como o circuito social da fotografia, de modo que conhecê-lo é essencial para se compreender o texto e o contexto que envolvem o objeto fotográfico. Apreende-se, nesse sentido, que essa tipologia documental é composta a partir de três componentes fundamentais, sendo eles o autor da fotografia, a mensagem veiculada e o leitor. A fim de englobar todos os níveis de compreensão da imagem fotográfica, é necessário realizar, no trato com o documento, a crítica interna e externa da fonte, considerando-as como diretamente relacionadas e interdependentes. Assim, analisar fotografia exige a percepção e a interpretação do sujeito em relação à fotografia, sendo que, enquanto mensagem, ela se organiza em dois seguimentos: expressão, envolvendo escolhas técnicas e estéticas, tais como enquadramento (sentido, direção, distribuição de planos), nitidez (foco, impressão visual, iluminação), definição da imagem, contraste, cor etc.; e conteúdo, determinado pelo conjunto de pessoas (e seus atributos), objetos, lugares (e seus atributos), situações e vivências que compõem o cenário da fotografia. São esses seguimentos capazes de criar os significados da fotografia. Tais sentidos estão ligados diretamente ao contexto de produção e de leitura, cada qual a partir de códigos culturais próprios.
Apresentadas as características centrais da fotografia, é relevante ressaltar que compreender os processos teórico-metodológicos que envolvem o uso desta tipologia documental é de primordial importância, tendo em vista a sua grande relevância e inúmeras contribuições potenciais para diferentes campos da pesquisa em História.
Nesse sentido, o objetivo primordial da presente proposta de minicurso é apresentar os avanços no uso das fotografias como fontes para pesquisas em História, a partir das principais abordagens empenhadas e de importantes pesquisas produzidas a partir de sua instrumentalização.
09h00 MC16 - Pensar os livros didáticos e suas possibilidades: uma análise sobre a educação durante o fascismo italiano Minicurso
Local: FaFiCH - UFMG

O minicurso “Pensar os livros didáticos e suas possibilidades: uma análise sobre o caso de regimes autoritários como o fascismo” propõe analisar o livro didático como um objeto histórico inserido em contextos específicos de produção, circulação e uso. Em regimes autoritários, a educação configura-se como um espaço estratégico de disputas políticas, ideológicas e culturais, no qual os livros didáticos atuam como veículos de transmissão de valores, ideologias e de um projeto político. Nesse sentido, o minicurso busca ampliar a compreensão acerca desses materiais, enfatizando sua complexidade e suas múltiplas dimensões, especialmente no contexto do fascismo.

A proposta fundamenta-se nos aportes teórico-metodológicos de Bittencourt (1993) e Choppin (2004), que compreendem o livro didático como um objeto de múltiplas características e possibilidades. A partir dessa perspectiva, serão analisados os conteúdos apresentados nos livros, como o texto e as ilustrações, entendendo como as imagens produzem um sentido e não só ilustram os livros, além de propor reflexões sobre o contexto e os processos de produção, circulação e distribuição dos livros didáticos, considerando suas relações com projetos de controle social e educacional, especialmente em contextos autoritários. Busca-se, ainda, refletir sobre as potencialidades metodológicas desses materiais e sobre seu uso crítico em sala de aula, problematizando-os como espaços de disputa simbólica, tanto no que se refere à seleção de conteúdos quanto à construção de memórias coletivas e identidades sociais. Como estudo de caso, serão analisados livros didáticos destinados ao ensino primário, especificamente para turmas da segunda série escolar na década de 1930, em contexto fascista. Esse recorte permite compreender os processos de formação inicial das crianças, as estratégias pedagógicas voltadas à internalização e naturalização dos valores do regime. Ademais, será discutida a política do livro único como mecanismo de homogeneização do ensino e de ampliação do controle estatal sobre os conteúdos escolares, evidenciando a construção de uma identidade e de um modelo de cidadão alinhados aos princípios do Estado fascista.

O minicurso será desenvolvido em dois encontros. No primeiro, serão apresentados os referenciais teórico-metodológicos que fundamentam a análise dos livros didáticos. No segundo, serão examinados exemplos dos livros selecionados da década de 1930, visando à análise de suas narrativas, bem como à reflexão sobre suas possibilidades de uso crítico no ensino de História.

08h00 MC15 - Repensando o movimento estudantil brasileiro: historiografia, fontes e problemas Minicurso
Local: FaFiCH - UFMG

O minicurso propõe discutir a historiografia do movimento estudantil brasileiro, tomando como referência a centralidade da obra O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros, de Arthur José Poerner, e sua influência na consolidação de interpretações duradouras sobre o tema. Serão analisadas algumas tópicas recorrentes na produção historiográfica, como a construção do estudante como sujeito político progressista, a ideia de descontinuidade do movimento após 1968 e a concentração espacial das pesquisas. A partir dessa discussão, o curso problematiza lacunas e silenciamentos, como a pouca atenção a experiências locais, a atuação de estudantes secundaristas, as correntes políticas não hegemônicas (incluindo, mas não exclusivamente, grupos de direita) e as dimensões de raça, gênero e classe. Em diálogo com essas questões, serão exploradas possibilidades de renovação analítica, com ênfase no uso de fontes históricas primárias, especialmente relativas ao movimento estudantil em Belo Horizonte, bem como em abordagens multiescalares e conexões transnacionais. O minicurso busca, assim, oferecer subsídios para a formulação de problemas de pesquisa e o desenvolvimento de investigações sobre a temática.

09h00 MC01 - Imprensa feminista no Brasil do século XIX: possibilidades de pesquisas Minicurso
Local: Auditório Bicalho

Este minicurso tem como objetivo principal propor uma reflexão sobre o início e o desenvolvimento da imprensa feminista no Brasil do século XIX, buscando abordar o contexto de produção, seus temas e objetivos, além de refletir sobre a agência das mulheres e suas trajetórias. Os estudos sobre o periodismo feminino no Brasil começaram a ser produzidos principalmente a partir da década de 1980 e 1990, período em que se evidenciou a presença das mulheres nas academias e na produção historiográfica. Esses estudos buscaram tornar conhecidas diversas produções de mulheres que foram negligenciadas e esquecidas na historiografia.

Ao investigar jornais e revistas fundados e dirigidos por mulheres, este minicurso busca compreender as mulheres periodistas como agentes da História. Ao compartilhar seus pensamentos e reflexões nas páginas da imprensa, essas mulheres construíram um espaço de resistência feminina e de divulgação de suas principais reivindicações. Deste modo, a imprensa foi o principal meio pelo qual se gestou o início de um movimento que buscava lutar por melhorias na condição social das mulheres, principalmente no que se referia ao acesso à educação e à profissão.

Dessa forma, neste minicurso serão discutidos temas que possam refletir sobre a construção de uma imprensa feminista no Brasil do Oitocentos, buscando discutir a história da imprensa, bem como analisar os periódicos como fonte e objeto para a construção da História. Também serão tratados temas relacionados à educação feminina e a proposta de uma reflexão sobre o lugar social das leitoras e periodistas do período. Do mesmo modo, será discutida a ideia de feminismo no XIX, assim como serão apresentados e analisados os jornais feministas brasileiros da época.

09h00 MC02 - Quem Fala por Elas? Mulheres, Religião e Autoridade nas Fontes e na Historiografia Medieval. Minicurso
Local: Auditório Carangola - FAFICH

O minicurso propõe analisar como diferentes tradições religiosas medievais produziram formas específicas de autoridade feminina e como a historiografia moderna constrói, interpreta ou projeta essas presenças. Partindo de uma abordagem comparativa, o curso examina a constituição da categoria “mulheres medievais” como objeto historiográfico, os problemas metodológicos envolvidos na leitura das fontes e os riscos de anacronismo na aplicação de conceitos como agência, emancipação e esfera pública.

Inicialmente, serão discutidas as condições de produção das fontes — majoritariamente masculinas e institucionais —, os silêncios documentais e os mecanismos de construção textual da autoridade religiosa. Em seguida, o curso abordará experiências de ascese e inserção pública no Ocidente latino, por meio da análise de trajetórias como as de Christina de Markyate, Margarida de Cortona e Catarina de Siena, problematizando redes de legitimação, mediações institucionais e inserção urbana.

