O primeiro da ISCAR dedicado especificamente à América Latina – surge como um espaço de encontro, diálogo e construção coletiva de conhecimentos comprometidos com a transformação social. Inspirados no conceito freireano de "esperançar" (que é agir, buscar, construir ativamente) e no legado de Lev S. Vigotski e seus colaboradores, convidamos todos e todas a pensarmos juntos sobre os desafios e as possibilidades de construir uma educação e uma psicologia verdadeiramente comprometidas com a justiça social, a equidade e a emancipação dos povos latino-americanos. CARTA CONVITE
Eixo Temáticos
Eixo 1. Esperançar e Agência Transformadora: Construindo o Inédito Viável na Educação e nas Comunidades
Este eixo acolhe trabalhos que investiguem processos de criação de alternativas em contextos de desigualdade. Interessa particularmente como a pesquisa-intervenção, a pesquisa crítica de colaboração e os experimentos formativos — também aqueles fundamentados no método genético da Teoria Histórico-Cultural — podem fomentar agência coletiva para superar o que Paulo Freire chamou de "situações-limite". São bem-vindas reflexões sobre o papel da escola, da educação inclusiva, da educação rural, dos movimentos sociais e de práticas educativas não-escolares na construção de justiça social e cognitiva.
Eixo 2. Ensino-Aprendizagem de Disciplinas Escolares: Formação e Prática Docente de Conceitos Científicos, Mediação e Desenvolvimento do Pensamento Teórico
Este eixo acolhe pesquisas empíricas (especialmente experimentos formativos e pesquisas de intervenção), estudos teóricos e revisões bibliográficas que investiguem o ensino-aprendizagem de disciplinas escolares sob a perspectiva histórico-cultural. O objetivo é fortalecer o diálogo entre a Teoria Sócio-Histórico-Cultural (TSHC) e as áreas de Educação em Ciências, Educação Matemática, Ensino de Geografia, Ensino de História, Ensino de Sociologia etc., contribuindo para a construção de práticas pedagógicas que promovam uma aprendizagem significativa, crítica e socialmente relevante, capaz de superar as lacunas historicamente produzidas pela desigualdade.
Eixo 3. Temporalidades, Tecnologias e (Des)Alienação: Desenvolvimento Humano na Era Digital
Em diálogo com as pesquisas do ISCAR-Brasil sobre IA, este eixo convida a pensar sobre o impacto das tecnologias digitais e da aceleração social nos processos de desenvolvimento. Como as novas tecnologias (incluindo a Inteligência Artificial) reconfiguram as relações de ensino-aprendizagem, a intersubjetividade e as condições de trabalho? Que formas de alienação emergem e como a perspectiva histórico-cultural pode ajudar a construir um letramento algorítmico crítico e práticas de resistência digital?
Eixo 4. Interculturalidade, Decolonialidade e Epistemologias do Sul: O Diálogo de Saberes na Pesquisa Sócio-Histórico-Cultural
Este eixo propõe um diálogo fundamental entre a tradição vigotskiana e os pensamentos decolonial e intercultural latino-americano. Busca-se investigar como as categorias da teoria (como mediação, atividade, perejivanie) podem ser enriquecidas pelo encontro com saberes de povos originários, comunidades quilombolas e tradições de luta da América Latina. Como construir metodologias de pesquisa que não sejam extrativistas, mas que promovam a cosmovisão entre diferentes horizontes culturais e epistêmicos?
Eixo 5. Subjetividade, Aprendizagem e Desenvolvimento ao Longo da Vida
Com base nos desenvolvimentos teóricos de González Rey e colaboradores, este eixo focaliza a subjetividade como produção histórico-cultural. São bem-vindos estudos que explorem a constituição subjetiva em diferentes espaços e momentos da vida (infância, juventude, idade adulta), investigando as complexas relações entre aprendizagem, sentido pessoal, emoção e contexto social. Interessa particularmente a pesquisa sobre formação de professores, desenvolvimento profissional e trajetórias de vida em contextos de vulnerabilidade.