O terceiro eixo contempla o sufismo no Egito aiúbida e mameluco (séculos XIII–XV), discutindo a participação feminina em confrarias e espaços urbanos religiosos a partir de relatos de viagem e documentação institucional, como os registros de Ibn Battuta e Ibn Khaldun. Serão examinadas as categorias mobilizadas pela historiografia para interpretar essas experiências e seus limites analíticos.

Por fim, será analisada a experiência visionária de Juliana de Norwich, especialmente em Revelações do Amor Divino, discutindo a articulação entre criação, natureza e autoridade espiritual, bem como os desafios da leitura ecocrítica aplicada a textos medievais.

Com carga horária total de 12 horas, distribuídas em quatro dias de 3 horas cada, o minicurso será estruturado em exposições teóricas, análise orientada de fontes e debates, buscando oferecer instrumentos críticos para a leitura historiográfica das formas de autoridade feminina no medievo, evitando tanto o apagamento documental quanto a romantização anacrônica.

09h00 MC03 - Sob a sombra de Mnemosine: História e memória e novas problemáticas de seus lugares Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso propõe uma reflexão sobre os cruzamentos entre memória e história, seus conflitos epistemológicos e suas intersecções conceituais. Ao longo de três encontros com carga horária de 3 horas, serão debatidas as transformações no campo historiográfico a partir das demandas da memória, com ênfase em seus desdobramentos políticos, culturais e sociais. Adotando uma perspectiva interdisciplinar, articularemos debates teóricos fundamentais com questões urgentes do nosso tempo, como os movimentos por justiça histórica, as políticas de reparação e os desafios colocados pelas novas tecnologias à preservação da memória e sobre o campo da história. A presente proposta de minicurso se justifica devido às recentes ameaças e tentativas de negacionismo, mascaradas de revisionismo, que a história e a memória vêm sofrendo, principalmente quando se trata de passados traumáticos - no nosso caso, a Ditadura Militar. Assim, a importância do minicurso se dá pela tentativa de promover um ambiente de debate e discussão sobre como estancar o esquecimento, o silenciamento e, principalmente, combater o negacionismo.
09h00 MC06 - O Conceito de Feminilidade em Disputa: História da Psicanálise e Narrativas Feministas (1920-1980) Minicurso
Local: Fafich - UFMG
Este minicurso propõe uma abordagem histórica da construção do conceito de “natureza feminina” na psicanálise do século XX, tomando como eixo a vida, a obra e a recepção da produção teórica da psicanalista polonesa Helene Deutsch (1884–1982), especialmente no contexto da emergência do movimento feminista da segunda onda. A partir de uma reconstrução crítica de sua trajetória intelectual, da Europa aos Estados Unidos, analisa-se como a feminilidade foi constituída como objeto científico, articulando explicações sobre normalidade e sofrimento psíquico das mulheres em contextos marcados por crises sociais, políticas e epistemológicas.
09h00 MC10 - Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica. Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica propõe uma reflexão teórico-metodológica sobre o conceito de ruptura na história urbana e sobre os modos de representá-la espacialmente. Partindo da cidade moderna como espaço privilegiado da crise, do colapso e da suspensão da ordem cotidiana, o curso discute como greves, revoltas e outros momentos de tensão social desafiam a produção historiográfica. Ao articular os debates sobre ruptura, modernidade e espacialidade, o minicurso explora o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) como ferramenta interpretativa para a pesquisa histórica, enfatizando seus limites e escolhas narrativas. Longe de uma abordagem meramente técnica, o SIG é apresentado como linguagem historiográfica capaz de contribuir para a discussão de conflitos. O curso combina exposições teóricas, discussão de fontes históricas produzidas em contextos de crise e atividades práticas de introdução ao SIG, incluindo noções fundamentais de georreferenciamento, vetorização, construção de tabelas de atributos e elaboração de mapas. Ao final, busca-se capacitar os participantes a pensar criticamente o mapa como forma de escrita da história, compreendendo-o como argumento, escolha e narrativa, inclusive sobre o “tempo do fim”.
Os objetivos são: Discutir o conceito de ruptura como problema histórico, articulando cidade, modernidade e crise social; Refletir sobre a espacialidade das rupturas urbanas e sobre os modos como elas se manifestam no espaço; Introduzir os fundamentos do uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) aplicados à pesquisa histórica; Desenvolver uma leitura crítica da cartografia histórica, compreendendo o mapa como forma de narrativa e interpretação do passado.
Em um contexto historiográfico marcado pelo interesse nas experiências de ruptura, colapso e
fim é fundamental refletir sobre como esses processos podem ser representados e narrados. As cidades modernas, atravessadas por conflitos, constituem espaços privilegiados para a observação dessas experiências-limite. Ao mesmo tempo, o crescente uso de ferramentas digitais na história demanda uma discussão crítica sobre seus pressupostos, possibilidades e riscos. Este minicurso se justifica, portanto, pela necessidade de articular teoria da história, história urbana e Humanidades Digitais, oferecendo aos participantes instrumentos conceituais e práticos para representar espacialmente a ruptura sem neutralizá-la.
09h00 MC13 - A fotografia como fonte para a pesquisa em História: apontamentos teóricos e metodológicos Minicurso
Local: Sala 1010 - FAFICH
As fotografias têm sido fontes cada vez mais valorizadas no estudo da História, englobando diferentes áreas de especialização neste campo. Por suas especificidades e potencialidades, elas são vistas como janelas que descortinam sujeitos, espaços e acontecimentos do passado, inacessíveis por meio de outras fontes. A partir delas, torna-se possível ver rostos, olhares, expressões que nem a descrição mais fiel é capaz de captar. Contudo, as fotografias não são fontes de fácil análise, pois englobam elementos diversos que devem ser considerados ao se tomar esses objetos como fonte histórica. Analisá-las, explorando toda sua potencialidade documental, exige uma educação do olhar, que torne o pesquisador capaz de olhar e ler o objeto fotográfico para além do que está explícito e evidente.
No que se refere aos apontamentos metodológicos aplicados à investigação do documento fotográfico, destaca-se que esta fonte deve ser entendida como um artefato humano veiculador de uma mensagem, referente a signos culturais específicos de seu lugar sociocultural e contextual. Destarte, há de se considerar a fotografia em seu caráter de imagem/documento, ao ser tomada como fonte, visando a compreensão de aspectos de outros tempos; e em seu caráter de imagem/monumento, tendo em vista as especificidades a partir das quais é produzida, através da intenção de seu produtor em preservar, por meio do registro fotográfico, determinada memória.
Desse modo, analisar fotografias exige voltar a atenção tanto para a natureza técnica da imagem fotográfica como para o próprio ato de fotografar, apreciar e consumir fotografias. Este processo de produção, circulação e consumo das imagens é entendido como o circuito social da fotografia, de modo que conhecê-lo é essencial para se compreender o texto e o contexto que envolvem o objeto fotográfico. Apreende-se, nesse sentido, que essa tipologia documental é composta a partir de três componentes fundamentais, sendo eles o autor da fotografia, a mensagem veiculada e o leitor. A fim de englobar todos os níveis de compreensão da imagem fotográfica, é necessário realizar, no trato com o documento, a crítica interna e externa da fonte, considerando-as como diretamente relacionadas e interdependentes. Assim, analisar fotografia exige a percepção e a interpretação do sujeito em relação à fotografia, sendo que, enquanto mensagem, ela se organiza em dois seguimentos: expressão, envolvendo escolhas técnicas e estéticas, tais como enquadramento (sentido, direção, distribuição de planos), nitidez (foco, impressão visual, iluminação), definição da imagem, contraste, cor etc.; e conteúdo, determinado pelo conjunto de pessoas (e seus atributos), objetos, lugares (e seus atributos), situações e vivências que compõem o cenário da fotografia. São esses seguimentos capazes de criar os significados da fotografia. Tais sentidos estão ligados diretamente ao contexto de produção e de leitura, cada qual a partir de códigos culturais próprios.
Apresentadas as características centrais da fotografia, é relevante ressaltar que compreender os processos teórico-metodológicos que envolvem o uso desta tipologia documental é de primordial importância, tendo em vista a sua grande relevância e inúmeras contribuições potenciais para diferentes campos da pesquisa em História.
Nesse sentido, o objetivo primordial da presente proposta de minicurso é apresentar os avanços no uso das fotografias como fontes para pesquisas em História, a partir das principais abordagens empenhadas e de importantes pesquisas produzidas a partir de sua instrumentalização.
08h00 MC15 - Repensando o movimento estudantil brasileiro: historiografia, fontes e problemas Minicurso
Local: FaFiCH - UFMG

O minicurso propõe discutir a historiografia do movimento estudantil brasileiro, tomando como referência a centralidade da obra O poder jovem: história da participação política dos estudantes brasileiros, de Arthur José Poerner, e sua influência na consolidação de interpretações duradouras sobre o tema. Serão analisadas algumas tópicas recorrentes na produção historiográfica, como a construção do estudante como sujeito político progressista, a ideia de descontinuidade do movimento após 1968 e a concentração espacial das pesquisas. A partir dessa discussão, o curso problematiza lacunas e silenciamentos, como a pouca atenção a experiências locais, a atuação de estudantes secundaristas, as correntes políticas não hegemônicas (incluindo, mas não exclusivamente, grupos de direita) e as dimensões de raça, gênero e classe. Em diálogo com essas questões, serão exploradas possibilidades de renovação analítica, com ênfase no uso de fontes históricas primárias, especialmente relativas ao movimento estudantil em Belo Horizonte, bem como em abordagens multiescalares e conexões transnacionais. O minicurso busca, assim, oferecer subsídios para a formulação de problemas de pesquisa e o desenvolvimento de investigações sobre a temática.

09h00 MC02 - Quem Fala por Elas? Mulheres, Religião e Autoridade nas Fontes e na Historiografia Medieval. Minicurso
Local: Auditório Carangola - FAFICH

O minicurso propõe analisar como diferentes tradições religiosas medievais produziram formas específicas de autoridade feminina e como a historiografia moderna constrói, interpreta ou projeta essas presenças. Partindo de uma abordagem comparativa, o curso examina a constituição da categoria “mulheres medievais” como objeto historiográfico, os problemas metodológicos envolvidos na leitura das fontes e os riscos de anacronismo na aplicação de conceitos como agência, emancipação e esfera pública.

Inicialmente, serão discutidas as condições de produção das fontes — majoritariamente masculinas e institucionais —, os silêncios documentais e os mecanismos de construção textual da autoridade religiosa. Em seguida, o curso abordará experiências de ascese e inserção pública no Ocidente latino, por meio da análise de trajetórias como as de Christina de Markyate, Margarida de Cortona e Catarina de Siena, problematizando redes de legitimação, mediações institucionais e inserção urbana.

O terceiro eixo contempla o sufismo no Egito aiúbida e mameluco (séculos XIII–XV), discutindo a participação feminina em confrarias e espaços urbanos religiosos a partir de relatos de viagem e documentação institucional, como os registros de Ibn Battuta e Ibn Khaldun. Serão examinadas as categorias mobilizadas pela historiografia para interpretar essas experiências e seus limites analíticos.

Por fim, será analisada a experiência visionária de Juliana de Norwich, especialmente em Revelações do Amor Divino, discutindo a articulação entre criação, natureza e autoridade espiritual, bem como os desafios da leitura ecocrítica aplicada a textos medievais.

Com carga horária total de 12 horas, distribuídas em quatro dias de 3 horas cada, o minicurso será estruturado em exposições teóricas, análise orientada de fontes e debates, buscando oferecer instrumentos críticos para a leitura historiográfica das formas de autoridade feminina no medievo, evitando tanto o apagamento documental quanto a romantização anacrônica.