Eixo 6. Educação Inclusiva, Acessibilidade e Defectologia: A Compensação Social como Caminho para o Desenvolvimento Humano
Este eixo temático parte das contribuições fundamentais de Vigotski no campo da defectologia para pensar a educação inclusiva não como benevolência, mas como direito inalienável. Vigotski propõe uma virada epistemológica radical: em vez de focalizar o "defeito" como determinação, devemos compreendê-lo como forma de organização que abre caminhos originais e criativos para o desenvolvimento, por meio da compensação social.
Eixo 7. Psicologia Histórico-Cultural para a Transformação das Condições de Existência: Fundamentos, Método e Práxis
Neste eixo, a psicologia histórico-cultural é convocada a assumir seu potencial insurgente e decolonial. Na América Latina, isso significa colocá-la em diálogo com as lutas dos povos originários, comunidades quilombolas, movimentos sociais, periferias e todos aqueles que tiveram suas condições de existência marcadas pela exploração e silenciamento. Significa tensionar a teoria com as questões urgentes do nosso tempo: crise climática, autoritarismo, desigualdades estruturais, precarização do trabalho, saúde mental, tecnologia e inteligência artificial.
Eixo 8. Esporte/Jogo, Arte e Educação Estética: A Práxis e a interação social como ferramenta de inclusão e transformação de realidades desiguais
Este eixo parte da compreensão vigotskiana de que arte e jogo compartilham a mesma matriz: a imaginação como função cultural que permite ao ser humano ir além da experiência imediata, mobilizar emoções e criar outros mundos possíveis. Mas este eixo também se baseia em autores que trazem a imaginação para a práxis e para a concretização de ações que transformam a realidade a partir da utilização do Esporte, não apenas como mera disciplina, mas como uma ferramenta poderosa de inclusão social, de transformação individual, de superação pessoal e de formação integral. Na América Latina, território de rica diversidade cultural e de lutas históricas, o esporte, o jogo, a arte, a educação estética e o fazer artístico assumem contornos políticos fundamentais: são formas de resistência contra o silenciamento, a brutalidade e o apagamento cultural; são práticas de re-existência que afirmam identidades, corpos e saberes ancestrais; são modos de esperançar ativamente, construindo o inédito viável em contextos de desigualdade.
Eixo 9. Políticas Educacionais, Movimentos Sociais e Educação das Relações Étnico-Raciais na América Latina: tensões, resistências e disputas
Na América Latina, as políticas educacionais têm sido historicamente atravessadas por desigualdades estruturais de raça, etnia e classe. Os movimentos sociais, especialmente os de povos indígenas, comunidades afrodescendentes e quilombolas, atuam como sujeitos políticos centrais na denúncia do racismo epistêmico, do feminicídio, da misoginia, das comunidades LGBTQIAPN+ etc., e na proposição de modelos educacionais contra hegemônicos. Este eixo de pesquisa propõe investigar como esses atores tensionam, influenciam e (re)orientam as políticas educacionais, criando disputas em torno do direito à educação, à memória e à identidade.
Eixo10: Clínica da Atividade e o "Esperançar" no Trabalho: Poder de Agir e Justiça Social na América Latina
Este eixo tem como objetivo explorar as contribuições da Clínica da Atividade (Yves Clot) para a construção de caminhos de justiça social no contexto latino-americano. Partindo do princípio de que o trabalho é uma atividade vital e central na constituição dos sujeitos, a proposta é investigar como as metodologias desenvolvidas por Clot e seus colaboradores – especialmente a autoconfrontação cruzada e a instrução ao sósia – podem funcionar como dispositivos de "esperançar" no mundo laboral. Interessa-nos compreender como a ampliação do poder de agir dos coletivos de trabalho pode contribuir para o enfrentamento da precarização, do adoecimento e da alienação, promovendo saúde, dignidade e transformação social. O eixo acolhe pesquisas e intervenções que articulem os conceitos da clínica da atividade com as lutas concretas de trabalhadores e trabalhadoras na América Latina.