09h00 MC03 - Sob a sombra de Mnemosine: História e memória e novas problemáticas de seus lugares Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso propõe uma reflexão sobre os cruzamentos entre memória e história, seus conflitos epistemológicos e suas intersecções conceituais. Ao longo de três encontros com carga horária de 3 horas, serão debatidas as transformações no campo historiográfico a partir das demandas da memória, com ênfase em seus desdobramentos políticos, culturais e sociais. Adotando uma perspectiva interdisciplinar, articularemos debates teóricos fundamentais com questões urgentes do nosso tempo, como os movimentos por justiça histórica, as políticas de reparação e os desafios colocados pelas novas tecnologias à preservação da memória e sobre o campo da história. A presente proposta de minicurso se justifica devido às recentes ameaças e tentativas de negacionismo, mascaradas de revisionismo, que a história e a memória vêm sofrendo, principalmente quando se trata de passados traumáticos - no nosso caso, a Ditadura Militar. Assim, a importância do minicurso se dá pela tentativa de promover um ambiente de debate e discussão sobre como estancar o esquecimento, o silenciamento e, principalmente, combater o negacionismo.
09h00 MC05 - História do Lazer: conversas a partir de pesquisas em suas fontes, métodos e possibilidades de avanços Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O lazer é aqui compreendido como parte fundamental da cultura e da vida humana, se fazendo presente nas diferentes sociedades e temporalidades. Como uma das experiências do cotidiano é também objeto legítimo de estudos históricos. A intenção deste minicurso é discutir o lazer como potente lente de análise da história.
Para tanto, os encontros se concentrarão na discussão de pesquisas que se dedicaram às mais diferentes práticas de lazer em diversas temporalidades e espacialidades. Os trabalhos serão destacados em seus recortes temporais e geográficos e as fontes mobilizadas, com o intuito de entender como essas pesquisas sobre a história do lazer são realizadas, as possibilidades de avanço e os eventuais limites. O minicurso está planejado para ocorrer em 03 dias, com duração de 03 horas cada dia.
Dito isso, para o primeiro dia, a proposta é apresentar a problemática em torno da perspectiva dominante sobre o lazer, qual seja a ideia de que esse é um fenômeno social de natureza moderna, derivado da separação artificial do tempo do trabalho e do não-trabalho que as sociedades industrializadas se orientam. Elegi alguns trabalhos teóricos para essa discussão como o de Peter Burke (2019), o qual diverge dessa perspectiva dominante questionando a dicotomia: “cultura de festivais” e “lazer”; o de Cléber Dias (2018) que debate trabalhos que trazem perspectivas interpretativas diferentes; e o texto de Flávia Santos (2019), o qual, junto à História Conceitual, aborda a problemática da palavra lazer mesmo quando a análise se debruça em tempos quando esse vocábulo não existia ou era pouco usual.
Ainda para o primeiro dia, está planejada a discussão de outros textos que debatem o lazer e marcadores sociais relevantes no debate contemporâneo, como gênero, raça e classe. Para as discussões de gênero o texto será o de Silvana Goellner (2008), sobre a política eugenista no Brasil dos anos 1930 focalizando o corpo feminino no contexto esportivo; a respeito de raça, elenco o texto de Márcio Aguiar (2007), o qual analisa o Grêmio Recreativo Flor de Maio, fundado no início do século XX pelos trabalhadores pretos de São Carlos - SP; e, para o debate de classe, proponho o trabalho de Marlaine Almeida (2017), a qual analisa as mulheres de elite e suas formas de participação nos clubes esportivos de Aracajú (1919-1926). O segundo dia será dedicado a observar o lazer nas diferentes temporalidades que constituem a periodização tradicional da história brasileira. O lazer no contexto colonial será visto na tese de Maria Cristina Rosa (2005), a qual se dedicou a analisar a educação dos corpos e a diversão na Vila Rica do século XVIII, local estruturado e reestruturado pelo Estado e pela Igreja, as instituições de poder dominantes, e que a partir das normas e transgressões revelam os divertimentos lícitos e ilícitos, portanto, as normas, as transgressões e estratégias de resistência dos corpos que ali participaram de festas, jogos, batuques, batizados e danças que aconteciam nas vendas, igrejas, ruas e casas. O império, por sua vez, será visualizado no texto de Lídia Santos (2015), a qual aborda a realidade do Recife a partir das festas, a análise de documentos como processos judiciais, outros documentos oficiais e periódicos desvelam as vendas, tabernas e botequins e a complexa rede de apoio e conflitos entre escravos e homens livres, os quais nesses locais se encontram em festas, jogos e conflitos de toda sorte, revelando uma estrutura social particular à oficial e resistente ao endurecimento da ordem pública que a elite impunha em nome da ideia de civilidade. Ainda sobre o Império, o trabalho de Bernardo Gomes (2025) também será discutido, o qual focalizou as práticas de divertimento na cidade de Petrópolis entre os anos de 1875-1888 a partir dos periódicos, revelando como a cidade que se queria moral e civilizada se organizava, sendo fortemente influenciada pelas presenças e ausências da família imperial. Por fim, para o período republicano, a dissertação de Letícia Azevedo (2024) será debatida, essa que se dedicou a analisar as representações de lazer e gênero na revista Bello Horizonte durante a década de 1930, discutindo como a cidade - a primeira cidade planejada do período republicano brasileiro - era vista pela elite que consumia esse periódico e nela era representada. Ainda sobre o período republicano será discutido o texto de Sidney Lobato (2014), o qual focalizou a cidade de Macapá entre os anos de 1944-1964 analisando os momentos de prazer e diversão dos trabalhadores.
O terceiro dia se concentrará no debate regional a partir de textos que mostram como a história do lazer é também potente para revelar as histórias das cidades e sua pluralidade no heterogêneo quadro nacional. Para a cidade de São Paulo será o texto de Flávia Santos (2013), o qual mostrará os primórdios do esporte. Rio de Janeiro será focalizado pelo texto de Victor Melo (2016), o qual também discute o início das práticas esportivas. Focalizando um contexto fronteiriço, a Região Platina, o trabalho de Matheus Donay (2025) será debatido e esse se concentrou em divertimentos praticados na zona rural, revelando aspectos políticos, econômicos e culturais do Brasil e a dita América Platina do século XIX. Por fim, a cidade de Rio Branco será vista a partir do trabalho de Joyce Corrêa e Flávia Santos (2025), o qual, a partir de periódicos, discute a vida divertida em meio à crise econômica do mercado de borracha no início do século XX.
Ainda no terceiro dia, o minicurso fará considerações finais com análise sobre todos os trabalhos apresentados, mostrando as fontes mais mobilizadas, os grupos sociais visualizados, bem como os recortes temporais e geográficos elegidos; como forma de apontar os caminhos trilhados e a potencialidade para outros vindouros que, possivelmente, as (os) inscritas (os) possam desenvolver.
09h00 MC07- O monstro pelas lentes da História: o que a representação desses seres nos diz acerca dos sujeitos, as escatologias e o trato do diferente?” Minicurso
Local: Auditório Bicalho
No decurso do tempo, os monstros foram objetos de fascínio para as mais diferentes comunidades, despertando ora medo, ora admiração. A vista disso, o objetivo principal deste Minicurso é traçar como essas figuras monstruosas foram representadas ao longo da história e como elas tangenciaram temas vinculados à identidade, à cultura, aos jogos de poder e às relações entre os indivíduos mediante tempo e espaço. Ao evidenciar uma atenção especial à Idade Moderna e Contemporânea, busca-se ainda expor como os monstros ganharam uma forma mais acentuada a partir do desenvolvimento da medicina, salientando como as questões contextuais e espaciais de cada momento imbuiu um certo significado ao ser monstruoso. Nesse sentido, não apenas o tropos de “fins do tempo” como as ampliações do campo médico revelam-se elementos pertinentes para o trato das anomalias e das más formações congênitas. É nesse ponto, por sua vez, que se pretende também apontar para como o aprimoramento da prensa possibilitou a ampliação de relatos e imagens monstruosas, reverberando em uma circulação de ideias acerca dessas criaturas. Em igual medida, busca-se, ainda que brevemente, traçar uma apreensão dos monstros desde à Grécia Antiga à contemporaneidade, sublinhando como tais períodos perceberam os corpos anômalos e desviantes, influenciando nas maneiras de se lidar com as deformações que ora eram tidas como presságios divinos, ora como elementos de subversão humana. Para tanto, vale-se ao final da exposição de algumas fontes para se analisar o tema de um modo mais prático, colocando os ouvintes em contato com alguns dos materiais que trabalham esse assunto. Assim, viabiliza-se uma elucidação de como os monstros tangenciavam aspectos relativos à maternidade, à política, à sexualidade, à religião, à alteridade e à postura das mulheres face às sociedades.
A proposição desse minicurso vai de encontro a um esforço de explanar o monstro como um elemento dotado de uma historicidade. Nesse viés, almeja-se revelar como as representações associadas a esses seres eram frutos de uma determinado contexto histórico-social e político. A partir da análise de impressos do século XVII e jornais médicos do século XX, busca-se apreender como o monstruoso se modificou ao longo do tempo. Em meio as suas relações com a religião, o enquadramento social, a política, a teratologia e o avanço da biologia, procura-se demonstrar quais eram as implicações históricas no trato do monstruoso, conectando-o aos anseios e às vivências dos indivíduos. Ao fazer isso, permite-se não só entender o papel do monstro em nossas sociedades, mas também em que medida a figura disforme evocava e ainda evoca problemas locais, exteriorizando sentimentos e se relacionando aos ideais de subversão e ordem. Se o monstro gera medo ou sorrisos, cabe aqui, portanto, tentar explicar os porquês disso.
A princípio, o curso revela-se pertinente à medida que permite a compreensão do papel dos monstros dentro da história e a relação desses com as angústias humanas. Com isso, o monstruoso passa a ser uma chave de leitura para se entender os contextos históricos, uma vez que o próprio ser disforme foi utilizado em discursos e textos literários para se expressar problemas ou ansiedades locais. Para além disso, a posição secundária que as fontes literárias e o "monstruoso" têm na sociedade, os tornam merecedores de um olhar atento, uma vez que se imbricam a tais seres uma simbologia própria. Sendo a história um campo de significativa importância para a compreensão das ações de homens e mulheres no tempo, tal minicurso poderia promover uma ideia acerca de como os sujeitos lidaram com os corpos anômalos e o que o monstruoso indica enquanto um resultado dessas projeções humanas. Desde os ciclopes e o Minotauro grego, passando por Frankenstein e Zumbis até os hermafroditas e casos de gêmeos siameses verifica-se um percurso no qual os monstros ainda fazem parte da nossa vida. Posto isso, uma investigação em torno desses seres revela-se mais do que pertinente.
A metodologia para tal minicurso parte da exposição do tema e da realização de uma atividade prática de leitura de fontes (vide o manuseio [online] de impressos de caráter efêmero do século XVII e fontes do século XX - disponibilizadas pelo(a) proponente do curso). A partir delas, busca-se expor o tema por meio de uma apresentação discursiva (com o uso de power point), na qual o objetivo central é a promoção de um debate para a troca de ideias e reflexões. Embasando-se nas discussões acerca de cultura impressa, história dos livros e os conceitos de "representação" (vide Bourdieu, 1989 e Chartier, 2011 e 1991), o minicurso almeja explicar como o monstro era idealizado e reproduzido, atentando-se para o caráter dos textos manuseados, bem como para a visualidade e descrição desses seres nas fontes. Ao final, uma reflexão será esboçada a respeito das diferenças contextuais entre os monstros de cada século e o papel dos textos impressos nesse processo, mobilizando ainda uma relação entre os avanços médicos com os 'monstros atuais' - exteriorizados e representados pelos indivíduos na contemporaneidade.
Espera-se demonstrar o papel do monstruoso enquanto uma ferramenta de leitura da história e as possíveis conexões que podem ser aferidas a partir do trato dessas criaturas. Nesse viés, busca-se expor como o monstro é uma construção humana – histórica, datável e localizável no tempo e espaço – instigando uma reflexão acerca dos “porquês” e “como” os monstros existiram. Assim, colocar-se-ia em xeque as próprias noções de maternidade, poder, identidade, alteridade e história.
09h00 MC08 - Bruxas, gênero e narrativa: entre a História e a crítica literária feminista. Minicurso
Local: Sala 1010 - FAFICH
O minicurso propõe uma abordagem crítica e interdisciplinar sobre a construção histórica, simbólica e narrativa da figura da bruxa, articulando debates da historiografia, dos estudos de gênero e da crítica literária feminista. Parte-se da compreensão da bruxaria como categoria histórica produzida em contextos específicos de repressão, disciplinamento social e controle dos corpos e saberes femininos, mas também como espaço de ressignificação política, cultural e estética nas leituras contemporâneas.
O curso está estruturado em dois módulos complementares. No primeiro módulo, será apresentada uma leitura historiográfica da caça às bruxas, com ênfase nas contribuições das teorias feministas e dos estudos de gênero, especialmente a partir das décadas finais do século XX. Discute-se a reinterpretação do fenômeno inquisitorial como prática marcada por relações de poder, patriarcado e misoginia, problematizando explicações tradicionais que desconsideravam o gênero como categoria analítica central. Serão abordadas as disputas historiográficas em torno da bruxaria, os limites das interpretações clássicas e os aportes teóricos que evidenciam a perseguição às mulheres como elemento estruturante do processo histórico.
O segundo módulo dedica-se à análise das representações literárias da bruxaria, tomando como estudo de caso o romance Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem, de Maryse Condé. A partir da crítica literária feminista, serão examinadas as estratégias narrativas por meio das quais a obra revisita o passado, tensiona discursos históricos hegemônicos e reinscreve a experiência feminina negra no centro da narrativa. Discute-se a literatura como espaço de memória, crítica e reimaginação histórica, capaz de produzir leituras contra-hegemônicas sobre a bruxaria, o colonialismo, o racismo e o gênero.
Ao articular história e literatura, o minicurso busca ampliar o diálogo interdisciplinar e estimular reflexões críticas sobre gênero, memória, narrativa e poder, contribuindo para o debate historiográfico e cultural sobre a bruxaria e suas permanências simbólicas na contemporaneidade, em consonância com o tema geral do XIII EPHIS.
A proposta integra as ações do Núcleo de Estudos Inquisitoriais na Amazônia (NEIAM) e se propõe a fomentar reflexões interdisciplinares sobre gênero, memória e narrativa, ampliando o diálogo entre história e literatura no campo dos estudos inquisitoriais.
09h00 MC09 - Não é magia, é paleografia: leitura de manuscritos nos estudos sobre História da África Minicurso
Local: CEPAMM - FAFICH
Os estudos das sociedades africanas no chamado Período Moderno tornaram-se uma área de grande relevância na historiografia atual. Uma das fontes mais ricas em informações são os documentos produzidos pela Inquisição portuguesa, quase sempre manuscritos. Este minicurso pretende aliar em ensino de metodologias para a leitura e transcrição de manuscritos em língua portuguesa no Período Moderno com discussões acerca de religiosidades africanas descritas e perseguidas pelo Santo Ofício, sobretudo no Congo e em Angola entre os séculos XVII e XVIII e algumas possibilidades e limites da documentação inquisitorial nesses estudos.
Era essencial à vivência religiosa centro-africana o culto aos ancestrais por meio de ritos diversos. Ainda que reprimidos pela Inquisição, os africanos nascidos em Angola e Congo continuavam cultivando suas práticas religiosas tradicionais em meio às suas panelas, ervas e danças. Sua noção religiosa era tida como demoníaca pelos europeus e, por isso, inúmeras foram as denúncias ao Santo Ofício, a qual se estabeleceu como instituição abundante em fontes acerca deste contexto. Aprender a ler e analisar documentos manuscritos, portanto, é uma habilidade essencial àqueles que se interessam pela história africana, sendo estes acadêmicos ou não.
A Paleografia é uma ciência transdisciplinar cuja ocupação vai muito além da leitura e transcrição de fontes manuscritas antigas. Dessa forma, neste minicurso pretende-se apresentar as noções básicas da área, algumas das possibilidades de contribuição para a História da África seiscentista e setecentista, tanto para a pesquisa como para o ensino. Como não é possível fazer paleografia sem ler manuscritos, objetiva-se também munir os participantes de instrumental básico/razoável de leitura e transcrição de manuscritos em português do período Moderno por meio de atividades de leitura.
Este minicurso é voltado para estudantes da graduação, bem como para professores de ensino fundamental e médio, já que a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) tem apresentado atividades que envolvem a paleografia nos últimos anos e, também, para os demais interessados na área. O curso é introdutório, não precisando haver nenhum contato prévio com manuscritos antigos ou experiência de transcrição, nem ter cursado disciplinas sobre História da África.
As aulas intercalarão exposições teóricas à respeito de Paleografia, História da África e da repressão inquisitorial às cerimônias africanas com exercícios de leitura e transcrição de manuscritos.
09h00 MC10 - Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica. Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica propõe uma reflexão teórico-metodológica sobre o conceito de ruptura na história urbana e sobre os modos de representá-la espacialmente. Partindo da cidade moderna como espaço privilegiado da crise, do colapso e da suspensão da ordem cotidiana, o curso discute como greves, revoltas e outros momentos de tensão social desafiam a produção historiográfica. Ao articular os debates sobre ruptura, modernidade e espacialidade, o minicurso explora o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) como ferramenta interpretativa para a pesquisa histórica, enfatizando seus limites e escolhas narrativas. Longe de uma abordagem meramente técnica, o SIG é apresentado como linguagem historiográfica capaz de contribuir para a discussão de conflitos. O curso combina exposições teóricas, discussão de fontes históricas produzidas em contextos de crise e atividades práticas de introdução ao SIG, incluindo noções fundamentais de georreferenciamento, vetorização, construção de tabelas de atributos e elaboração de mapas. Ao final, busca-se capacitar os participantes a pensar criticamente o mapa como forma de escrita da história, compreendendo-o como argumento, escolha e narrativa, inclusive sobre o “tempo do fim”.
Os objetivos são: Discutir o conceito de ruptura como problema histórico, articulando cidade, modernidade e crise social; Refletir sobre a espacialidade das rupturas urbanas e sobre os modos como elas se manifestam no espaço; Introduzir os fundamentos do uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) aplicados à pesquisa histórica; Desenvolver uma leitura crítica da cartografia histórica, compreendendo o mapa como forma de narrativa e interpretação do passado.
Em um contexto historiográfico marcado pelo interesse nas experiências de ruptura, colapso e
fim é fundamental refletir sobre como esses processos podem ser representados e narrados. As cidades modernas, atravessadas por conflitos, constituem espaços privilegiados para a observação dessas experiências-limite. Ao mesmo tempo, o crescente uso de ferramentas digitais na história demanda uma discussão crítica sobre seus pressupostos, possibilidades e riscos. Este minicurso se justifica, portanto, pela necessidade de articular teoria da história, história urbana e Humanidades Digitais, oferecendo aos participantes instrumentos conceituais e práticos para representar espacialmente a ruptura sem neutralizá-la.
09h00 MC12 - Pensamento negro brasileiro na historiografia: rupturas, cultura e luta antirracista. Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O pensamento negro brasileiro constituiu-se historicamente como um campo de elaboração intelectual profundamente vinculado às experiências de violência, dominação racial e luta política, produzindo interpretações críticas sobre o passado, o presente e os horizontes de futuro da sociedade brasileira. Em diferentes momentos históricos, intelectuais, artistas e militantes negros elaboraram diagnósticos sobre a crise da ordem colonial e pós-escravista, questionaram narrativas hegemônicas do tempo histórico e formularam projetos alternativos de reorganização social, nos quais raça, classe, cultura e política aparecem de forma indissociável.
Este minicurso propõe analisar contribuições centrais do pensamento negro brasileiro a partir do diálogo entre historiografia, teoria social e produção cultural, tomando como eixo as noções de ruptura histórica, racismo, crise e “horizonte de expectativas”. Partindo do diálogo com autores como Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Solano Trindade, discutiremos como a experiência histórica de sujeitos negros foi mobilizada por meio de um amplo repertório de elaborações e ações políticas, intelectuais, culturais e teóricas, bem como pelo movimento negro como força histórica ativa, capaz de produzir fissuras permanentes na ordem social e de projetar futuros em disputa.
O curso dialoga com a tradição da história social, especialmente com a noção de experiência histórica desenvolvida por E. P. Thompson, compreendendo cultura e política como dimensões constitutivas dos conflitos sociais. Nessa perspectiva, as formulações do pensamento negro brasileiro são analisadas também como elaboração situada de experiências históricas concretas de dominação, resistência e organização coletiva, sobretudo, aquelas que levem em consideração a agência dos sujeitos históricos.
09h00 MC02 - Quem Fala por Elas? Mulheres, Religião e Autoridade nas Fontes e na Historiografia Medieval. Minicurso
Local: Auditório Carangola - FAFICH

O minicurso propõe analisar como diferentes tradições religiosas medievais produziram formas específicas de autoridade feminina e como a historiografia moderna constrói, interpreta ou projeta essas presenças. Partindo de uma abordagem comparativa, o curso examina a constituição da categoria “mulheres medievais” como objeto historiográfico, os problemas metodológicos envolvidos na leitura das fontes e os riscos de anacronismo na aplicação de conceitos como agência, emancipação e esfera pública.

Inicialmente, serão discutidas as condições de produção das fontes — majoritariamente masculinas e institucionais —, os silêncios documentais e os mecanismos de construção textual da autoridade religiosa. Em seguida, o curso abordará experiências de ascese e inserção pública no Ocidente latino, por meio da análise de trajetórias como as de Christina de Markyate, Margarida de Cortona e Catarina de Siena, problematizando redes de legitimação, mediações institucionais e inserção urbana.

O terceiro eixo contempla o sufismo no Egito aiúbida e mameluco (séculos XIII–XV), discutindo a participação feminina em confrarias e espaços urbanos religiosos a partir de relatos de viagem e documentação institucional, como os registros de Ibn Battuta e Ibn Khaldun. Serão examinadas as categorias mobilizadas pela historiografia para interpretar essas experiências e seus limites analíticos.

Por fim, será analisada a experiência visionária de Juliana de Norwich, especialmente em Revelações do Amor Divino, discutindo a articulação entre criação, natureza e autoridade espiritual, bem como os desafios da leitura ecocrítica aplicada a textos medievais.

Com carga horária total de 12 horas, distribuídas em quatro dias de 3 horas cada, o minicurso será estruturado em exposições teóricas, análise orientada de fontes e debates, buscando oferecer instrumentos críticos para a leitura historiográfica das formas de autoridade feminina no medievo, evitando tanto o apagamento documental quanto a romantização anacrônica.

09h00 MC04 - Reflexões Metodológicas no campo da Historiografia das Lesbianidades Minicurso
Local: Fafich - UFMG
Apesar do crescimento significativo dos estudos sobre gênero e sexualidades nas últimas décadas, sobretudo do aumento de pesquisas dedicadas às lesbianidades no Brasil, ainda é relativamente restrito o debate sistemático sobre os fundamentos metodológicos da historiografia das lesbianidades. Observa-se que as experiências de mulheres que amaram mulheres são incorporadas à narrativa histórica como tema ou objeto, mas sem que se discutam de modo aprofundado as implicações conceituais, as escolhas interpretativas e os impasses metodológicos envolvidos em sua escrita.
O fortalecimento do campo, longe de encerrar o debate, inaugura um novo desafio. Não se trata apenas de incluir essas sujeitas nas narrativas existentes, mas de interrogar as condições de possibilidade dessa inclusão. Como escrever a história das lesbianidades? Quais categorias mobilizamos ao nomear o desejo entre mulheres? Como lidar com a tensão entre anacronismo e reconhecimento histórico? O que pode ser considerado evidência de desejo? De que maneira nossas decisões metodológicas não apenas descrevem, mas produzem o próprio objeto que pretendemos investigar?
Segundo Valerie Traub, entre os debates que marcaram a consolidação da história lésbica, destaca-se a tensão metodológica entre alteridade e continuísmo. De um lado, abordagens orientadas pela ênfase na diferença histórica sustentam que categorias contemporâneas de identidade sexual não podem ser projetadas retrospectivamente sobre o passado; de outro, perspectivas continuístas defendem a existência de um fio de ligação entre experiências pretéritas de desejo entre mulheres e as identidades lésbicas modernas. O peso atribuído a uma ou outra posição impactou profundamente a prática da historiografia das lesbianidades, orientando escolhas conceituais, delimitações cronológicas e critérios de evidência.
Nesse debate, trabalhos como Surpassing the Love of Men, de Lillian Faderman, apostaram em uma narrativa de continuidade entre “amizades românticas” e identidade lésbica moderna. Martha Vicinus, ao enfatizar a coexistência de permanências e transformações nas formas de intimidade entre mulheres, também explorou padrões recorrentes ao longo do tempo. Já Judith Bennett, ao propor a noção de “lesbian-like”, buscou enfrentar os dilemas da alteridade histórica distinguindo mudanças estruturais no status das mulheres de continuidades nas experiências afetivas.
No entanto, Valerie Traub nos atenta ao fato de que essa dicotomia pode ter ultrapassado sua utilidade analítica. Para ela, o desafio contemporâneo desloca o foco da pergunta identitária para a investigação das estruturas de sentido que tornaram inteligível ( ou impensável) o desejo entre mulheres em diferentes contextos. Ao propor a análise das “meta-lógicas explicativas” e dos “ciclos de saliência” que tornam certas configurações mais ou menos visíveis ao longo do tempo, Traub aponta para a possibilidade de um novo paradigma metodológico capaz de articular historicidade rigorosa e reconhecimento de padrões sem recair nem no anacronismo simplificador, nem na fragmentação absoluta da experiência histórica.
É nesse horizonte que o presente minicurso se insere. Seu objetivo geral é discutir debates metodológicos centrais da historiografia das lesbianidades, analisando contribuições teóricas que problematizam categoria, evidência, continuidade histórica e anacronismo. Especificamente, propõe-se apresentar autoras fundamentais para a consolidação do campo; examinar os impasses entre recuperação do passado e projeção de categorias contemporâneas; discutir ferramentas conceituais elaboradas para enfrentar o problema da alteridade histórica; e refletir sobre possíveis deslocamentos metodológicos. Mais do que oferecer uma história temática das lesbianidades, o minicurso pretende contribuir para reflexão epistemológica e de instrumentos analíticos do campo das lesbianidades.
09h00 MC05 - História do Lazer: conversas a partir de pesquisas em suas fontes, métodos e possibilidades de avanços Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O lazer é aqui compreendido como parte fundamental da cultura e da vida humana, se fazendo presente nas diferentes sociedades e temporalidades. Como uma das experiências do cotidiano é também objeto legítimo de estudos históricos. A intenção deste minicurso é discutir o lazer como potente lente de análise da história.
Para tanto, os encontros se concentrarão na discussão de pesquisas que se dedicaram às mais diferentes práticas de lazer em diversas temporalidades e espacialidades. Os trabalhos serão destacados em seus recortes temporais e geográficos e as fontes mobilizadas, com o intuito de entender como essas pesquisas sobre a história do lazer são realizadas, as possibilidades de avanço e os eventuais limites. O minicurso está planejado para ocorrer em 03 dias, com duração de 03 horas cada dia.
Dito isso, para o primeiro dia, a proposta é apresentar a problemática em torno da perspectiva dominante sobre o lazer, qual seja a ideia de que esse é um fenômeno social de natureza moderna, derivado da separação artificial do tempo do trabalho e do não-trabalho que as sociedades industrializadas se orientam. Elegi alguns trabalhos teóricos para essa discussão como o de Peter Burke (2019), o qual diverge dessa perspectiva dominante questionando a dicotomia: “cultura de festivais” e “lazer”; o de Cléber Dias (2018) que debate trabalhos que trazem perspectivas interpretativas diferentes; e o texto de Flávia Santos (2019), o qual, junto à História Conceitual, aborda a problemática da palavra lazer mesmo quando a análise se debruça em tempos quando esse vocábulo não existia ou era pouco usual.
Ainda para o primeiro dia, está planejada a discussão de outros textos que debatem o lazer e marcadores sociais relevantes no debate contemporâneo, como gênero, raça e classe. Para as discussões de gênero o texto será o de Silvana Goellner (2008), sobre a política eugenista no Brasil dos anos 1930 focalizando o corpo feminino no contexto esportivo; a respeito de raça, elenco o texto de Márcio Aguiar (2007), o qual analisa o Grêmio Recreativo Flor de Maio, fundado no início do século XX pelos trabalhadores pretos de São Carlos - SP; e, para o debate de classe, proponho o trabalho de Marlaine Almeida (2017), a qual analisa as mulheres de elite e suas formas de participação nos clubes esportivos de Aracajú (1919-1926). O segundo dia será dedicado a observar o lazer nas diferentes temporalidades que constituem a periodização tradicional da história brasileira. O lazer no contexto colonial será visto na tese de Maria Cristina Rosa (2005), a qual se dedicou a analisar a educação dos corpos e a diversão na Vila Rica do século XVIII, local estruturado e reestruturado pelo Estado e pela Igreja, as instituições de poder dominantes, e que a partir das normas e transgressões revelam os divertimentos lícitos e ilícitos, portanto, as normas, as transgressões e estratégias de resistência dos corpos que ali participaram de festas, jogos, batuques, batizados e danças que aconteciam nas vendas, igrejas, ruas e casas. O império, por sua vez, será visualizado no texto de Lídia Santos (2015), a qual aborda a realidade do Recife a partir das festas, a análise de documentos como processos judiciais, outros documentos oficiais e periódicos desvelam as vendas, tabernas e botequins e a complexa rede de apoio e conflitos entre escravos e homens livres, os quais nesses locais se encontram em festas, jogos e conflitos de toda sorte, revelando uma estrutura social particular à oficial e resistente ao endurecimento da ordem pública que a elite impunha em nome da ideia de civilidade. Ainda sobre o Império, o trabalho de Bernardo Gomes (2025) também será discutido, o qual focalizou as práticas de divertimento na cidade de Petrópolis entre os anos de 1875-1888 a partir dos periódicos, revelando como a cidade que se queria moral e civilizada se organizava, sendo fortemente influenciada pelas presenças e ausências da família imperial. Por fim, para o período republicano, a dissertação de Letícia Azevedo (2024) será debatida, essa que se dedicou a analisar as representações de lazer e gênero na revista Bello Horizonte durante a década de 1930, discutindo como a cidade - a primeira cidade planejada do período republicano brasileiro - era vista pela elite que consumia esse periódico e nela era representada. Ainda sobre o período republicano será discutido o texto de Sidney Lobato (2014), o qual focalizou a cidade de Macapá entre os anos de 1944-1964 analisando os momentos de prazer e diversão dos trabalhadores.
O terceiro dia se concentrará no debate regional a partir de textos que mostram como a história do lazer é também potente para revelar as histórias das cidades e sua pluralidade no heterogêneo quadro nacional. Para a cidade de São Paulo será o texto de Flávia Santos (2013), o qual mostrará os primórdios do esporte. Rio de Janeiro será focalizado pelo texto de Victor Melo (2016), o qual também discute o início das práticas esportivas. Focalizando um contexto fronteiriço, a Região Platina, o trabalho de Matheus Donay (2025) será debatido e esse se concentrou em divertimentos praticados na zona rural, revelando aspectos políticos, econômicos e culturais do Brasil e a dita América Platina do século XIX. Por fim, a cidade de Rio Branco será vista a partir do trabalho de Joyce Corrêa e Flávia Santos (2025), o qual, a partir de periódicos, discute a vida divertida em meio à crise econômica do mercado de borracha no início do século XX.
Ainda no terceiro dia, o minicurso fará considerações finais com análise sobre todos os trabalhos apresentados, mostrando as fontes mais mobilizadas, os grupos sociais visualizados, bem como os recortes temporais e geográficos elegidos; como forma de apontar os caminhos trilhados e a potencialidade para outros vindouros que, possivelmente, as (os) inscritas (os) possam desenvolver.
09h00 MC08 - Bruxas, gênero e narrativa: entre a História e a crítica literária feminista. Minicurso
Local: Sala 1010 - FAFICH
O minicurso propõe uma abordagem crítica e interdisciplinar sobre a construção histórica, simbólica e narrativa da figura da bruxa, articulando debates da historiografia, dos estudos de gênero e da crítica literária feminista. Parte-se da compreensão da bruxaria como categoria histórica produzida em contextos específicos de repressão, disciplinamento social e controle dos corpos e saberes femininos, mas também como espaço de ressignificação política, cultural e estética nas leituras contemporâneas.
O curso está estruturado em dois módulos complementares. No primeiro módulo, será apresentada uma leitura historiográfica da caça às bruxas, com ênfase nas contribuições das teorias feministas e dos estudos de gênero, especialmente a partir das décadas finais do século XX. Discute-se a reinterpretação do fenômeno inquisitorial como prática marcada por relações de poder, patriarcado e misoginia, problematizando explicações tradicionais que desconsideravam o gênero como categoria analítica central. Serão abordadas as disputas historiográficas em torno da bruxaria, os limites das interpretações clássicas e os aportes teóricos que evidenciam a perseguição às mulheres como elemento estruturante do processo histórico.
O segundo módulo dedica-se à análise das representações literárias da bruxaria, tomando como estudo de caso o romance Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem, de Maryse Condé. A partir da crítica literária feminista, serão examinadas as estratégias narrativas por meio das quais a obra revisita o passado, tensiona discursos históricos hegemônicos e reinscreve a experiência feminina negra no centro da narrativa. Discute-se a literatura como espaço de memória, crítica e reimaginação histórica, capaz de produzir leituras contra-hegemônicas sobre a bruxaria, o colonialismo, o racismo e o gênero.
Ao articular história e literatura, o minicurso busca ampliar o diálogo interdisciplinar e estimular reflexões críticas sobre gênero, memória, narrativa e poder, contribuindo para o debate historiográfico e cultural sobre a bruxaria e suas permanências simbólicas na contemporaneidade, em consonância com o tema geral do XIII EPHIS.
A proposta integra as ações do Núcleo de Estudos Inquisitoriais na Amazônia (NEIAM) e se propõe a fomentar reflexões interdisciplinares sobre gênero, memória e narrativa, ampliando o diálogo entre história e literatura no campo dos estudos inquisitoriais.
09h00 MC09 - Não é magia, é paleografia: leitura de manuscritos nos estudos sobre História da África Minicurso
Local: CEPAMM - FAFICH
Os estudos das sociedades africanas no chamado Período Moderno tornaram-se uma área de grande relevância na historiografia atual. Uma das fontes mais ricas em informações são os documentos produzidos pela Inquisição portuguesa, quase sempre manuscritos. Este minicurso pretende aliar em ensino de metodologias para a leitura e transcrição de manuscritos em língua portuguesa no Período Moderno com discussões acerca de religiosidades africanas descritas e perseguidas pelo Santo Ofício, sobretudo no Congo e em Angola entre os séculos XVII e XVIII e algumas possibilidades e limites da documentação inquisitorial nesses estudos.
Era essencial à vivência religiosa centro-africana o culto aos ancestrais por meio de ritos diversos. Ainda que reprimidos pela Inquisição, os africanos nascidos em Angola e Congo continuavam cultivando suas práticas religiosas tradicionais em meio às suas panelas, ervas e danças. Sua noção religiosa era tida como demoníaca pelos europeus e, por isso, inúmeras foram as denúncias ao Santo Ofício, a qual se estabeleceu como instituição abundante em fontes acerca deste contexto. Aprender a ler e analisar documentos manuscritos, portanto, é uma habilidade essencial àqueles que se interessam pela história africana, sendo estes acadêmicos ou não.
A Paleografia é uma ciência transdisciplinar cuja ocupação vai muito além da leitura e transcrição de fontes manuscritas antigas. Dessa forma, neste minicurso pretende-se apresentar as noções básicas da área, algumas das possibilidades de contribuição para a História da África seiscentista e setecentista, tanto para a pesquisa como para o ensino. Como não é possível fazer paleografia sem ler manuscritos, objetiva-se também munir os participantes de instrumental básico/razoável de leitura e transcrição de manuscritos em português do período Moderno por meio de atividades de leitura.
Este minicurso é voltado para estudantes da graduação, bem como para professores de ensino fundamental e médio, já que a Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) tem apresentado atividades que envolvem a paleografia nos últimos anos e, também, para os demais interessados na área. O curso é introdutório, não precisando haver nenhum contato prévio com manuscritos antigos ou experiência de transcrição, nem ter cursado disciplinas sobre História da África.
As aulas intercalarão exposições teóricas à respeito de Paleografia, História da África e da repressão inquisitorial às cerimônias africanas com exercícios de leitura e transcrição de manuscritos.
09h00 MC10 - Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica. Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O minicurso Mapa do fim do mundo: rupturas, cidade e cartografia histórica propõe uma reflexão teórico-metodológica sobre o conceito de ruptura na história urbana e sobre os modos de representá-la espacialmente. Partindo da cidade moderna como espaço privilegiado da crise, do colapso e da suspensão da ordem cotidiana, o curso discute como greves, revoltas e outros momentos de tensão social desafiam a produção historiográfica. Ao articular os debates sobre ruptura, modernidade e espacialidade, o minicurso explora o uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) como ferramenta interpretativa para a pesquisa histórica, enfatizando seus limites e escolhas narrativas. Longe de uma abordagem meramente técnica, o SIG é apresentado como linguagem historiográfica capaz de contribuir para a discussão de conflitos. O curso combina exposições teóricas, discussão de fontes históricas produzidas em contextos de crise e atividades práticas de introdução ao SIG, incluindo noções fundamentais de georreferenciamento, vetorização, construção de tabelas de atributos e elaboração de mapas. Ao final, busca-se capacitar os participantes a pensar criticamente o mapa como forma de escrita da história, compreendendo-o como argumento, escolha e narrativa, inclusive sobre o “tempo do fim”.
Os objetivos são: Discutir o conceito de ruptura como problema histórico, articulando cidade, modernidade e crise social; Refletir sobre a espacialidade das rupturas urbanas e sobre os modos como elas se manifestam no espaço; Introduzir os fundamentos do uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) aplicados à pesquisa histórica; Desenvolver uma leitura crítica da cartografia histórica, compreendendo o mapa como forma de narrativa e interpretação do passado.
Em um contexto historiográfico marcado pelo interesse nas experiências de ruptura, colapso e
fim é fundamental refletir sobre como esses processos podem ser representados e narrados. As cidades modernas, atravessadas por conflitos, constituem espaços privilegiados para a observação dessas experiências-limite. Ao mesmo tempo, o crescente uso de ferramentas digitais na história demanda uma discussão crítica sobre seus pressupostos, possibilidades e riscos. Este minicurso se justifica, portanto, pela necessidade de articular teoria da história, história urbana e Humanidades Digitais, oferecendo aos participantes instrumentos conceituais e práticos para representar espacialmente a ruptura sem neutralizá-la.
09h00 MC11 - O olhar e o gênero: História da arte e feminismos a partir de Joan Scott Minicurso
Local: Auditório Baesse
O minicurso explora a intersecção entre a historiografia feminista e a crítica da arte. Utilizando o referencial de Joan Scott (2024), o curso analisa como o gênero atua como uma categoria estética e política, desconstruindo o cânone artístico e investigando a representação da mulher na cultura visual brasileira. Temos, como recorte temporal, a virada do século XIX para o XX. Seguindo a lógica pós-estruturalista de Scott, realizaremos a leitura de quadros e fotografias como “textos” que articulam hierarquias. O corpo, nesse sentido, torna-se a pauta, uma vez que nos deparamos, com frequência, com a idealização da mulher. Na História da arte isso se traduz no controle do corpo feminino através da moldura e do olhar. Trabalharemos com o conceito de iconografia de gênero, cruzando a crítica da arte com as teorias feministas e aplicando-as ao contexto brasileiro do período estudado. O programa do minicurso compreende as seguintes discussões:
1) O gênero como categoria de análise aplicado à imagem e a arte como sistema de significações que produzem a diferença sexual. O conceito de experiência na epistemologia feminista. Discussão acerca da leitura de Scott sobre a “história como crítica”. A construção visual das noções de gênero e de poder nos séculos XIX e XX. Referências: Joan Scott (2024), Linda Nochlin (2016) e Pierre Bourdieu (1996).
2) Itinerários do olhar: de musas a sujeitos. Gênero, arte e educação no Brasil na passagem do século XIX para o XX: possibilidades e desafios. A visualidade como fonte histórica: os instrumentos teóricos de análise da História da arte e sua aplicabilidade ao contexto brasileiro. Análise de pinturas e retratos de autoria de artistas brasileiras enquanto discursos visuais: Abigail de Andrade (1864-1890), Georgina de Albuquerque (1885-1962), Angelina Agostini (1888-1973), Regina Veiga (1890-1968) e Haydéa Santiago (1896-1890). Referências: Ana Paula Simioni (2004), Flávia Leme de Almeida (2010), Lilian Sarat de Oliveira (2008).
3) Gênero e representação visual na pesquisa em História: metodologias, leituras das iconografias de uma época e identificação das “normas da feminilidade” e das resistências expressas na cultura material e visual. O espaço do ateliê como registro da experiência. A memória e as suas potencialidades dentro da pesquisa acadêmica. A importância da noção de “escrita de si” e das fontes complementares (jornais, periódicos, cartas) para a elaboração de concepções acerca da História da arte sob a perspectiva da historiografia feminista. Referências: Michel Foucault (1996; 2004), Filipa Vicente (2012), Nádia Senna (2007), Luciana Loponte (2002) e Paul Ricoeur (2007).
4) Políticas da imagem e agências femininas: a arte como espaço de subversão do olhar. A autoria feminina como vetor de renovação estética, aportando novas dimensões de afeto aos estilos tradicionais do período: realismo, naturalismo, impressionismo e pós-impressionismo. Discussão sobre o campo artístico brasileiro no contexto das emergências modernistas e o impacto das mesmas na realidade social brasileira e nas relações de gênero: Tarsila do Amaral (1886-1973) e Anita Malfatti (1889-1964). Panorama da questão do gênero na arte contemporânea e possibilidades de pesquisa para a área. Referências: Charles Baudelaire (1996), Michael Baxandall (2006) e Ana Paula Simioni (2002).
09h00 MC12 - Pensamento negro brasileiro na historiografia: rupturas, cultura e luta antirracista. Minicurso
Local: Fafich - UFMG
O pensamento negro brasileiro constituiu-se historicamente como um campo de elaboração intelectual profundamente vinculado às experiências de violência, dominação racial e luta política, produzindo interpretações críticas sobre o passado, o presente e os horizontes de futuro da sociedade brasileira. Em diferentes momentos históricos, intelectuais, artistas e militantes negros elaboraram diagnósticos sobre a crise da ordem colonial e pós-escravista, questionaram narrativas hegemônicas do tempo histórico e formularam projetos alternativos de reorganização social, nos quais raça, classe, cultura e política aparecem de forma indissociável.
Este minicurso propõe analisar contribuições centrais do pensamento negro brasileiro a partir do diálogo entre historiografia, teoria social e produção cultural, tomando como eixo as noções de ruptura histórica, racismo, crise e “horizonte de expectativas”. Partindo do diálogo com autores como Clóvis Moura, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Solano Trindade, discutiremos como a experiência histórica de sujeitos negros foi mobilizada por meio de um amplo repertório de elaborações e ações políticas, intelectuais, culturais e teóricas, bem como pelo movimento negro como força histórica ativa, capaz de produzir fissuras permanentes na ordem social e de projetar futuros em disputa.
O curso dialoga com a tradição da história social, especialmente com a noção de experiência histórica desenvolvida por E. P. Thompson, compreendendo cultura e política como dimensões constitutivas dos conflitos sociais. Nessa perspectiva, as formulações do pensamento negro brasileiro são analisadas também como elaboração situada de experiências históricas concretas de dominação, resistência e organização coletiva, sobretudo, aquelas que levem em consideração a agência dos sujeitos históricos.
09h00 MC14 - Modos de pensar a História em Machado de Assis Minicurso
Local: FaFiCH - UFMG

O objetivo deste minicurso é apresentar sumariamente modos de pensar a obra machadiana e a figura de Machado de Assis a partir de algumas perspectivas literárias e historiográficas. Ao longo do minicurso, serão abordados três eixos fundamentais: estudos histórico-sociológicos, estudos em teoria da história e estudos de história da recepção. No primeiro eixo, serão analisadas as clássicas abordagens histórico-sociológicas que, sobretudo a partir de meados do século XX, complexificaram a presença da história (ou, pelo menos, de algumas concepções de história) na obra de Machado de Assis, assim como sua agência como sujeito histórico. No segundo eixo, serão explicitados os pressupostos teórico-metodológicos que têm possibilitado problematizar a obra machadiana a partir da teoria e da escrita da história (com ênfase em temas como tempo e afeto). No terceiro eixo, serão discutidas pesquisas em história da recepção que buscam compreender a consolidação e as disputas em torno da memória de Machado de Assis ao longo dos séculos XX e XXI. De modo geral, o minicurso pretende oferecer, com densidade e em interlocução com a teoria da história e com a história da historiografia, um panorama amplo – ainda que necessariamente seletivo – da obra machadiana e de sua fortuna crítica.

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Local

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 31270-901, Av. Pres. Antônio Carlos, 6627, Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais
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EPHIS 2026